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13/01/2010

Adolescentes mostram um caminho para reconciliar as Coreias

The New York Times
Choe Sang Hun
em Seul
Quando Ju Jin-ho aqui chegou, vindo da Coreia do Norte em 2006, era como se tivesse chegado a um continente estrangeiro, não apenas à ponta Sul da península.

Apesar do desertor de 14 anos entrar para uma turma com crianças um ano ou dois mais jovens que ele, a maior parte de seus colegas era muito mais alta. Eles implicavam com o garoto chamando-o de "vermelho". Eles estavam muito mais avançados do que ele em matérias como matemática. Apesar de estar desesperado para fazer amigos, Ju tinha dificuldades em se comunicar.
  • Yun Suk-bong/Reuters

    Jovens monges budistas observam as lanternas em um templo de Seul (Coréia do Sul)



"Nos recreios, eles só falavam de jogos de computador", disse Ju, hoje com 17 anos de idade. "Comecei a jogar só para poder entrar nas conversas. Fiquei viciado. Minha vista piorou, minhas notas também."

Desde o último verão, contudo, ele está inscrito em um novo programa que busca superar a imensa diferença cultural que se desenvolveu durante a divisão de seis décadas entre o Norte comunista e o Sul capitalista, que até hoje não assinaram um tratado de paz formal desde a guerra coreana de 1950-53. O programa reúne adolescentes sul-coreanos e desertores norte-coreanos em uma rara experiência de construção de afinidades -e é uma preparação para a possível reunificação.

As separações e diferenças de referencial ficaram claras quando Park Sung-eun, sul-coreana de 16 anos conheceu Ju no último verão, por meio do programa, no distrito movimentado de Sinchon, em Seul.

"Quando perguntei a ele como tinha chegado, achei que ele ia dizer de ônibus ou de metrô", disse Park. Em vez disso, ela se lembra: "Ele me contou toda a história da partida da Coreia do Norte e viagem pela China e Mianmar", quando fugiu com sua família em 2005.

O "Programa de encontros de final de semana entre adolescentes do Sul e do Norte" foi iniciado em agosto pelo reverendo Benjamin H. Yoon, 80, diretor da Aliança dos Cidadãos pelos Direitos Humanos dos Norte-Coreanos.

"Apesar de compartilharmos os mesmos genes, os coreanos do Sul e do Norte vivem como povos completamente diferentes, com sotaques diferentes, formas de pensar e de se comportar diversas", disse Yoon. "Esquecemos que, antes da Coreia ser dividida, morávamos no mesmo país, casávamos entre nós."

Sob o programa, o grupo cívico fundado em 1996 reuniu estudantes da escola de meninas Kyunggi, de Seul, com jovens desertores da Coreia do Norte para atividades extra-curriculares.

Eles foram a shows juntos. Cozinharam e compararam os pratos do Norte e do Sul. Os nortistas, adeptos da agricultura, mostraram aos sulistas como colher inhames e fazer espantalhos. Os sulistas deram dicas de como ter sucesso social e acadêmico. Eles se tornaram amigos.

Em uma noite de outubro, quando os alunos tinham ido acampar e ficaram acordados até tarde, Moon Sung-il, norte-coreano de 14 anos comoveu os sul-coreanos quando contou sobre sua fuga de dois anos e meio com outros desertores que os levou pela China, Mianmar e um campo de refugiados em Bancoc. Contudo, o que mais espantou os amigos foi quando disse que nada tinha sido tão assustador quanto uma sala de aula na Coreia do Sul.

"Mal conseguia entender o professor. Meus colegas, todos um ano ou dois mais moços do que eu, me chamavam de 'comedor de sopa pobre do Norte'. Briguei com eles aos socos."

Mais de 17.000 norte-coreanos, 10% deles adolescentes, fugiram para o Sul desde que a fome atingiu sua terra em meados dos anos 90. A viagem para o Sul em média leva 35 meses, na maior parte pela China e sudeste asiático. Nem todos que partem atingem seu objetivo; alguns são pegos e voltam para o Norte, onde muitas vezes vão parar em campos de trabalho.

Quando ingressam nas escolas do Sul, começam praticamente do zero. No Norte, eles passam tanto tempo aprendendo sobre a família de seu líder, Kim Jong-il, quando do resto da história da Coreia. Poucos aprendem inglês, obrigatório nas escolas do Sul. O índice de desistência escolar é cinco vezes maior do que no Sul, de acordo com o Ministério da Educação.

Com o número de refugiados norte-coreanos crescendo cerca de 10% ao ano, sua integração se tornou um teste inicial da possível reunificação.

"Toda vez que aparecia alguma coisa ruim sobre a Coreia do Norte durante as aulas, todo mundo se voltava para mim", disse Ju, que frequenta uma escola alternativa para desertores, após repetir de ano em uma escola normal do ensino médio. "Quando os professores e alunos falavam mal da Coreia do Norte, me sentia insultado". Park disse que tinha opinião ruim dos norte-coreanos. "Eu os associava com pobreza, algo negativo e escuro", disse ela.

Apesar de muitos sul-coreanos de sucesso terem suas raízes no Norte -o primeiro presidente do país, Syngman Rhee; o criador do império Hyundai; a família que construiu o jornal influente Chosun; os fundadores de algumas das maiores igrejas cristãs- os norte-coreanos têm uma imagem de cidadãos de segunda classe, que passam fome e necessidades mas são grosseiros e beligerantes. Eles receberam assistência alimentar do Sul, mas o ameaçaram com guerra, têm campos de prisioneiros e armas nucleares. São amigáveis para com a China, mas rejeitaram negociações com o Sul.

A desconfiança é mútua. No Norte, os professores dizem às crianças que a Coreia do Sul é uma colônia americana, um trampolim para uma futura invasão, segundo os desertores.

"Lá no Norte, raramente ouvíamos os professores falarem de unificação. Raramente pensávamos nisso. Ainda não acho que é possível. As duas economias são muito diferentes", disse Choi Hyok-Chol, desertor de 19 anos.

Em uma pesquisa em junho, com 1.000 sul-coreanos entre 19 e 59 anos, conduzida pelo Instituto Paz na Coreia, um instituto de pesquisa cristão, metade dos entrevistados disseram que a unificação não era necessária, desde que os dois lados vivessem em paz. Em uma pesquisa em setembro com 1.000 pessoas de 19 a 39 anos do Conselho Consultor de Unificação Nacional para o presidente sul-coreano revelou que 67% queriam que a unificação fosse gradual para evitar caos político e econômico.

Apesar do espírito de unificação persistir no Sul, muitos hesitam diante do provável custo proibitivo de integrar as economias. A renda per capita do Norte é de apenas 6% do Sul, de acordo com o Banco da Coreia.

"Eu costumava me opor à unificação porque pensava que íamos perder mais do que ganhar", disse Hur Ji-young, aluna da Kyunggi. Sua amiga Im Hyo-jeong, contudo, disse que apoiava porque via uma vantagem econômica em um mercado interno maior.

Depois de conviver com adolescentes da Coreia do Norte e por um semestre ouvir sobre suas dificuldades e preocupações com os parentes que ficaram para trás, os sul-coreanos disseram que acreditavam mais fortemente na unificação, mas agora menos por razões econômicas do que algo mais próximo à boa vontade.

"Antes de entrar para este programa, considerava a unificação com uma calculadora, não com o coração", disse Hur.

Tradução: Deborah Weinberg

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