UOL Notícias Internacional
 

14/01/2010

Comunidades haitianas em Nova York sofrem com a falta de informações

The New York Times
James Barron
Em Nova York (EUA)
Eles sabem como dar os telefonemas. Eles sabem o que pedir e enviar.

Em uma cidade de comunidades insulares de imigrantes, ninguém tem mais experiência em ajudar desastres em casa e saber como fazer as conexões cruciais de vida ou morte do que as comunidades haitianas no Brooklyn e em Cambria Heights, Queens.

Mas ninguém estava pronto para um terremoto de tamanha intensidade, o primeiro no Haiti em mais de 250 anos. Além dos temores a respeito de parentes que não puderam ser contatados por telefone, o desastre criou desafios que nem mesmo os haitianos enfrentaram antes.
  • Alan Diaz/AP

    Em Miami (EUA), familiares tentam entrar em contato com parentes que moram no Haiti para saber informações após forte tremor que atingiu o país na última terça-feira

Alguns lotaram as igrejas que realizaram orações especiais na hora do almoço, ajoelhando, acenando fotos de entes queridos, soluçando. "Eu estou rezando para todos no Haiti -meu coração está lá", disse Marie St. Aime, 57 anos, uma enfermeira cujo irmão, com seus oito filhos, mora perto do palácio presidencial. Não há nenhuma notícia dele.

Alguns, frustrados com a falta de resposta quando ligam para os números de parentes, tentaram outros. "Eles nos ligam na esperança de podermos enviar mensagens ao Haiti para eles", disse Ricot Dupuy, um locutor da Radio Soleil d'Haiti, no Brooklyn. Tantas pessoas ligaram que a emissora pediu aos ouvintes que parassem.

Algumas foram ao consultório do dr. Jean Claude Compas, na Eastern Parkway, no Brooklyn, onde ele estava organizando uma missão médica. Os únicos sons eram o do digitar das teclas dos BlackBerrys, enquanto as pessoas discavam números no Haiti, na esperança de que dessa vez, finalmente, conseguiriam completar a chamada.

De repente, alguém anunciou: "Desmond está bem".

As pessoas acenaram positivamente a cabeça e voltar a discar e enviar mensagens. Compas, um médico haitiano-americano, transformou o consultório em um centro de coleta de donativos de roupas e alimentos. Mas com as estradas para o aeroporto da capital, Porto Príncipe, intransitáveis, o desafio será levar os donativos, e as pessoas que poderiam ajudar a distribuí-los, para onde são necessários.
  • Bebeto Matthews/AP

    Luna Charles chora durante missa no Brooklyn, bairro de Nova York. A comunidade haitiana no bairro está em constante vigília e em busca de informações sobre familiares desaparecidos no terremoto que atingiu o Haiti na última terça-feira


Havia um elemento de incerteza novo aos haitianos em Nova York, a cidade com a maior população de descendentes de haitianos fora Porto Príncipe. Eles já organizaram esforços de ajuda antes, mas agora há dúvidas. O que coletar? Como levar para lá?

"É muito diferente de tudo o que já vivenciamos", disse Elsie St. Louis-Accilien, a diretora do Haitianos-Americanos Unidos pelo Progresso, com sede em Nova York, na manhã de quarta-feira. "Nós já sofremos inundações, sofremos isso aqui, aquilo lá. Mas isto é o maior, com todas as áreas diferentes atingidas."

Assistir esse sistema de resposta se mobilizar significa assistir pessoas que aprenderam a lidar com perda de partir o coração, devastadora, devido a longa história de dificuldades do Haiti. E ainda assim elas se mobilizam.

Na quarta-feira, estava claro que setores imensos de Porto Príncipe estavam em ruínas. Àquela altura, o presidente René Préval foi citado chamando a situação de "uma catástrofe". Fotos -algumas na televisão, outras enviadas por e-mail de câmeras de celulares- revelavam a enorme devastação que apenas tornava mais dolorosa a incerteza a respeito dos entes queridos.

Joseph Dormeus, o diretor executivo da Centro Comunitário Haitiano Bedford, assistia aos canais de notícias e estimou que 90% da população de Porto Príncipe estava desabrigada.

"O que piora as coisas é que Porto Príncipe é o centro do país", ele disse. "Antes Porto Príncipe estava lá para ajudar. Mas quando Porto Príncipe é afetada, todo o país fica paralisado. Então o desafio não é apenas fornecer ajuda à população, mas ao governo, porque o governo foi muito, muito afetado."

O prefeito de Nova York, Michael R. Bloomberg, e o governador do Estado, David A. Paterson, foram à Igreja Católica da Santa Cruz, no coração da comunidade haitiana em Flatbush, Brooklyn, para prometer ajuda.

"Nós estamos aqui para dizer à comunidade haitiana pesarosa de Nova York que as orações de todos os nova-iorquinos de todas as partes da cidade estão com vocês hoje, e que nós estamos com vocês", disse Bloomberg. "Nous a vous, que significa 'nos estamos com vocês, e bon courage, 'tenham coragem'. Estas são apenas palavras. No final, a cada novo relato, parece ser uma tragédia ainda maior."

Os canais de notícias repetiam o vídeo do palácio presidencial, agora em ruínas. A lembrança do prédio pelo comissário de polícia, Raymond W. Kelly, ainda é fresca: ele esteve lá na semana passada, para um encontro com Préval. "O fato daquele prédio ter ruído mostra a magnitude deste terremoto", ele disse.

Uma preocupada Marie Pierre, que tem parentes no Haiti, disse: "As pessoas estão tentando nos ajudar, mas ficaríamos muito mais felizes se conseguíssemos entrar em contato com nossas famílias".

Ela disse que passou a noite de terça-feira sem dormir, discando repetidamente os números de telefone no Haiti sem obter resposta. Na quarta-feira, ela estava no De Jean Binette Hair Palace and Barber Shop em Cambria Heights, onde a televisão estava sintonizada em um canal de notícias. Ela estava pensando, ela disse, no dinheiro que envia para sua família no Haiti.

"Agora será pior", ela disse. "Nós teremos que enviar mais."

St. Louis-Accilien disse que precisava de detalhes para saber como ajudar. "O pior é a falta de comunicação e não dispor de um levantamento, ficar sem saber o que está acontecendo", ela disse. "Não dá para saber o que começar a fazer", disse Jocelyn McCalla, um consultor de políticas e consultor do representante do Haiti na ONU, sobre o terremoto que redefiniu a forma como a diáspora haitiana em Nova York deve pensar a respeito dos esforços de ajuda, em parte porque o terremoto causou estragos em tantos lugares diferentes.

"As respostas anteriores eram: 'Vamos coletar enlatados e roupas junto a amigos e parentes, entregá-los a um grupo ou levá-los pessoalmente ao Haiti", ele disse. "Não dá para fazer isso agora. Não basta fazer isso. É uma gota no balde."

Ele tem um conselho para aqueles que quiserem ajudar: pense além do curto prazo e espere fazer viagens ao Haiti para fornecer ajuda no local. "Os haitianos devem arregaçar as mangas e se prepararem para abrir mão de parte de seu trabalho. O Haiti enfrentará tempestades constantes. Eles precisarão se apresentar como voluntários para fornecer apoio e perícia."

O dr. Stephen Carryl, um cirurgião do Brooklyn Hospital Center que já participou regularmente de missões médicas nos últimos 10 anos, estava cuidando dos arranjos para ir ao Haiti nos próximos dias. "Não há nada na minha experiência que me preparará para o que enfrentaremos", ele disse. "Nós teremos que nos preparar para coisas além daquilo que já lidamos."

Com as comunicações em grande parte cortadas, disse Carryl, ele queria enviar uma equipe de duas ou três pessoas o mais breve possível. "Chegar lá é a prioridade", ele disse, "Um grupo maior poderá ir na próxima semana, mas temos que ter alguém em solo o mais breve possível para nos dizer o que fazer."

Cara Buckley, Colin Moynihan, Kirk Semple, Stacey Solie e Karen Zraick contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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