UOL Notícias Internacional
 

01/02/2010

Raízes do sumô estão nas profundezas da história japonesa

The New York Times
Alida Becker

Na beira do ringue, uma mulher pequena gritava. O casal idoso na próxima fila pulava sem parar. Abaixo de nós, em volta do ringue em Kokugikan, o estádio nacional de sumô do Japão, em Tóquio, uma multidão barulhenta jogava as almofadas dos assentos para cima. O meu marido e eu nos entreolhamos surpresos. Após duas semanas de viagem em meio aos bem-comportados e rigorosamente imperturbáveis japoneses, será que estaremos prestes a descobrir o que havia por trás dessa fachada de decoro?

Bem, sim e não.

Sem dúvida os lutadores enormes e quase nus tinham pouco a esconder. Mas mesmo usando as suas vestes semelhantes a fraldas, eles mantinham uma postura digna. E embora a multidão irrompesse em gritos espontâneos, a competição era cuidadosamente coreografada, repleta de rituais e pompa. Ninguém discutia com o juiz, nem mesmo o fã barulhento lá atrás, que trouxera uma grande quantidade de cerveja. Quanto à luta aparentemente sem regras -uma sequência de empurres e pegadas, como uma briga entre os dois garotos mais brigões do pátio de uma escola-, ela era precedida e concluída por uma mesura cortês.

  • 29.04.2008 - Reuters

    Imensos lutadores de sumô se enfrentam em torneio disputado na capital japonesa

Assim como tanta coisa que já havíamos encontrado no Japão, o sumô acabou revelando-se uma mistura de algo aparentemente inteligível e totalmente confuso. Afinal, difícil deixar os cabelos soltarem-se quando eles estão arrumados em um nó cujo formato tradicional não muda há séculos.

Se o cricket um mistério em câmera lenta para a maioria dos norte-americanos, o sumô cujas disputas geralmente acabam em uma questão de segundos constitui-se em um enigma de natureza inteiramente diferente. O objetivo básico simples: obrigar o oponente a ser o primeiro a pisar fora do ringue de cerca de cinco metros de diâmetro ou a tocar o solo com alguma parte do corpo que não seja a sola do pé. O esporte tem como centro o bairro de Ryogoku, em Tóquio, na margem leste do Rio Sumida, desde o século 17, embora o estádio da década de 80, com capacidade para 11 mil expectadores, parece ter sido transportado em um passe de mágica de Cleveland ou Omaha. Exceto, claro, pela torre de percussão frente da instalação, uma caixa frágil assentada sobre colunas de sustentação, onde homens batem com fora os tambores em um ritmo que paira sobre a multidão.

Lá dentro, depois que se passa pelas mulheres que entregam leques de lembrança e pelas lanchonetes que vendem cachorros-quentes, uma primeira olhada no ringue traz memórias do velho Spectrum, em Filadélfia. Mas, ao contrário de Mike Tyson e Marvin Hagler, esses lutadores gigantescos não vão para os seus bancos para ser massageados ou esfregados com toalhas, mas, sim, para espalhar punhados de sal purificador e beber água em um recipiente de bambu, e a seguir bater delicadamente na boca com um pano dobrado. O juiz, vestido com um quimono de cor brilhante e usando um penteado negro alto e um leque cerimonial, poderia ter saído de uma peça de Kabuki. Acima dele, onde poderia haver um Jumbotron, fica o telhado estilizado de um templo xintosta.

E a que começa a explicação real: as raízes do sumô localizam-se nas profundezas da história japonesa, como forma de entreter e agradar aos espíritos do xintosmo, a religião animista nativa cujos templos ainda são cuidados em todo o país, muitas vezes coexistindo com templos budistas. Criada como um ritual da corte no Japão medieval, a luta de sumô transformou-se gradualmente em uma forma de emprego dos guerreiros samurais em tempos de paz e emergiu como um esporte profissional no início do século 20.

Porém, mesmo nos dias de hoje, ele pode parecer para os forasteiros uma espécie de arte representativa altamente estilizada. Há um ritmo estranhamente compassado durante a apresentação dos lutadores, a exibição dos estandartes dos patrocinadores, as recitações solenes, e até mesmo as pisadas ferozes e os chutes laterais altos antes que os lutadores se enfrentem. Depois, em um instante, o ritmo muda: há uma movimentação frenética, e um dos lutadores rapidamente derrotado (para piorar as coisas, o perdedor chamado de shini-tai, ou cadáver).

O sumô ao mesmo tempo uma atividade de alta importância e hierárquica. Os lutadores moram em alojamentos de treinamento próximos ao estádio, cada um deles controlado por um mestre que regula tudo, desde o que eles comem até aquilo que vestem. Os membros mais novos atuam como serviçais dos lutadores mais consagrados e ingressam no esporte na categoria mais baixa das suas seis divises. Eles só podem galgar essa estrutura se tiverem um bom desempenho nos seis torneios realizados durante o ano e, da mesma forma, os lutadores superiores podem cair de nível.

Cada torneio tem a duração de 15 dias, e os lutadores da categoria mais baixa começam a competição às 8h30. A platéia vai crescendo à medida que o dia passa, e as duas divises superiores competem de meados da tarde até por volta das 18h. No há categorias segundo o peso, mas às vezes a habilidade pode desbancar a massa bruta: caso seja suficientemente habilidoso, um lutador menor e ágil capaz de desequilibrar um gigante de 180 quilos. Mas aquele cara com barriga gelatinosa que se parece com um Papai Noel turbinado pode ter os braços e as pernas de um halterofilista. muito difícil deslocá-lo um centímetro sequer.

Estrangeiros podem ser aceitos nas instalações de sumô, mas a agência que controla o esporte tomou providências no sentido de reduzir a quantidade de participantes não-japoneses. Ou dois atuais yokozunas, ou grandes-campeões, ativos são da Mongólia, e entre os seus adversários mais difíceis estão lutadores da Bulgária e da Geórgia. Em 1993, Chad Rowan, um lutador do Havaí que tinha o apelido de Akebono, tornou-se o primeiro lutador estrangeiro a obter o título de grande-campeão.

E quanto ao torneio que presenciamos em setembro? A balbúrdia foi provocada pelo desempenho de um favorito mongol, que no último dia acabou empatado com o rival, com 14 vitórias e uma derrota. Na decisão, o yokozuna com cara de garoto chamado Asashoryu comemorou o seu 29 aniversário com a conquista do seu 24º campeonato, usando aquilo que o “The Japan Times” descreveu como uma pegada de cintura frontal baixa e uma derrubada de braço sem uso da cintura.

Não sei ao certo o que isso significa. Mas tenho certeza de que não é algo que se deva tentar fazer em casa.

Tradução: UOL

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