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05/02/2010

Ilha histórica onde Mandela foi preso vira alvo de caçadores

The New York Times
Barry Bearak
Em Robben Island (África do Sul)

Esse pedacinho de terra, com somente 1,6 km de largura e 3,2 km de comprimento, é onde Nelson Mandela passou 18 de seus 27 anos na prisão. Hoje venerado como Patrimônio Mundial, é uma das maiores atrações turísticas da África do Sul, com 1.200 pessoas ou mais todos os dias embarcando em balsas em Cape Town, que em 45 minutos as levam de volta no tempo.

Uma viagem de ônibus está incluída no passeio, e muitas pessoas que olham pela janela percebem coelhos pulando perto da estrada. “Olhe, um coelhinho!”, os visitantes exclamam, e muitos dizem ainda, “E mais outro, e mais outro”.

Na verdade, esta ilha foi invadida por coelhos, conhecidos pela velocidade impressionante com que se multiplicam. Eles escavaram sob prédios históricos e desnudaram o lugar das plantas que impedem o solo de virar uma tempestade de areia.

  • YOAV LEMMER/AFP

    O ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, acende vela simbólica do milênio na cela da antiga prisão da Ilha de Robben, onde ficou preso por 27 anos. Tanto tempo depois, a ilha agora é alvo de caçadores de animais que vitimam diversos bichos impunemente

Para os administradores da ilha, há muito tempo que os coelhos deixaram de ser criaturinhas fofas e inocentes, e em vez disso estão sendo vistos como pestes irritantes. Muitos esforços foram feitos para controlar a população, mas todas as ideias fracassaram de uma forma ou de outra. Agora uma abordagem nitidamente direta começou a dar certo: atiradores saem à noite e disparam contra eles.

Houve uma relutância em recorrer às armas. Com a libertação de Mandela em 1990, a ilha se tornou um símbolo para o triunfo do espírito humano. De alguma forma o assassinato sangrento de pequenos mamíferos bigodudos parecia errado.

“Ninguém é a favor de que sangue seja derramado em Robben Island, mas a ilha tem uma capacidade de carga finita, e com os coelhos escavando sob a fundação de inestimáveis construções do Patrimônio Mundial, concordamos que algo tinha de ser feito”, disse Allan Perrins, líder da Sociedade para a Prevenção de Crueldade aos Animais da região.

A caçada noturna não é tão fácil quanto tirar doce de uma criança, mas talvez chegue bem perto. Chris Wilke, um dos atiradores contratados, diz que em uma noite tranquila ele consegue ensacar 25 animais em uma hora, incluindo o tempo que ele leva para descer de seu quadriciclo e recolher os corpos.

Desde meados de outubro, 5.300 coelhos foram mortos, junto com 78 veados e 38 gatos selvagens não desejados. Wilke calcula que ainda haja cerca de 8 mil coelhos para serem pegos.

Todas as noites dois caçadores atravessam a ilha em suas motos de pneus grossos, apontando lanternas para os arbustos. Às vezes os coelhos param para olhar o feixe de luz. Os atiradores miram na cabeça com rifles calibre .22.

“Não digo que seja divertido matar, mas me sinto bem fazendo isso”, disse Wilke. A caixa plástica de armazenamento em seu veículo estava quase cheia de carcaças. “Este trabalho é de conservação. O lugar desses coelhos não é aqui. Eles estão devastando a ilha”.

Na verdade, ancestrais desses coelhos chegaram aqui há 350 anos, provavelmente trazidos à ilha pela carne, por exploradores holandeses. Mas sua eterna reivindicação pela posse tem pouco peso. A espécie em questão é um coelho europeu, considerado um intruso estrangeiro – e especialmente perigoso, aliás.

As fêmeas conseguem procriar aos três meses de idade e são capazes de dar à luz ninhadas de até oito coelhos, seis vezes ao ano.

Por séculos, os coelhos de Robben Island foram caçados por alimentação ou esporte, mantendo os números sob controle. Mesmo quando o local era uma prisão, guardas com rifles perseguiam os coelhos à noite.

Mas com o fechamento da prisão, as caçadas acabaram. Previsivelmente, os coelhos transformaram a oportunidade em um auge reprodutivo. Logo havia tantos coelhos – e tão pouca comida – que muitos pareciam estar morrendo de fome.

“Eles estavam literalmente subindo em árvores para comer qualquer coisa que fosse verde”, disse Perrins.

Soluções para o problema pareciam requerer uma compreensão da opinião pública. Uma proposta inicial era transferir os coelhos para o continente, uma ideia considerada particularmente estúpida pelas autoridades governamentais. Coelhos se proliferando de forma selvagem em Robben Island já era ruim o suficiente; libertar as férteis criaturas para se multiplicarem por toda a nação poderia ser desastroso.

Em vez disso colocaram armadilhas, para capturar os coelhos e matá-los de forma indolor – já que uma injeção letal é preferível a um pelotão de fuzilamento.

Mas os coelhos se mostraram difíceis de serem capturados nos números necessários. Pior, quando os animais eram “sacrificados”, suas expressões apavoradas e corpos trêmulos não tornavam a agulha mais misericordiosa do que a bala.

Houve pouca resistência organizada à caçada, ainda que muitos ativistas de direitos dos animais estejam horrorizados, alegando que a matança sugere o espírito do apartheid, com os coelhos sendo considerados tão inferiores que não mereçam a vida.

“Robben Island é quase um lugar sagrado, e transformá-lo em um campo de matança é tão errado, tão vergonhoso, tão sujo, tão imoral”, disse Cicely Blumberg, uma defensora dos direitos animais que uma vez se ofereceu para encontrar lares para os coelhos.

Para fazer com que a matança pareça menos cruel, a administração da ilha anunciou recentemente que a carne dos animais seria doada aos pobres.

Mas apesar de a África do Sul ter uma enorme quantidade de necessitados, poucos parecem se acostumar com o gosto do coelho.

Por enquanto, a carne permanece em um congelador no matadouro da ilha. Os coelhos indesejáveis de Robben Island provavelmente voltarão a entrar na cadeia alimentar durante as refeições nas reservas nacionais de guepardos.

Tradução: Lana Lim

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