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09/02/2010

Estrada no Afeganistão apresenta cenas de beleza e morte

The New York Times
Dexter Filkins
Em Sarobi, Afeganistão

Mesmo em um país assolado pela guerra e por atentados suicidas, você acharia difícil encontrar qualquer coisa tão realmente aterrorizante quanto a rodovia nacional que atravessa a garganta do rio Cabul.

O trecho de 70 km, uma passagem de tirar o fôlego com montanhas e despenhadeiros entre Cabul e Jalalabad, cobra habitualmente tantas vidas que a maioria das pessoas parou de contar há muito tempo. Carros tombam e se achatam. Caminhões despencam até o fundo do vale. Ônibus se arriscam; ônibus se chocam.

  • The New York Times

    Soldado afegão tenta organizar o trânsito depois de um acidente na rodovia que atravessa a garganta do rio Cabul, no Afeganistão; em duas horas reportagem presenciou 13 colisões

O pandemônio se desenrola em uma das paisagens mais fascinantes de toda a Terra. Em alguns lugares a garganta não tem mais que algumas centenas de metros e é emoldurada por penhascos de rocha verticais que se erguem mais de 3 mil metros acima do rio Cabul. A maioria das pessoas morre, e a maioria dos carros se choca enquanto dispara contornando uma das curvas impossíveis que oferecem vistas impossíveis das ravinas e picos.

De fato, dirigir na garganta do Cabul parece uma experiência unicamente afegã, uma complexa dança de beleza e morte.

"Eu fico aqui sentado e vejo pessoas se acidentarem o dia inteiro", disse Mohamed Nabi, que vende peixe fresco frito em uma barraca junto à estrada. "O rumo da história provou que os afegãos são prepotentes. É por isso que não conseguimos dirigir em segurança." Em um dia da semana passada, ocorreram 13 acidentes na estrada em apenas duas horas, todos catastróficos, quase todos fatais. A garoa constante tornou o dia ligeiramente mais calamitoso que a maioria deles.

Em uma cena, uma família ensanguentada lamentava por seus parentes presos em um carro achatado. Em outra, um miniônibus estava esmagado sob a carroceria de um caminhão capotado. Em outro ainda, o fundo de uma ravina estava cheio dos destroços retorcidos de um carro.

No entanto, mesmo enquanto esses acidentes se espalham pela rodovia, os carros passavam em velocidade. Táxis e ônibus costuravam e passavam uns aos outros em velocidade de arrepiar, com apenas milímetros separando-os da catástrofe sanguinária.

"A luta com os talebans dura apenas um ou dois dias, mas os acidentes são todos os dias", disse Juma Gul, dono de uma loja de tecidos em Sarobi que dá diretamente para a estrada. "É uma espécie de teatro. Às vezes um carro voa." A letalidade da rodovia vem da mistura única de geografia, a estrada em si e a desconsideração dos motoristas pelas leis da física.

A estrada de duas pistas tem uma largura apenas suficiente para dois carros. Na pista interna, a menos de um metro da sua janela há uma parede de rocha sem árvores que se ergue quase na perpendicular. Um degrau de 30 centímetros protege a pista exterior, atrás da qual há o fundo de um vale a quase 1.500 metros.

Para os motoristas, é claro, isso significa que virtualmente não há margem para erros: ou eles batem no muro ou caem sobre a borda ou se chocam.

A única nota de cautela é dada pelas crianças que vivem nas aldeias pobres nas redondezas. Muitas vezes com apenas 4 ou 5 anos, sujas, elas se posicionam nas curvas, usando garrafas verdes de refrigerante achatadas como bandeiras, acenando para os motoristas passarem quando o caminho está limpo.

Nessas circunstâncias, você poderia imaginar que os motoristas na garganta do Cabul trafegariam devagar, arrastando-se e esticando os pescoços para se proteger do tráfego contrário que vem na próxima curva. Na verdade, durante a maior parte da história eles fizeram isso.

Durante séculos, inúmeras forças invasoras passaram pela garganta ou perto dela a caminho do passo de Khyber. Entre elas estava um grupo de 17 mil soldados e civis britânicos que foram massacrados quando se retiravam de Cabul no fim da primeira guerra anglo-afegã, em 1842. O dr. William Brydon, que entrou em Jalalabad a cavalo, foi o único europeu sobrevivente.

A estrada Cabul-Jalalabad foi pavimentada pela primeira vez pelo governo alemão em 1960. Na década de 80 ela foi quase totalmente destruída durante a rebelião contra a invasão soviética. Na década seguinte, quando os talebans e outros grupos armados lutaram pelo controle do país, a estrada foi bombardeada e ficou cheia de buracos. As crateras eram tão grandes que os táxis desapareciam durante minutos e só ressurgiam quando se esforçavam para sair do outro lado.

Era uma estrada difícil e tinha seus próprios perigos - trechos da estrada muitas vezes desmoronavam -, mas a velocidade não era um deles. Isso mudou em 2006, quando um projeto apoiado pela UE finalmente pavimentou toda a estrada. Agora os afegãos podem finalmente dirigir na velocidade em que quisessem.

E eles querem! Os carros passam zunindo em velocidades assustadoras, muito mais depressa do que seria permitido em uma estrada semelhante no Ocidente, se houvesse uma. Como pilotos de Fórmula 1, os afegãos disparam pelas curvas mais fechadas, puxando seus carros de volta para suas pistas ao primeiro sinal de um desastre iminente. Na maior parte das vezes eles conseguem.

O perigo é reforçado por outras coisas. No papel, o governo do Afeganistão exige que os motoristas passem por um teste para obter a carteira de motorista, mas poucas pessoas aqui parecem ter uma.

Depois há os carros em si - táxis Toyota depauperados e Ladas da antiga era soviética. Um típico carro afegão tem pneus carecas e freios que guincham - não exatamente ideais para ziguezaguear por essas montanhas.

Mas talvez a maior ameaça, além da velocidade dos carros, seja a lentidão dos caminhões. As enormes carretas que transportam carga de e para o Paquistão são muitas vezes sobrecarregadas com milhares de quilos. Elas não podem se mover depressa; se estiverem subindo um dos picos de centenas de metros da garganta, não podem se mover simplesmente. Ficam empacados. Caem para trás sobre si mesmos.

Por isso os carros e seus motoristas se amontoam atrás deles, irritados e impacientes, e correm em manobras apressadas para ultrapassá-los na primeira oportunidade.

E assim os carros se chocam, um após o outro.

Todos os dias os fraturados e ensanguentados chegam ao hospital de Sarobi, uma pequena clínica na cidade que fica no alto da garganta.

"A maioria de nossos pacientes se feriu em acidentes", disse Ros Mohammed Jabbar Khel, o cirurgião chefe.

Jabbar Khel tem um plano de comprar uma frota de ambulâncias e posicioná-las em vários pontos ao longo da passagem. Assim poderia salvar muitas vidas, imagina. Ele disse que estava esperando chegar o dinheiro do governo de Cabul.

O próprio Jabbar Khel dirige pela garganta várias vezes por semana. E todas as vezes, ele disse, se enche de medo - não por suas capacidades, mas pelas dos outros.

"Eu tenho carteira!", disse o médico. "Eu tive aulas!"

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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