UOL Notícias Internacional
 

10/02/2010

No norte do Iraque, votação divide-se segundo linhas familiares

The New York Times
Steven Lee Myers,
Em Qaraqosh (Iraque)

Não faz muito tempo que havia a esperança de que a democracia significaria paz e estabilidade para Níneve, um local onde culturas e exércitos chocam-se desde os tempos bíblicos. Em vez disso, a democracia está intensificando as divisões – de pessoas, recursos e terra – de maneiras que ameaçam o futuro do próprio Iraque.

A eleição do ano passado de um novo governador e de uma assembleia provincial gerou um impasse político, inflamado por tensões étnicas. Um boicote feito por um terço dos novos membros da assembleia desde o verão passado paralisou o trabalho do governo em um momento em que foi prometido aos iraquianos que as eleições melhorariam a situação.

  • Eros Hoagland / The New York Times

    Morador de Karamless, no Iraque, monta guarda em uma igreja cristã da cidade, onde grupos são acusados de montarem milícias próprias e independentes. Na província de Nínive, o governo considerada crucial a unidade desses grupos para a próxima eleição parlamentar do Iraque. No entanto, as milícias terão que deixar de lado os conflitos entre grupos étnicos e religiosos

Os serviços básicos continuam escassos, e a economia está combalida. A violência, embora tenha diminuído, é constante e vitima um conjunto de povos e religiões nas planícies em que o Iraque árabe encontra as montanha curdas.

“Esta foi a democracia que os norte-americanos trouxeram”, acusa Hussein Mahmoud Ahmed, que é membro do grupo minoritário shabak que ocupa as planícies.

Este é um sentimento cada vez mais presenciado em todo o Iraque, à medida que o país se prepara para eleger um novo parlamento em 7 de março. A votação – a terceira do país desde a invasão norte-americana em 2003 – é considerada crucial para forjar um Estado unificado democrático e funcional. Aqui na província de Níneve, porém, assim como em outros locais, o processo eleitoral está expondo a alarmante fragmentação do Iraque.

O Líbano é um modelo frequentemente citado pelos iraquianos, uma democracia que produz um impasse entre grupos étnicos e sectários, tão divididos antes das eleições quanto depois delas, resultando em uma paralisia política sempre tensa. A Bósnia é um outro exemplo. Quando se trata de terras e fronteiras, disputadas pelos governos regionais árabes e curdos, as divisões são tão incontornáveis quanto aquelas entre israelenses e palestinos.

Quando o governo federal começou a construir uma fábrica de tecidos na vila de Ahmed, Bartallah, em uma parte de Níneve que é controlada pelos curdos, o governo regional curdo paralisou o projeto por temer que ele criasse empregos para trabalhadores leais a Mosul, a capital provincial, que é em sua maioria árabe.

Em Qaraqosh, a posse da terra é politicamente tão frágil que o conselho comunitário criou um “livro negro” para registrar o nome de todo cristão que vendeu propriedades para “forasteiros”.

“Estamos vivendo como pombas entre lobos”, diz Staifo Jamil, líder de um conselho comunitário que representa Qaraqosh, uma cidade cristã que vive imersa em um medo tamanho que criou a sua própria milícia irregular para fazer guarda.

A democracia iraquiana ainda é jovem, e comparada àquelas de outros países da região, ela continua sendo a mais competitiva, se não exatamente robusta. Entretanto, a apatia e a desilusão dos eleitores já estão se enraizando. A eleição, adiada durante meses devido a desentendimentos políticos em Bagdá, tornou-se uma competição não de ideias, mas por vantagens pela distribuição de cadeiras parlamentares.

  • Eros Hoagland / The New York Times

    Khasro Goran, líder do Partido Democrático, liderou o boicote da assembleia provincial. Ele culpa o governador e o seu partido pelo aumento da hostilidade e da divisão, afirmando que a estabilidade em Níneve só surgirá com o respeito pelos partidos minoritários

O processo difamatório para desqualificar candidatos com vínculos com o Partido Baath de Saddam Hussein derrubou pelo menos dez candidatos aliados ao governador, Atheel al-Nujaifi, um sunita que procurou restaurar o domínio árabe em uma província ainda dividida. Entre eles estava o prefeito de Mosul, Zuhar al-Araji, que no passado trabalhou em conjunto com as forças armadas norte-americanas.

Níneve continua cindida desde 2003 entre as regiões controladas pelos árabes e pelos curdos. As tensões são tão intensas que neste mês as forças armadas norte-americanas juntaram-se a tropas de ambos os lados para policiar a linha de controle ao longo de uma série de novos postos de fiscalização e revista.

Políticos de ambos os lados da linha reclamam de restrições quando fazem campanha no lado oposto: assédio dos candidatos, pressão sobre os partidos, violência. Quando al-Nujaifi cruzou recentemente a fronteira não oficial à caminho de Tall Kayf, o seu comboio foi alvejado com pedras e tomates, além de ser brevemente detido pela pesh merga, as tropas curdas. Na noite do último domingo, uma mulher que concorria a um cargo político por uma coalizão secular que inclui al-Nujaifi e um ex-primeiro-ministro, Ayad Allawi, foi morta a tiros em frente à sua casa em Mosul.

A eleição de al-Nujaifi no ano passado gerou esperanças de que o empobrecimento dos sunitas em Níneve, que no passado alimentaram a insurgência, estivesse chegando ao fim, e de que haveria algum tipo de reconciliação.

O fato de isto não ter ocorrido é um dos motivos pelos quais poucas das pessoas entrevistadas aqui manifestaram esperança de que a eleição resultaria em algo melhor.

“Nada acontecerá”, diz Saleh Hassan Ali al-Jubouri, o prefeito de Ash Shura, uma cidade que fica do lado árabe do Rio Tigre, relativamente próxima às antigas ruínas de Kalhu, ou Nimrud. “Nós sabemos que parte pertence aos curdos e que parte a Níneve”, continua ele, ao lhe indagarem como os resultados em março poderiam afetar a disputa territorial que dividiu a província. Ele repetiu, com desdém evidente: “Nada acontecerá”.

O que chama atenção é a convicção com que os iraquianos esperam votar por identidade, apesar dos apelos da campanha pela unidade nacional.

As questões discutidas – serviços básicos, desenvolvimento econômico, segurança – parecem ser todas derivadas tanto da identidade étnica quanto da política. “Em primeiro lugar a etnia; em segundo o partido político”, foi como a principal autoridade curda daqui, Khasro Goran, resumiu a situação.

O novo parlamento incluirá 31 membros de Níneve, e Goran espera que a principal coalizão nacional curda obtenha dez cadeiras – com base não nas pesquisas, mas na percentagem estimada de curdos na província. As pequenas minorias de Níneve – yazides, shabaks e cristãos – possuem cadeiras parlamentares exclusivas reservadas para os seus representantes.

Goran, que liderou o boicote da assembleia provincial, culpa o governador e o seu partido pelo aumento da hostilidade e da divisão, afirmando que a estabilidade em Níneve só surgirá com o respeito pelos partidos minoritários, como o dele.

Ele também reconhece que a fronteira de Níneve com as três províncias curdas oficialmente reconhecidas ao norte está mergulhada no impasse quanto à dimensão do federalismo iraquiano entre o governo do primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki e o do presidente regional curdo, Massoud Barzani. Isso, bem como as disputas locais, perpetuou o boicote de Goran. O fato de tornar-se a oposição leal em Níneve poderia implicar no reconhecimento da autoridade política de Mosul sobre toda a região.

“Alguns dos problemas são locais, mas outros são iraquianos”, afirma Goran na capital regional curda, Erbil, referindo-se às disputas que infernizam Níneve. “E nós temos que pagar o preço”.

Khalis Isho, um candidato de Qaraqosh que pretende conquistar uma das cadeiras cristãs no parlamento, afirma que os líderes políticos do país fracassaram – não tendo sido capazes de adotar os valores democráticos relativos aos direitos e a um governo representativo, nem de aprender que eleições são apenas uma parte da democracia.

“Eu não acredito que nós reduziremos as atividades dos terroristas antes que melhore o pensamento no Iraque em geral e em Mosul em particular”, afirma ele. “Isso não acontecerá até que eles entendam que a paz em Mosul significa coexistência pacífica”.

Tradução: UOL

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