UOL Notícias Internacional
 

11/02/2010

Haitiano narra a saga de salvar os pais dos escombros de Porto Príncipe e encontrar hospital para eles

The New York Times
Sarah Kramer
Porto Príncipe (Haiti)

Jean Paul Coffy chegou em meio à escuridão na casa de três andares na qual cresceu, no bairro de Nerette de Porto Príncipe, uma casa de concreto e folhas de flandres onde seus pais ainda moravam e ele visitava a cada ano. 

Tinham se passado seis dias após o terremoto em Porto Príncipe, a capital do Haiti, e Coffy, um músico e professor de Chicago, não tinha notícias de seus pais, irmãos, tios, primos ou amigos. Então a esposa de Coffy, uma filha de imigrantes haitianos, o persuadiu a ir. 

  • Juan Fach / The New York Times

    Ao lado do pai, Jean-Paul Coffy (direita) visita a mãe em um hospital de Santo Domingo, na República Dominicana, onde ele recebe tratamento. Ele só conseguiu achar a mãe a chegar no Haiti seis dias após o terremoto que arrasou a capital Porto Príncipe, em 12 de janeiro

“Eu entrei segurando uma vela”, disse Coffy. “Eu gritei seus nomes e eles responderam!” 

A mãe dele pensou que ele era um fantasma. “Oh meu Deus, oh meu Deus, por que Deus está me punindo? Me fazer pensar que meu filho está aqui, mas eu sei que ele não tem como chegar aqui”, ele recordou dela dizendo chorando naquela noite. “E eu disse: ‘Sou eu mesmo. Eu estou aqui, eu estou aqui’.” 

Coffy encontrou seus pais perto de uma sala dos fundos –a única parte da casa ainda em pé– que sobreviveram a base de bolachas. 

Nas três semanas que se seguiram, eles viajaram oito horas pelas estradas de terra do Haiti e dormiram nos corredores de hospitais na vizinha República Dominicana, e Coffy gastou milhares de dólares para obtenção de documentos do governo, assim como com despachantes, abrigo, alimentos e vários transportes, enquanto tenta obter permissão para que seus pais voltem com ele para Chicago. 

Coffy compartilhou sua provação –não diferente da de inúmeros outros moradores americanos no Haiti que tentam ajudar seus parentes– em uma série de entrevistas por telefone na República Dominicana. 

Seu pai, Reserve Coffy, 68 anos, saiu ileso do terremoto, mas sua mãe, Zilania Joacin, 67 anos, uma diabética que operou recentemente o quadril, quebrou a mesma perna, que estava “tão inchada que não dava para tocá-la”, disse Coffy. 

Naquela primeira noite juntos, os três dormiram ao ar livre, com medo de permanecerem no único cômodo restante da casa. Pela manhã, Coffy percebeu por que ninguém ouviu os pedidos de socorro de seus pais. O quarteirão deles estava repleto de escombros e do mau cheiro dos mortos. 

Após horas de caminhada abrindo caminho em meio aos escombros, ele encontrou uma farmácia ainda funcionando e cheia dos medicamentos para pressão arterial que sua mãe precisava, outra com insulina e uma terceira com analgésicos. Ele pagou três vezes mais que o preço normal. 

Um irmão e uma irmã morreram no terremoto e outro irmão ainda está desaparecido. Dentre seus irmãos sobreviventes no Haiti, um tem dois filhos que quebraram as pernas no terremoto, e os outros são pobres e estão espalhados pelo interior. Então Coffy decidiu levar seus pais para Santo Domingo, onde ele achou que seria mais fácil obter ajuda. 

Mas a Caribe Tours, a companhia de ônibus que o trouxe da República Dominicana para o Haiti quando ele chegou de Chicago, não quis deixar seus pais embarcarem sem passaportes, que foram perdidos no terremoto; então ele pagou 2 mil dólares haitianos –cerca de US$ 250– para que uma picape coberta conhecida como tap tap os levasse até a cidade de fronteira de Las Caobas, com sua mãe deitada em um colchonete, gemendo a cada solavanco na estrada. 

Ele conseguiu obter documentos concedendo aos seus pais uma estadia de um mês na República Dominicana, pagando cerca de US$ 500 para um intermediário. Outros US$ 58 lhe compraram um assento traseiro inteiro em um ônibus com ar condicionado para Santo Domingo, a capital. 

Foi lá onde Coffy e seus pais visitaram quatro hospitais. Em um, uma clínica particular, os raios X mostraram que Joacin precisaria de substituição do quadril, mas como sua perna estava infeccionada, ela teria que aguardar três meses. 

Pai e filho serviram de apoio um ao outro naquele noite em um pequeno banco ao lado da cama dela. “Foi a primeira vez em que realmente dormi”, lembrou Coffy. “Já faziam três dias.” 

Um país devastado

  • Caio Guatelli/Folha Imagem

    Vista aérea da cidade de Porto Principe mostra região atingida por terremoto de 7 graus

A estadia de uma noite no hospital custou US$ 359, esgotando os recursos de Coffy, de forma que sua esposa transferiu para ele US$ 3.600 de Chicago. Coffy, o sexto de nove filhos, enviava cerca de US$ 500 por mês para seus pais antes do terremoto, ele disse. 

Joacin recebeu um gesso para sua perna e um catre em um corredor do Darío Contreras, um grande hospital público repleto de sobreviventes do terremoto. O Ministério da Saúde da República Dominicana estimou que os hospitais do país atenderam cerca de 7 mil haitianos até terça-feira. Preocupado com a possibilidade de que a comida do hospital –mingau, arroz branco e espaguete– pudesse piorar o diabete de sua mãe, Coffy trazia furtivamente refeições de fora para ela e as escondia sob uma mesa. Ele também colocou um pequeno aviso próximo da cabeça dela: “Não a alimente de modo nenhum”. 

Após mais de duas semanas no hospital, passados em grande parte no corredor, Coffy e seus pais se mudaram na segunda-feira para um quarto com duas camas em uma igreja. Na terça-feira, Coffy recebeu novos passaportes para seus pais da embaixada do Haiti; ele tem um horário marcado na quinta-feira no consulado americano em Santo Domingo para pedido de vistos temporários para levá-los para Chicago. Outra possibilidade seria um livramento condicional humanitário, uma categoria especial de imigração temporária que raramente é concedida. 

Seu caso será particularmente difícil, dizem especialistas em imigração, porque Coffy, apesar de ser um morador legal com “green card” (visto que permite morar no país), não é um cidadão americano. 

“Dá para imaginar o número de haitianos feridos que possuem entes queridos nos Estados Unidos e que querem vir para cá”, disse Cheryl Little, diretora do Centro de Defesa dos Imigrantes da Flórida sem fins lucrativos. 

Coffy mora em Kenwood, um bairro no South Side de Chicago, com sua esposa, Yakini Ajanaku-Coffy, e seu filho de 10 anos e filha de 14 anos. O casal se conheceu em 1994, quando ela era a adido cultural de Chicago para o Haiti e ele o tecladista de uma banda haitiana, Boukman Eksperyans. Após retornarem a Chicago em 2002, depois de viverem anos no Haiti, o casal agora é dono de uma pré-escola de temática musical chamada La Grande Famille. 

Após decidir que Coffy viajaria ao Haiti para procurar por sua família, o casal reuniu suprimentos como barras de cereais e comprimidos de purificação de água, além de US$ 1.500 em dinheiro, incluindo US$ 1.000 da mãe do melhor amigo de seu filho (outros doaram mais de US$ 7 mil por meio de um blog). O casal trocou celulares, já que o dela é um BlackBerry, para que ele pudesse receber mensagens de e-mail. Horas depois, eles estavam no Aeroporto Internacional O’Hare com seu filho, Akin, que estava chorando. 

“Ele disse: ‘Pai, você pode morrer lá’”, disse Coffy. 

Coffy prometeu a Akin que voltaria em 3 de fevereiro, mas agora diz que pode levar mais um mês. 

Quando Akin perguntou a sua mãe na semana passada quando o pai voltaria, ela respondeu: “Quando ele terminar o trabalho, querido, quando ele terminar o trabalho. Ele não foi tão longe para dar as costas”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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