UOL Notícias Internacional
 

12/02/2010

Temores de ciberespionagem ajudam a alimentar o esforço da China em censurar a Internet

The New York Times
Sharon La Franiere e Jonathan Ansfield*
Em Pequim (China)

No interior de um instituto de engenharia militar chinês em setembro de 2008, um pesquisador fez uma pausa em suas tarefas e decidiu –indo contra a política oficial– para checar suas mensagens privadas de e-mail. Entre as novas mensagens estava um cartão eletrônico de festas supostamente enviado por um órgão de defesa do Estado. 

O pesquisador clicou no cartão para abri-lo. Em minutos, um código de computador secretamente implantado permitiu a uma agência de inteligência estrangeira, cujo nome não foi revelado, acessar os bancos de dados do instituto, na cidade de Luoyang, na região central da China, e roubar informações confidenciais sobre os submarinos chineses. 

  • Frederic J. Brown/AFP

    Jovem navega na Internet em um café com acesso à internet em Pequim, na China

Foi o que noticiou o “Global Times”, um jornal com inclinação nacionalista apoiado pelo Partido Comunista, em um artigo pouco notado em dezembro. O jornal descreveu o episódio como “uma grande quebra da segurança” e citou uma autoridade do governo que se queixou de que esses ataques eram “ubíquos” na China. 

A informação não pôde ser confirmada de forma independente, mas esses vazamentos para a imprensa chinesa frequentemente servem como propaganda ou para atender às metas de lobby das autoridades. 

Todavia, a história é um sinal de que enquanto grande parte do restante do mundo se preocupa com a ciberespionagem chinesa no exterior, a China está cada vez mais alarmada com a ameaça representada pela Internet à sua segurança e estabilidade política. 

Na visão tanto de analistas políticos quanto especialistas em tecnologia na China e nos Estados Unidos, as tentativas da China de endurecer seu controle do uso da Internet são movidas em parte pela convicção de que o Ocidente –e particularmente os Estados Unidos– está empregando inovações de comunicações, de malwares ao Twitter, para enfraquecê-la militarmente e estimular a dissensão interna. 

“Os Estados Unidos já fizeram isso, muitas vezes”, disse Song Xiaojun, um dos autores de “China Infeliz”, um livro de 2009 que defende a forte política externa chinesa que o departamento de propaganda do governo supostamente promove. Ele citou as chamadas revoluções das cores na Ucrânia e Geórgia como exemplos. “Não se trata realmente de mudança de regime, diretamente”, ele disse. “É como se usassem a Internet para semear o caos.” 

A mídia estatal tem expressado essas preocupações de modo enfático desde que a secretária de Estado americana, Hillary Rodham Clinton, criticou no mês passado a China por causa da censura e pediu uma investigação a respeito da queixa do Google de que seus bancos de dados foram alvo de um ataque sofisticado da China. “A China deseja deixar claro que ela também está sob sério ataque de espiões na Internet”, disse Cheng Gang, autor do artigo sobre os submarinos no “The Global Times”. 

  • AFP - 09.jul.2006

    Chineses fazem vigília em Hong Kong para pedir retomada das liberdades individuais na China socialista, além do fim das restrições ao uso da internet

Apesar da robusta capacidade tecnológica da China, suas ciberdefesas são quase certamente mais porosas do que as dos Estados Unidos, dizem especialistas americanos. Para citar um grande exemplo, até mesmo os computadores do governo chinês costumam ser equipados como software pirateado da Microsoft, eles dizem. Isso significa que muitos usuários perdem atualizações de segurança, disponíveis para os usuários pagantes, que consertam as brechas de segurança exploradas pelos hackers. 

A cibersegurança é uma crescente preocupação para a maioria dos governos. Apesar dos Estados Unidos provavelmente contarem com melhores defesas que a China, por exemplo, os especialistas dizem que eles dependem com maior peso de computadores para dirigir sua infraestrutura, de forma que ficam mais vulneráveis a um ataque. 

Mas para a China, as preocupações de que forças estrangeiras possam empregar a Internet e outros avanços nas comunicações para derrubar o Partido Comunista são um fator saliente no esforço de 15 anos do governo de controlar essas tecnologias. Os líderes chineses estão constantemente tentando equilibrar os benefícios econômicos e sociais das liberdades online e das comunicações abertas com o desejo de preservar a estabilidade social e impedir uma oposição política organizada. 

Uma mudança distinta a favor de controles mais abrangentes teve início há quase dois anos e endureceu nos últimos seis meses, dizem os analistas. 

Novas políticas visam substituir o hardware estrangeiro por sistemas domésticos que podem ser mais facilmente controlados e protegidos. As autoridades também estão expandindo o alcance e os recursos dos órgãos de mídia controlados pelo Estado, para que dominem o ciberespaço chinês com blogs, vídeos e notícias. Ao mesmo tempo, o governo está reforçando seu aparato de segurança. As autoridades justificaram as medidas mais fortes citando as várias ameaças internas, que elas disseram ter sofrido uma escalada online. Entre elas: os distúrbios de março de 2008 na capital tibetana, Lhasa; as tentativas de perturbar os Jogos Olímpicos de agosto de 2008 e a reunião de mais de 10 mil assinaturas apoiando uma petição para direitos humanos e liberdades democráticas, como exemplos de como os defensores pró-democracia podem se organizar online. 

O mais alarmante para as autoridades, dizem os analistas, foi o papel da Internet nos distúrbios étnicos de julho passado, que deixaram quase 200 mortos e mais de 1.700 feridos– a pior violência étnica na história recente chinesa. Os relatos do governo afirmavam que terroristas separatistas e extremistas religiosos de dentro e fora do país usaram a Internet para recrutar jovens uigures para viajarem para Urumqi, a capital da região de Xinjiang, no oeste da China, para atacarem os cidadãos de etnia han. 

Em agosto, autoridades de segurança e propaganda informaram ao Politburo do governo da China sobre seu entendimento de como os distúrbios em Xinjiang se desenvolveram, segundo um executivo de mídia com laços de alto nível com o governo. O executivo falou sob a condição de anonimato, por temor de retaliação por discutir assuntos politicamente delicados. 

  • Jason Lee/Reuters - 13.jan.2010

    Chinesa leva flores à sede do Google em Pequim, na China, após ameaça da empresa de abandonar o país. A gigante da internet mundial acusa hackers chineses de se infiltrarem no sistema Gmail. O Google diz que contas de email de ativistas de direitos humanos foram atacadas. Não se sabe se os hackers fazem parte de uma operação do governo chinês, mas o Google insinua que o governo poderia, se quisesse, reprimí-los

Os líderes chineses também analisaram como os ativistas antigoverno iranianos usaram o Twitter e outras novas ferramentas de comunicação para organizar grandes manifestações de rua contra o presidente Mahmoud Ahmadinejad no ano passado. Ele disse que os líderes chineses viram os protestos iranianos como um exemplo de como os Estados Unidos poderiam usar as novas formas de comunicação online de modo imperialista, que algum dia poderiam ser usadas contra a China. 

“Como aconteceu a inquietação após as eleições iranianas?” perguntou o “Diário do Povo”, o jornal oficial do Partido Comunista, em um editorial de 24 de janeiro. “Foi porque a campanha online pela América, via vídeos no YouTube e microblogging no Twitter, espalhou rumores, criou divisões, incitou e semeou a discórdia.” 

Desde os distúrbios no Irã e em Xinjiang, os líderes chineses adotaram uma série de novas iniciativas, incluindo o fechamento de milhares de sites, endurecimento da censura de mensagens de texto para conteúdo libertino ou impróprio e o planejamento da convergência das redes de Internet, telefonia e de televisão estatal da China. Eles também estão cultivando cuidadosamente alternativas domésticas para tecnologias de informática estrangeiras e sites de Internet baseados no exterior, como YouTube, Facebook e Twitter, todos atualmente bloqueados pelos censores chineses. O governo diz precisar de novos controles para combater a pornografia, a pirataria e outras atividades ilegais. 

Em novembro, quase 300 funcionários do governo e técnicos se reuniram em Pequim para um seminário que destacava a vulnerabilidade da China no ciberespaço. 

“É uma realidade há muito existente de que o Ocidente é mais forte do que nós em termos de segurança da informação”, disse o manual de treinamento, postado no site do Ministério da Segurança Pública. 

“Grande parte da tecnologia-chave e dos produtos na esfera de segurança da informação está nas mãos dos países ocidentais, o que deixa sistemas importantes de informação da China expostos a uma maior chance de serem atacados e controlados por forças hostis”, dizia o manual. 

Os riscos da dependência de software estrangeiro ficaram claros em 2008, depois que a Microsoft implantou um novo programa antipirataria visando detectar e desencorajar usuários não autorizados de seu sistema operacional Windows. Na China, onde estima-se que quatro quintos dos programas de computador sejam piratas, o programa fez com que milhões de telas de computador se apagassem a cada hora e levou a um protesto público. 

Novas regras de aquisição emitidas pelo governo em dezembro exigem que os compradores do Estado deem tratamento preferencial a produtos de comunicação e computadores feitos na China. Mas James Mulvenon, diretor do Centro para Pesquisa e Análise de Inteligência, uma consultoria com sede em Washington, disse que essas ordens normalmente são ignoradas. 

James A. Lewis, diretor do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, um grupo de pesquisa com sede em Washington, disse que a China se viu pega entre metas contraditórias. As autoridades querem continuar usando software ocidental superior, para que possam praticar espionagem e se defenderem contra uma infiltração estrangeira. “Mas ao mesmo tempo eles querem usar software local, que não está à altura”, ele disse. 

Mas a China está se esforçando para alcançar o Ocidente. Mulvenon descreve a China a “líder mundial absoluta” no desenvolvimento do Protocolo de Internet versão 6 (IPv6) –o sucessor da atual Internet. 

Alguns sugerem que a China visa desenvolver um sistema mais autônomo, equipado com firewalls e filtros mais fortes. Os líderes da China “sempre tiveram a ambição de desenvolver a capacidade de uma grande Intranet doméstica, para que pudesse administrar mais facilmente, se necessário”, disse um editor do jornal do Partido Comunista. Mas outros sugerem que a China está apenas tentando, como outros países, responder à realidade de que a Internet global existente IPv4, na qual os Estados Unidos comandam um percentual desproporcional de endereços, em breve ficará sem espaço. 

A evidência mais clara da determinação da China de exercer maior controle foi o apagão virtual das comunicações imposto a Xinjiang por seis meses, após os distúrbios de julho. Dezenove milhões de moradores em uma na região três vezes maior que o Texas ficaram privados de serviço de mensagem de texto, chamadas telefônicas internacionais e acesso à Internet a todos os sites, exceto alguns poucos controlados pelo governo. Os prejuízos ao turismo e aos negócios, sem contar as perturbações na vida cotidiana, foram significativos. 

Hu Yong, um especialista em mídia de Pequim, disse que o governo não está mais tão preocupado quanto estava a respeito do impacto econômico dos controles às comunicações eletrônicas. 

“Isso fica atrás das preocupações dele com a estabilidade política e social”, ele disse. 

*John Markoff, em San Francisco (EUA), contribuiu com reportagem, e Zhang Jing e Xiyun Yang, em Pequim, contribuíram com pesquisa

Tradução: George El Khouri Andolfato

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