UOL Notícias Internacional
 

13/02/2010

China vê motor do crescimento em uma rede de trens velozes

The New York Times
Keith Bradsher
Em Wuhan (China)

A maior migração humana do mundo –a viagem anual dos chineses para casa para celebração do Ano Novo Lunar, neste domingo– está ocorrendo um pouco mais rápido neste ano, graças a uma nova linha de trens de alta velocidade.

O trem-bala chinês, que possui a média de velocidade mais rápida do mundo, liga Cantão, o centro manufatureiro costeiro no sul, a Wuhan, no interior. Em pouco mais de três horas, ele viaja 1.068 quilômetros, um distância comparável de Boston até o sul da Virgínia [de São Paulo a Brasília].Isso é menos tempo do que o trem mais rápido da Amtrak, o Acela, leva para ir de Boston até Nova York.

Ainda mais impressionante, o trem de Cantão a Wuhan é apenas uma das 42 linhas de alta velocidade inauguradas recentemente ou que serão entregues até 2012 na China. Em comparação, os Estados Unidos esperam construir sua primeira linha de trem de alta velocidade em 2014, uma rota de 135 quilômetros ligando Tampa e Orlando, na Flórida.

  • Thomas Lee/The New York Times

    Funcionária limpa trem de alta velocidade na China; viagem de mil quilômetros é feita em 3 horas

Falando ali no mês passado, o presidente Barack Obama alertou que os Estados Unidos estão ficando atrasados em relação à Ásia e à Europa na construção de trens de alta velocidade e outros setores de energia limpa. “Os outros países não estão esperando”, ele disse. “Eles querem esses empregos. A China quer esses empregos. A Alemanha quer esses empregos. Eles os perseguem com determinação, fazendo os investimentos necessários.”

De fato, a rede de trens super-rápidos promete tornar a China ainda mais competitiva economicamente, ligando este vasto país –com aproximadamente o mesmo tamanho dos Estados Unidos– como nunca antes, assim como a construção do sistema rodoviário Interestadual aumentou a produtividade e reduziu custos nos Estados Unidos há meio século.

Enquanto a China atualiza e expande seu sistema ferroviário, ela cria as economias de produção em grande escala para outra grande indústria de exportação. “O simples volume de equipamento que será necessário, e a tecnologia que terá que ser desenvolvida, os catapultará para uma posição de liderança”, disse Stephen Gardner, o vice-presidente de políticas e desenvolvimento da Amtrak.

Mas os trens-bala, com velocidades médias superiores a 345 quilômetros por hora, têm seus críticos aqui. A passagem para os trens comuns altamente subsidiados, que exigem 11 horas para a viagem de Cantão a Wuhan, custa US$ 20,50 (cerca de R$ 38). O trem-bala custa US$ 72 (cerca de R$ 134), ou uma a três semanas de salário para um operário de linha de montagem.

“Esses preços não são razoáveis, como um leão abrindo sua boca sangrenta”, dizia um recente comentário postado na Internet, usando um provérbio chinês para ganância voraz.

Mas muitos trabalhadores que viajavam para casa para o Ano Novo Lunar entendiam o preço alto. “Com base na distância, o preço não é alto demais”, disse um operário de moldes de injeção de plástico que disse seu sobrenome, Li, e que estava tomando o trem lento para economizar dinheiro.

O luxuoso novo sistema ferroviário da China é uma resposta a um fracasso do planejamento central há seis anos.

Depois que a China ingressou na Organização Mundial do Comércio em novembro de 2001, as exportações e a manufatura foram às alturas. A geração de eletricidade não conseguiu acompanhar a demanda, porque o ministério das ferrovias não tinha construído novas linhas de trens suficientes, ou comprado locomotivas suficientes, para o transporte do carvão necessário para o funcionamento das novas usinas elétricas.

  • Thomas Lee/The New York Times

    Criança viaja em trem-bala na China; velocidade média supera os 345 quilômetros por hora

Em 2004, o governo estava desligando a força de algumas fábricas por até três dias por semana para impedir apagões nas áreas residenciais.

As autoridades então elaboraram um plano para transferir o tráfego de passageiros do país para rotas de alta velocidade até 2020, liberando os trilhos existentes para mais carga. Então a crise financeira estourou no final de 2008. Diante das demissões em massa nas fábricas exportadoras, a China ordenou que o novo sistema ferroviário fosse concluído até 2012 em vez de 2020, despejando mais de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 186 bilhões) em estímulo aos projetos.

Os administradores mobilizaram exércitos de trabalhadores –110 mil apenas para a rota de 1.320 quilômetros entre Pequim e Xangai, que reduzirá o tempo de viagem ali de 12 para 5 horas quando for inaugurada no ano que vem.

Zhang Shuguang, o vice-chefe de engenharia do ministério das ferrovias da China, disse em um discurso em setembro passado que o governo planejou 42 linhas até 2012, com 8.000 quilômetros de trilhos para trens de passageiros a 345 km/h e mais de 4.800 quilômetros de trilhos para trens de carga e passageiros rápidos viajando a 250 km/h. A velocidade máxima da linha Tampa-Orlando supostamente será de 270 km/h.

Apesar de ainda não terem recuado de suas metas, as autoridades chinesas insinuaram nas últimas semanas que os gastos de estímulo poderão diminuir. Alguns especialistas em transportes preveem que, como resultado, algumas poucas das 42 rotas poderão não ser concluídas até 2013 ou 2014. Uma preocupação é se a China está investindo excessivamente em trens de alta velocidade que podem exigir subsídios para funcionamento, como aqueles para manutenção das estradas: as tarifas para a rota de Pequim a Tianjin foram estabelecidas com valores mais baratos do que o inicialmente previsto, para assegurar que os trens permaneçam cheios.

Os novos trens partem 29 vezes por dia para Wuhan de uma imensa estação de trem, nos arredores de Cantão, que foi inaugurada em 30 de janeiro. Com altas vigas de aço, paredes brancas e enormes claraboias no alto, a estação, a maior da Ásia, lembra um grande aeroporto.

Enquanto os trens chineses cruzam velozmente o interior, as casas nas antigas aldeias bocejam sem janelas, indícios das relocações de camponeses que o governo ainda não quantificou publicamente.

Para evitar a demolição de bairros urbanos, enormes estações de trem foram erguidas em distritos industriais às margens das cidades. Metrôs até as estações ainda estão sendo construídos em Cantão e Wuhan; os passageiros atualmente levam 40 minutos de ônibus do centro das cidades.

As três horas de trem até Wuhan representam uma viagem mais rápida do que o voo de quase duas horas, assim que o tempo de check-in mais rápido dos trens é levado em consideração. As companhias aéreas estão perdendo passageiros.

Os trens-bala viajam mais rápido do que um jato comercial na decolagem. Eles exigem rotas extremamente planas e retas. O Acela da Amtrak atinge apenas brevemente sua velocidade máxima de 240 km/h porque funciona em trilhos antigos, cheios de curvas, que compartilha com trens de carga de 12 mil toneladas.

Em uma quarta-feira recente, o trem-bala das 14h50 partia suavemente da estação em Cantão e em quatro minutos estava viajando a mais de 320 km/h. Praticamente todos os assentos no trem com 14 vagões estava ocupado de migrantes que voltavam para casa para o Ano Novo chinês.

Sun Nanyu, uma menina de 9 anos usando grampos de cabelo cor-de-rosa da Minnie Mouse e uma blusa rosa e cinza “Hello Kitty”, estava sentada na classe econômica com seu pai.

“Eu estava com medo de viajar no trem porque ele anda rápido demais, mas agora não tenho mais medo, porque é estável e não balança”, disse Nanyu antes de adormecer sobre sua mesa-bandeja.

Muitos americanos podem ser gordos demais para os assentos da classe econômica, que medem apenas 45 centímetros entre os descansos de braço. A passagem para assentos de primeira classe, que são cinco centímetros mais largos, custa US$ 114 (cerca de R$ 212).

O trem das 14h50 chegou em Wuhan às 17h52, seis minutos mais cedo. Um trem quase lotado de volta a Cantão, no dia seguinte, também chegou seis minutos mais cedo.

A elevação da receita tributária, uma taxa nacional de poupança de 40% e trabalhadores que ganham menos de US$ 100 (cerca de R$ 186) por mês ajudam a tornar viável a construção de ferrovias de alta velocidade na China.

Mesmo com a mão-de-obra barata, a linha Wuhan-Cantão custou US$ 17 bilhões (cerca de R$ 31 bilhões); ela possui tantos túneis pelas montanhas que às vezes faz com que pareça um metrô.

Atualmente está sendo dito em Cantão: um morador pode embarcar no trem pela manhã, almoçar no histórico Monte Yuelu em Changsha, jantar na famosa Torre da Garça Amarela em Wuhan, e ainda voltar para casa para dormir na própria cama.

Para os americanos, uma viagem comparável envolveria um morador de Boston pegando um trem para a Filadélfia, almoçar perto do Sino da Liberdade, jantar na colonial Williamsburg, Virgínia, e voltar para casa para dormir.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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