UOL Notícias Internacional
 

14/02/2010

Com universidades destruídas, educação também sofre com terremoto no Haiti

The New York Times
Em Porto Príncipe (Haiti)

Christina Julme estava fazendo notas no fundo da sala, durante a aula de linguística, na Universidade Estatal do Haiti quando, de repente, tudo ficou escuro.

“Você está na sala de aula, seu professor está falando, você está tomando notas e de repente está enterrada viva”, disse Julme, 23, contando como o semestre foi interrompido na tarde de 12 de janeiro quando o terremoto transformou sua universidade de sete andares numa pilha de escombros, com ela enterrada no meio deles.

Julme, perdendo a consciência diversas vezes por causa da dor, foi retirada de sua sala de aula destruída depois de passar dois dias com a perna do professor morto encostada nela, o rosto de um amigo ferido a poucos centímetros do seu e muitos dos corpos de seus colegas de classe começando a cheirar mal.

As melhores universidades do Haiti estão em escombros, seus campi agora são pilhas de concreto desmoronado, com mesas e cadeiras destruídas e material de estudo soterrado. Centenas de professores e alunos foram enterrados, embora o número exato de mortos seja difícil de determinar porque as listas das salas de aula e registros de computador também foram destruídos pelo terremoto.

Na Escola Técnica St. Gerald, funcionários que usavam máquinas pesadas para fazer buscas entre os escombros encontraram uma sala de aula na qual os alunos mortos ainda estavam em suas carteiras. Na Universidade Quisqueya, a maior parte da multimilionária reforma que acabara de ser concluída foi transformada em pedaços. Joseph Chrislyn Bastien, 25, estudante de engenharia, olhava por uma fenda de 30 centímetros de altura no concreto, onde era possível ver sapatos, livros e móveis esmagados. “Aqui era uma sala de aula”, disse.

A destruição do estudo superior deve ter efeitos a longo prazo nesse devastado país, onde até nos melhores momentos a porcentagem de jovens que ia para a faculdade era ínfima.

“O que o terremoto fez conosco, além de destruir prédios e matar a maior parte da população, foi levar embora muitos daqueles que seriam os futuros líderes do país”, disse Louis Herns Marcelin, sociólogo da Universidade de Miami que coordena um instituto de pesquisa no Haiti. “O impacto foi gigantesco, mas ainda nem sabemos o quanto.”

A principal escola de enfermagem do país se foi, assim como a faculdade de medicina. O prédio de ciências da universidade pública se partiu, e a faculdade de pedagogia está inclinada para um dos lados. Na Escola de Tecnologia, Jean Foubert Dorancy, 22, escalou os escombros, cheios de pedaços de computadores, e lamentou: “Esta era a melhor escola de computação no Haiti. O que vou fazer agora?”

O sistema educacional que caiu tinha problemas. Muitos de seus prédios estavam degradados, resultado de décadas de negligência. As salas estavam superlotadas de alunos, e muitos recebiam uma educação apenas medíocre porque os alunos das melhores escolas de segundo grau, filhos da elite, normalmente iam para as universidades fora do país e não voltavam.

Num país tão pobre, é difícil compreender a perda repentina da oportunidade de educação. “A maioria dos meus amigos não estava estudando, ficavam só pelas ruas”, disse Jacques Gaspard, 38, que estava matriculado numa escola de comércio que foi destruída. “Agora, eu também estou na rua. Todo mundo está na rua.”

Protestos, greves e abandono das aulas eram comuns na vida universitária haitiana, e centenas de alunos de universidades públicas tinham, de fato, saído das salas para marchar em torno do Palácio Nacional para protestar contra a morte de um popular professor de sociologia quando o terremoto atingiu o país.

“O protesto salvou muitas vidas”, disse Beneche Martial, 26, estudante de medicina que ajudou a organizá-lo. “Estávamos bloqueando as ruas, gritando e marchando. Quando a terra começou a tremer nós corremos para todas as direções.”

A universidade pública do Haiti era o único lugar onde se podia conseguir um diploma até o fim do longo governo dos Duvaliers em 1986. Desde então, várias universidades reabriram, muitas delas sem credibilidade, mas outras são escolas bem administradas abertas para alunos talentosos independentemente de seus recursos.

Nos dias após o terremoto, a diretora geral da Organização Educacional, Científica e Cultural da ONU, Irina Bokova, pediu para que universidades fora do Haiti ajudem a suportar o fardo. “Universidades da região e de fora dela deveriam se esforçar ao máximo para receber os alunos do Haiti”, disse ela numa declaração, chamando o prejuízo para o sistema educacional do Haiti de “um atraso catastrófico para um país que já é atingido por outros desastres.”

Entre as universidades que ofereceram ajudar alunos desalojados e membros das faculdades está a Dillard University em New Orleans, que sofreu danos significativos durante o furacão Katrina. Uma delegação de reitores das universidades da República Dominicana também visitou recentemente o presidente do Haiti, René Préval, para oferecer ajuda aos estudantes universitários haitianos desalojados. Uma proposta permitiria que os haitianos cruzassem a fronteira para frequentar algumas universidades dominicanas nos finais de semana.

Já há planos para reativar as universidades do Haiti usando tendas ou estruturas temporárias até que estruturas mais permanentes possam ser construídas. E surgiram alguns sinais prematuros de que o danificado sistema universitário do Haiti possa ser reconstruído ainda melhor. Em Quisqueya, Evenson Calixte, reitor assistente de engenharia, disse que todos os alunos terão que estudar geologia de agora em diante para entender os terremotos. O novo currículo terá uma ênfase particular nos códigos de construção, disse ele.

A falta de profissionais educados no Haiti certamente contribuiu com tanta destruição no país. “Há uma falta total de arquitetos qualificados, planejadores urbanos, construtores e especialistas em zoneamento”, disse Conor Bohan, norte-americano que fundou o Programa Haitiano de Educação e Liderança, um programa de bolsas para alunos com notas altas, mas poucos recursos. “As pessoas estavam vivendo em casas abaixo do padrão onde não deveriam estar.”

Com as aulas canceladas, muitos alunos estão usando seu tempo livre para ajudar nos esforços de reconstrução. Futuros médicos contribuem em hospitais de campo e ajudam a organizar uma grande campanha de vacinação. Estudantes de psicologia conversam com pessoas desalojadas sobre como elas estão sobrevivendo. Julme, que estudava comunicações, conseguiu um emprego na estação de rádio da ONU, embora ela prefira a música, e não as notícias, para tirar a própria mente, e a mente de seus ouvintes, de todas as terríveis coisas que aconteceram.

“O reitor está morto”, disse ela sobre sua faculdade de linguística destruída. “O vice-reitor está morto. Eu não vejo como a universidade pode continuar.”

Os educadores do Haiti esperam que os esforços de reconstrução assegurem que as universidades sejam capazes de voltar a funcionar. “Como teremos uma massa crítica de pessoas para governar o país se não investirmos na próxima geração?”, pegunta Marcelin, fundador do Instituto Interuniversitário para Pesquisa e Desenvolvimento, um consórcio de universidades que opera no Haiti. “Se a comunidade internacional não perceber isso, passaremos o resto de nossas vidas dependendo de especialistas de fora.”

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,40
    3,181
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    2,01
    70.011,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host