UOL Notícias Internacional
 

16/02/2010

Rainha do samba de sete anos provoca preocupação entre adultos

The New York Times
Alexei Barrionuevo
No Rio de Janeiro

Mônica e Marco Lira brincaram que, certo dia, a filha deles dançaria como madrinha da bateria no desfile das escolas de samba do Carnaval do Rio de Janeiro, que é assistido por dezenas de milhares de espectadores no sambódromo e mais milhões de telespectadores.

 Mas Marco, o presidente de uma das 12 escolas de samba que disputam o Carnaval, decidiu ir em frente neste ano, colocando sua pequena Júlia à frente da extravagância de dançarinos, carros alegóricos e percussionistas, em uma posição com muita carga sexual geralmente reservada a atrizes e modelos badaladas. 

“Minha esposa disse: ‘Você vai criar um problema para si mesmo; ela tem sete anos’,” disse Marco em uma entrevista na quinta-feira. “Eu respondi: ‘E qual é o problema?’”

  • Julio Cesar Guimarães/UOL

    Júlia Lira, 7 anos, desfila na Viradouro como madrinha de bateria

 Escolas de samba rivais ridicularizaram, dizendo que Júlia era jovem demais para fornecer a inspiração “sensual” das apresentações vencedoras. Mas defensores dos direitos da criança levaram o caso a sério, acusando a escola de samba de exploração de menor. Foi necessária a autorização de um juiz da Infância e da Adolescência para liberar a participação de Júlia, colocando a pequena madrinha à frente de sua escola com 3.200 integrantes na altamente disputada competição do samba no sambódromo da Marques de Sapucaí.

Apesar de seus movimentos sensuais, o samba –um estilo trazido de Angola para a América do Sul por meio do comércio de escravos– não é algo reservado aos adultos no Brasil. As crianças competem em um desfile próprio de escolas de samba poucos dias antes da competição principal.

 Mas os defensores dos direitos da criança disseram que Júlia era jovem demais para o papel de madrinha da bateria. “Nós somos a favor da participação das crianças no Carnaval”, disse Carlos Nicodemos, presidente do Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente do Rio. “Faz parte da cultura e tradição dos brasileiros.”

 Mas, ele acrescentou, “este tipo de participação não se encaixa no princípio de desenvolvimento da criança. Colocá-la neste papel no Carnaval significa colocá-la em uma posição erotizada”.

 Há aqueles que veem essas preocupações como exageradas. Dulce Tupy, que escreveu um livro sobre a história do samba, disse que ao pesquisar as origens africanas da dança, ele percebeu a sensualidade como sendo intrínseca e que apenas segundo “nossos olhos ocidentais é que vemos certa malícia aqui”.

 A Viradouro é uma das 12 escolas de samba que disputam até a noite de segunda-feira a competição mundialmente famosa no Rio. Cada uma conta com vários milhares de dançarinos fantasiados que seguem a madrinha e a bateria em alas, divididas entre uma dúzia de carros alegóricos imensos. As escolas desfilam uma após a outra por 80 minutos no sambódromo, cada uma em um teste de arte e vigor.

 A madrinha tem “o papel de motivadora, de ser um símbolo sexual que nos inspira a tocar melhor”, disse Rafael Sampaio, um ex-integrante da bateria da Mangueira, uma escola de samba rival.

 “Eu não acho que ninguém é sexualmente motivado por uma criança; seria ridículo”, ele disse. “A Viradouro está curtindo fazer algo diferente, mas foi uma decisão tola.”

 No ano passado, Juliana Paes, uma atriz popular, foi a madrinha da bateria da Viradouro. Antes dela, Luma de Oliveira, uma atriz e modelo, ocupou o posto.

 Marco Lira sugeriu na entrevista na quinta-feira que a ideia de colocar Júlia no papel cobiçado nasceu da necessidade, depos que Juliana Paes aceitou o trabalho em uma novela e pediu para ser liberada do papel de madrinha da bateria. Após uma eleição dentro da Viradouro, uma sucessora foi escolhida –cujo nome Marco não quis citar– mas a bateria não se deu bem com ela, ele disse.

 Então, certo dia, Júlia, que estuda balé e jazz desde os 3 anos, se apresentou com a bateria. Marco ficou impressionado e inspirado.

 Júlia nunca participou de qualquer competição de Carnaval, nem mesmo das infantis. Mônica Lira disse que inicialmente teve dúvidas, mas as superou. Ela disse que consultou um pediatra para receber orientação a respeito de uma dieta especial, para que Júlia pudesse suportar o forte calor do verão do Rio.

 E ela disse que decidiu que a fantasia de Júlia seria “bastante infantil”. “Nunca passou pela minha cabeça colocar minha filha de sete anos em um biquini e salto alto”, ela disse.

 Júlia –todo seu 1,22 metro e talvez 25 quilos– estava ao lado de seus pais para a entrevista, sorrindo, mas se recusando timidamente a responder qualquer pergunta. Ela vestia uma minissaia prateada brilhante e um top. Sua mãe disse que ela adora Beyoncé e Jonas Brothers.

“Eu tenho muito orgulho dela”, disse Mônica. “Ela está fazendo o que gosta, que é dançar, e como sempre nós estaremos lá para apoiá-la.”

 Mas Marco estava irritado. Após um vice-presidente do departamento legal da escola ter interrompido a entrevista para sussurrar algo em seu ouvido, Marco deixou a sala, alertando o repórter para não escrever nada que ele considerasse prejudicial.

 Desde que a decisão se tornou pública, os diretores da Viradouro disseram que o assédio da mídia foi excessivo. Marco Lira foi bombardeado por pedidos de entrevista de todas as partes do mundo. E, como se queixou um diretor, alguns fotógrafos tiraram fotos vulgares dela, apontando suas câmeras em ângulos abaixo de sua minissaia.

 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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