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17/02/2010

Estudo mostra que faraó Tutancâmon provavelmente morreu de malária

The New York Times
John Noble Wilford

Recentes descobertas revelaram que o rei Tutancâmon, o jovem faraó do Egito, era frágil, deficiente físico e sofria de “desordens múltiplas” quando morreu aos 19 anos de idade, em cerca 1234 a.C.. Agora os cientistas também identificaram as prováveis causas de sua morte: um grave ataque de malária, aliado a uma doença óssea degenerativa.

Os pesquisadores afirmam que “esta é a mais antiga prova genética da ocorrência de malária encontrada em múmias de idade precisamente determinada”. Várias outras múmias no estudo revelaram no seu DNA evidências da presença do parasita que causa a malária, o Plasmodium falciparum, o que talvez não seja de se surpreender se tratando de um local como o vale do Nilo.

  • Ben Curtis/Reuters

    Arqueólogos observam a múmia de Tutancâmon, o jovem faraó que morreu de malária

A aplicação de avançadas técnicas radiológicas e genéticas às múmias egípcias significa um novo passo da investigação histórica cada vez mais profunda por meio da ciência.

O estudo, divulgado nesta última terça-feira (16), não revelou nenhum sinal de morte causada por violência, conforme suspeitavam alguns historiadores e escritores populares familiarizados com as intrigas palacianas do Egito antigo. Exames anteriores da múmia de Tutancâmon revelaram uma fratura de perna recente, provocada possivelmente por uma queda. Isto pode ter contribuído para um estado em que havia risco de morte em um sistema imunológico já debilitado pela malária e outras desordens, afirmam os pesquisadores.

Além disso, a identificação genética das 11 múmias envolvidas no estudo revelou conexões familiares no decorrer de mais de cinco gerações da linhagem de Tutancâmon. Anteriormente, as identidades só estavam confirmadas para três das múmias. Agora, os cientistas dizem que os exames identificaram as múmias do pai, da mãe, da avó e, provavelmente, de outros parentes de Tutancâmon.

A investigação, que durou dois anos – e foi concluída em outubro do ano passado –, é descrita na edição mais recente do periódico “Journal of the American Medical Association”. A pesquisa foi dirigida por Zahi Hawass, um egiptólogo que chefia o conselho supremo de Antiguidades no Cairo, e incluiu cientistas da área médica e antropólogos do Egito, da Alemanha e da Itália. Carsten M. Pusch, do instituto de Genética Humana da Universidade de Tuebingen, na Alemanha, foi o autor do relatório.

Em um artigo editorial também publicado no periódico, Howard Markel, do centro de História da Medicina da Universidade de Michigan, que não participou do estudo, elogiou o rigor da nova pesquisa “baseada no acesso irrestrito às múmias atuais”.

Recordando a profusão de alegações post-mortem que cercaram o jovem faraó, Markel sugeriu que agora “talvez seja recomendável que a legião de admiradores de Tutancâmon reavalie diversas das teorias existentes”.

Embora não tenha sido um dos grandes líderes do Egito antigo, o faraó Tutancâmon é sem dúvida o mais conhecido. Ele foi o filho e o sucessor de Akhenaton, o controverso faraó reformista que governou de cerca de 1351 a.C. a 1334 a.C. Um dos outros feitos da pesquisa foi a primeira identificação positiva da múmia de Akhenaton, algo que era um mistério histórico independente.

A descoberta pelo arqueólogo britânico Howard Carter, em 1922, da opulenta tumba de Tutancâmon no vale dos Reis foi uma sensação. O aspecto e a morte prematura do jovem rei no nono ano do seu reinado inspiraram uma especulação fantasiosa, e os artefatos de ouro e as joias da sua tumba ainda impressionam multidões nas exibições em museus.

A impressão geral resultante da nova pesquisa é a de que o poder e a riqueza da família real não pouparam os seus membros das doenças e das deficiências físicas. Várias múmias apresentam lábio leporino, pés tortos, pés chatos e degeneração óssea. Quatro das 11 múmias, incluindo a de Tutancâmon, apresentam traços genéticos de malária tropical, a forma mais grave da infecção.

Os pesquisadores dizem que várias outras patologias foram diagnosticadas na múmia de Tutancâmon, incluindo uma desordem óssea conhecida como Doença de Köhler II, que por si só não teria provocado a morte do faraó. Mas ele sofria também de necrose óssea avascular, um doença na qual a redução do fornecimento de sangue aos ósseos provoca o grave enfraquecimento ou a destruição de tecidos. A descoberta levou a equipe de cientistas a concluir que isto e a malária foram provavelmente as causas mais prováveis da morte do rei.

Os efeitos dessa doença óssea, especialmente a “estrutura indubitavelmente alterada” do pé esquerdo, provavelmente explicam a presença de bengalas na tumba de Tutancâmon, dizem os pesquisadores.

A especulação também se concentrou no fato de que Tutancâmon não deixou herdeiros, e desenhos estilizados e esculturas dele e de seus parentes os retratam com uma aparência meio feminina ou andrógena. Isso sugere a presença de certas síndromes hereditárias, incluindo a ginecomastia, que se constitui no desenvolvimento excessivo das mamas nos homens, sendo geralmente o resultado de um desequilíbrio hormonal.

As mamas de Akhenaton e de Tutancâmon não foram preservadas. Mas o pênis de Tutancâmon, que não estava mais ligado ao corpo, “é bem desenvolvido”, segundo relatam os pesquisadores.

“A maioria dos diagnósticos de doenças se constitui em hipóteses às quais se chegou pela observação e a interpretação de artefatos, e não pela avaliação dos restos mumificados dos indivíduos da família real, independente destes artefatos”, concluíram os cientistas.

Markel, o historiador da medicina, comentou que o uso de técnicas radiológicas e genéticas no estudo da história humana gerou questões de natureza ética que precisam ser enfrentadas.

Ao escrever para o periódico, ele questionou: “Quais serão as regras para a exumação de corpos com o objetivo de solucionar mistérios patológicos persistentes? As grandes figuras históricas teriam direito às mesmas regras de privacidade das quais os os cidadãos comuns desfrutam após a morte? E, de forma mais pragmática, o que se obteve de fato a partir desses estudos? Eles modificarão o pensamento atual sobre doenças ameaçadoras e a sua prevenção, como por exemplo a gripe? Eles modificarão o entendimento do passado, tal como a poderosa elucidação, a partir do estudo de Jefferson, da intimidade durante a era da escravidão e o estudo focado em Tutancâmon sobre a conduta da família real no Egito?”.

 

Tradução: Danilo da Fonseca

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