UOL Notícias Internacional
 

19/02/2010

China intensifica cabo de guerra com a Índia pelo Nepal

The New York Times
Jim Yardley
Em Katmandu (Nepal)

Por anos, o Nepal nunca se incomodou muito com o policiamento de sua fronteira norte com a China. O Himalaia parecia uma barreira grande o suficiente, e a atenção política e econômica do Nepal estava orientada ao sul, para a Índia. Se o Nepal fosse um rato preso entre elefantes, como diz um ditado local, o elefante que importava era a Índia.

Contudo, na semana passada, uma delegação do governo nepalês visitou Pequim em uma viagem que novamente ressaltou como o peso recém-adquirido da China no mundo está alterando antigas equações geopolíticas.

O ministro do interior do Nepal, Bhim Rawal, reuniu-se com altos oficiais de segurança da China, e a mídia estatal chinesa informou que os dois países haviam concordado em cooperar em segurança de fronteira, enquanto o Nepal reafirmou seu compromisso em impedir eventos “antitChina” em seu lado da fronteira.

Não foram divulgados detalhes das reuniões, mas os dois países devem concordar com um programa sob o qual a China daria dinheiro, treinamento e apoio logístico para ajudar o Nepal a expandir os postos de policiamento em regiões isoladas de sua fronteira norte.

A razão do acordo é simples: o Tibete.

Em uma época em que a decisão do presidente Barack Obama de se encontrar com o dalai-lama enfureceu a China, as reuniões de Rawal em Pequim podem ter maior efeito prático nas vidas dos tibetanos.

  • Pete Souza/Efe

    Obama recebe dalai-lama na Casa Branca e declara apoio aos direitos humanos do Tibete

Movido pela China, o Nepal agora está se movimentando para fechar as passagens do Himalaia pelas quais os tibetanos há muito fazem viagens secretas, entrando e saindo da China, frequentemente em peregrinações para visitar o dalai-lama em seu exílio na Índia.

A China, que antes via o Nepal com interesse intermitente, está se exercitando mais amplamente na direção de seu pequeno vizinho no Himalaia - em parte por causa de sua preocupação que o Nepal poderia se tornar um local para agitação tibetana, em parte como outro palco sul-asiático em sua disputa de poder na região com a Índia.

O Nepal se tornou um espaço muito interessante, onde os grandes jogadores atuam em dois níveis. Um é em seu relacionamento com o Nepal, e o segundo é no relacionamento entre Índia e China”, disse Ashok Gurung, diretor do Instituto Índia China.

No sentido mais amplo, Índia e China compartilham objetivos similares no Nepal. Cada um quer que a situação política no país se estabilize e está olhando de perto enquanto os maoístas do país negociam com outros partidos políticos sobre uma nova constituição que fundamentalmente reformularia o governo. Os dois também estão preocupados com a segurança, enquanto a Índia se preocupa com a agitação política do lado nepalês de sua fronteira compartilhada, assim como a possibilidade de terroristas treinados no Paquistão transitarem pelo Nepal.

A Índia, porém, também está prestando bastante atenção ao que muitos de seus especialistas consideram um novo ativismo chinês na Ásia meridional, seja construindo portos no Ceilão e Paquistão ou assinando novos acordos até com a menor das nações asiáticas, como a República das Maldivas. Uma presença chinesa maior no Nepal seria especialmente alarmante para a Índia, pois compartilham uma fronteira longa e deliberadamente porosa.

“A Índia sempre se preocupou com o acesso da China ao Nepal. A Índia sempre considerou a Ásia meridional seu quintal, como uma Doutrina Monroe”, disse Sridhar Khatri, diretor executivo do Centro de Estudos Políticos da Ásia do Sul em Katmandu.

Da perspectiva da China, a importância geopolítica do Nepal aumentou após os protestos tibetanos em março de 2008, cinco meses antes de Pequim abrigar os Jogos Olímpicos. Os protestos ocorreram dentro da China; em Lhasa, a capital tibetana, e em outras regiões do país, mas também atravessou a fronteira para Katmandu, onde se estima que haja 12 mil tibetanos.

Enquanto as autoridades chinesas conseguiram impedir a cobertura internacional da repressão no Tibete, os protestos no Nepal atraíram atenção mundial. Circularam fotografias da polícia nepalesa reprimindo os manifestantes tibetanos. Em alguns casos, as agências de notícias identificaram erroneamente o local como sendo o Tibete.

“Houve uma mudança após março”, disse Gurung. “Os chineses compreenderam que o Nepal é um local importante, onde podem ser envergonhados por questões tibetanas.”

V.R. Raghavan, general da reserva indiana, disse que por anos a China permitiu que os tibetanos cruzassem para o Nepal. Muitos partiam em peregrinações ou estudavam em universidades na Índia. Mas as manifestações de março fizeram a China compreender que a “janela no sul” precisava ser fechada.

“Todos os movimentos de personagens importantes, monges e outros do Tibete ocorreram pelo Nepal”, disse General Raghavan, hoje diretor do Grupo de Política Delhi, um instituto de pesquisa.

Autoridades chinesas apertaram a segurança de seu lado da fronteira, a título de impedir agitadores pró-Tibete de entrarem ou saírem do país. Elas também exortaram o Nepal a se tornar mais vigilante. No último outono, Rawal anunciou que o Nepal, pela primeira vez, teria polícia armada em regiões isoladas como Mustang e Manang na fronteira com o Tibete.

Defensores do Tibete dizem que o aperto na segurança de fronteira já reduziu fortemente o movimento na região. Até 2008, 2.500 ou 3.000 tibetanos atravessavam a fronteira anualmente, de acordo com o escritório do dalai-lama. No ano passado, contudo, o número caiu para 600, uma mudança atribuída pelos tibetanos aos maiores laços entre a China e o Nepal.

“A aproximação está tornando as coisas mais difíceis para os tibetanos”, disse Tenzin Taklha, secretário do dalai-lama.

De fato, muitos nepaleses acreditam que a aproximação da China é melhor para o país. Por mais de meio século, a Índia tem sido profundamente influente nos assuntos nepaleses e continua sendo a maior parceira comercial e benfeitora econômica do Nepal, apesar de alguns nepaleses se ressentirem da interferência da Índia em seus assuntos. A moeda do Nepal é atrelada à rúpia indiana, e os cidadãos dos dois países podem atravessar a fronteira livremente. Mais de 1 milhão de nepaleses trabalham na Índia e enviam remessas para casa.

Contudo, o comércio com a China quadruplicou desde 2003, de acordo com estatísticas do governo, e os empresários nepaleses querem aumentar os laços econômicos.

Nos últimos anos, as empresas aéreas chinesas abriram rotas para o Nepal, e o número de turistas chineses cresceu gradativamente. As autoridades nepalesas também querem que a China estenda seus serviços de trem até a fronteira, para que o Nepal possa ser ligado à mesma linha de altitude que conecta Pequim ao Tibete.

Kush Kumar Joshi, presidente da Federação Nepalesa de Câmaras de Comércio e Indústria, disse que seu grupo estava tentando estabelecer zonas econômicas especiais para atrair fabricantes chineses para o Nepal - e para empresas indianas também.

“Precisamos ter os dois países como nossos parceiros de desenvolvimento”, disse ele.

Khatri, analista em Katmandu, disse que a Índia ia continuar sendo a vizinha dominante do Nepal, mas que a expansão do alcance global da China inevitavelmente traria maior relacionamento entre os dois países. Imaginar que a China não aumentaria sua atuação na região “seria negligenciar a realidade”, disse ele.

Tradução: Deborah Weinberg

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