UOL Notícias Internacional
 

21/02/2010

O Vodu, uma fonte de conforto no Haiti, continua incompreendido

The New York Times
Samuel G. Freedman

Cerca de 18 horas após o terremoto que devastou o Haiti em 12 de janeiro, o reverendo Pat Robertson fez um discurso pela televisão sobre a história, teologia e destino do país. O Haiti sofreu, como ele explicou, porque seus escravos rebeldes “fizeram um pacto com o diabo” para derrubar os franceses há dois séculos. Desde então, ele prosseguiu, “eles foram amaldiçoados por uma coisa ou outra”.

Por mais duras e toscas que fossem as palavras de Robertson, ele merece um certo crédito perverso por uma coisa. Ele de fato reconheceu o quão central é o vodu para o Haiti. Na volumosa cobertura da mídia sobre o terremoto e suas consequências, relativamente poucos jornalistas e comentaristas o fizeram, e ainda menos entenderam o vodu de modo certo.

Considere alguns poucos fatos. O vodu é uma das religiões oficiais do Haiti, e sua designação em 2003 apenas representou um reconhecimento de uma antiga realidade. A revolta dos escravos que levou o Haiti à independência de fato dependeu do vodu, a versão do Novo Mundo de fés ancestrais africanas. Até hoje, segundo várias estimativas acadêmicas, entre 50% e 95% dos haitianos praticam pelo menos elementos do vodu, frequentemente em conjunto com o catolicismo.

Mas uma pesquisa no banco de dados Lexis Nexis de cobertura da imprensa e realizando uma busca pelo Google nesta semana, eu descobri que o catolicismo apareceu em três vezes mais relatos sobre o terremoto do Haiti do que o vodu. Um percentual substancial dos relatos que mencionavam o vodu ou repetia a ficção de Robertson ou a adotava em artigos que perguntavam aos sobreviventes haitianos se sentiam que seu país era amaldiçoado.

Em um nível presumidamente mais informado, artigos, reportagens de rádio e televisão e blogs descreviam o vodu como a fonte da pobreza e instabilidade política do Haiti –não por causa de punição divina, mas porque o vodu é supostamente fatalista e primitivo por natureza.

“O tipo de religião que uma pessoa pratica faz uma enorme diferença em como vive a comunidade –para melhor ou para pior”, escreveu Rod Dreher no site beliefnet. “Eu suponho que é possível ao menos argumentar que os haitianos estariam melhor como seguidores da Igreja de Christopher Hitchens do que como seguidores do vodu.”

Para acadêmicos cujo conhecimento é um tanto mais profundo, essas palavras compreensivelmente causaram indignação. Pior, a postura desdenhosa em relação ao vodu segue uma história barata de interpretação equivocada no jornalismo americano e na cultura popular.

“A mídia falou muito a respeito do vodu, mas não muito que fosse esclarecedor ou inteligente”, disse Diane Winston, uma professora de religião e mídia da Universidade de Sul da Califórnia. “O vodu chama a atenção dos americanos porque é exótico, desconhecido e tem conotações estranhas. Pode ser uma questão de racismo implícito, porque o vodu é africano e caribenho em suas origens, ou porque o vodu é tão diferente do cristianismo a ponto de se tornar o Outro perfeito.” O professor Leslie G. Desmangles, do Trinity College, em Hartford, Connecticut, que é autor de vários livros acadêmicos e de referência sobre o vodu, vê as atuais caricaturas do vodu como sendo bastante familiares.

“Há um tratamento muito degradante, pejorativo, a respeito do vodu”, ele disse em uma entrevista recente. “É um tratamento que remonta ao século 19.”

A Igreja Católica Romana no Haiti deu início a uma série de campanhas antissuperstição nos anos 1860. Esses esforços continuaram até o início dos anos 40 e transmitiam uma suposição –frequentemente abraçada pela elite haitiana– de que enquanto o catolicismo era uma religião legítima, o vodu era uma heresia pagã.

A ocupação do Haiti por forças militares americanas de 1915 a 1934 introduziu a versão cartunesca do vodu que perdura na cultura popular. O livro de 1929, “A Ilha da Magia”, de Briton W.B. Seabrook, se tornou um best seller nos Estados Unidos. Apesar de Seabrook ser supostamente esclarecido para sua época, o sucesso comercial de seu livro inspirou uma série de filmes B nos anos 30 e 40, como “Zumbi Branco” e “A Morta-Viva”.

A imagem resultante do vodu como feitiçaria sinistra, surpreendentemente, sobreviveu até a atual era multicultural. Um livro sensível sobre o vodu no Haiti moderno, “A Serpente e o Arco-Íris”, do etnobotanista Wade Davis, foi transformado por Hollywood em um filme de horror (“A Maldição dos Mortos-Vivos”) que reciclava todos os clichês intolerantes a respeito da religião.

Nos últimos meses, o desenho animado “A Princesa e o Sapo”, produzido pela Disney, apresentava um mágico vodu como seu vilão. Mas o vodu, aparentemente, nem mesmo mereceu o tipo de exotização condescendente que a Disney concedeu ao politeísmo nativo-americano em “Pocahontas”.

Na retórica política americana, “vodu” funciona como sinônimo de fraudulento, como a descrição por George H.W. Bush da economia orientada para a oferta. Alguma figura pública ousaria usar “batista”, “hindu” ou “hassídico” da mesma forma?

Superficialmente, a ênfase no catolicismo na recente cobertura do Haiti parece sensível. A maioria dos haitianos é católica; grandes prédios católicos foram destruídos no terremoto; a Igreja Católica opera importantes agências de refugiados e de ajuda humanitária. O vodu carece dessa infraestrutura visível.

Mas o catolicismo no Haiti, como muito poucos jornalistas pareceram perceber, não é mais ou menos como o catolicismo em uma paróquia polonesa em Chicago ou uma irlandesa em Boston. É um catolicismo em simbiose com o vodu, um catolicismo em que há um sincretismo entre santos e deidades africanas, em que ancestrais mortos servem como interlocutores entre Deus e a humanidade.

O professor Patrick Bellegarde-Smith, da Universidade de Wisconsin, em Milwaukee, um especialista em vodu e sacerdote vodu, compara a textura religiosa do Haiti à do Japão. A mesma pessoa japonesa, ele disse, observa a fé xintoísta em certos rituais, o budismo em outras, e não vê contradição ou exclusividade mútua.

“Eu digo aos repórteres para irem até as favelas e procurarem pelo sacerdote vodu local”, disse Amy Wilentz, a autora do aclamado livro sobre o Haiti contemporâneo, “The Rainy Season”. “O vodu é muito próximo do chão. É uma religião de quintal, de bairro para bairro. É uma em que as pessoas apóiam umas às outras em tempos difíceis.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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