UOL Notícias Internacional
 

25/02/2010

Pesquisadores apontam grandes cidades como zonas propensas a terremotos e novas tragédias

The New York Times
Andrew C. Revkin
Em Istambul (Turquia)

Enquanto investiga as ruas desta ampla megacidade, Mustafa Erdik, o diretor de um instituto de engenharia de terremotos daqui, diz que às vezes se sente como um médico diagnosticando uma ala lotada de hospital. 

Não se trata tanto do lado moderno da cidade, onde duas Torres Trump reluzentes e um imenso terminal de aeroporto foram construídos para suportar um grande terremoto, que é considerado inevitável nas próximas poucas décadas. Erdik também não agoniza a respeito dos monumentos antigos de Istambul, cujas paredes de vários metros de espessura já suportaram mais de uma dúzia de golpes sísmicos potentes ao longo dos últimos dois milênios. 

Sua maior preocupação é com as dezenas de milhares de prédios por toda a cidade, erguidos com pressa, despreparados e não inspecionados, à medida que a população saltava de 1 milhão para 10 milhões em apenas 50 anos, o que alguns sismólogos chamam de “escombros à espera”. 

“Os terremotos sempre encontram o ponto mais fraco”, disse Erdik, um professor da Universidade de Bogazici daqui. 

  • Johan Spanner / The New York Times

    Crianças participam de treinamento contra terremotos em uma escola primária de Istambul, na Turquia. A cidade é uma das capitais mundiais indicadas por pesquisadores como foco de terremotos e com tendência de repetir tragédias como a do Haiti, em janeiro

Istambul é uma das várias cidades ameaçadas por terremotos no mundo em desenvolvimento onde as populações cresceram mais rapidamente do que a capacidade de fornecer moradias seguras, as deixando propensas a um desastre de um tamanho que poderia, em alguns casos, ultrapassar a devastação causada pelo terremoto do mês passado no Haiti. 

Roger Bilham, um sismólogo da Universidade do Colorado que passou décadas estudando grandes terremotos ao redor do mundo, incluindo o recente sismo no Haiti, disse que a crescente população urbana do planeta, projetada para aumentar em mais 2 bilhões de pessoas até meados do século, exigindo 1 bilhão de moradias, enfrenta “uma arma de destruição em massa não reconhecida: as moradias”. 

Sem grandes esforços para mudar as práticas de construção e educar as pessoas, de prefeitos a pedreiros, sobre formas simples de reforçar as estruturas, ele disse, a tragédia do Haiti quase certamente será superada em algum momento deste século, quando um grande terremoto atingir Karachi, no Paquistão; Katmandu, no Nepal; Lima, no Peru; ou qualquer uma de uma longa lista de grandes cidades pobres que inevitavelmente enfrentarão grandes terremotos. 

Em Teerã, a capital do Irã, Bilham calculou que 1 milhão de pessoas poderiam morrer em um terremoto previsto, semelhante em intensidade ao do Haiti, que o governo haitiano estima que matou 230 mil pessoas. (Alguns geólogos iranianos pressionam seu governo há décadas para mudar a capital, devido ao ninho de falhas geológicas ao seu redor.) 

Quanto a Istambul, um estudo liderado por Erdik mapeou uma situação na qual um terremoto poderia matar de 30 mil a 40 mil pessoas e ferir gravemente 120 mil. 

A cidade está repleta de prédios com falhas gritantes, como andares térreos com paredes ou colunas removidas para abrir espaço para vitrines de lojas, ou uma sucessão de acréscimos de novos andares ilegais a cada período eleitoral, com base na suposição de que as autoridades locais farão vista grossa. Em muitos prédios, os andares superiores se equilibram precariamente sobre a calçada, tirando proveito de um velho processo de permissão que rege apenas a base do prédio. 

  • Johan Spanner / The New York Times

    Voluntários de Istambul participam de treinamento de primeiros socorros para o socorro de vítimas de terremoto. O crescimento populacionais de grandes cidades como a capita da Turquia e Teerã, no Irã, produz construções incapazes de suportar grandes abalos, causando a fragilidade dessas cidades e tornando-as frágeis diante dos abalos naturais da terra

Pior, disse Erdik, assim como os pacientes de um médico, nem todos os problemas potencialmente mortais são visíveis externamente, e outros milhares de prédios supostamente correm risco. “Pequenos detalhes são muito importantes”, ele disse. “Dizer que um prédio está em más condições é fácil. Dizer que um é seguro é difícil.” 

Algumas das maiores construtoras da Turquia já reconheceram o uso de materiais de baixa qualidade e de práticas ruins durante o boom de construção urbana. Em uma entrevista no ano passado para a revista turca “Referans”, Ali Agaoglu, um empresário turco do setor de construção que ficou no 468º lugar na lista de bilionários da revista “Forbes”, descreveu como, nos anos 70, areia do mar e sucata de ferro eram rotineiramente utilizados em prédios feitos de concreto reforçado. 

“Naquela época, era o melhor material”, ele disse, segundo uma tradução da entrevista. “Não apenas nós, mas todas as empresas faziam o mesmo. Se um terremoto ocorrer em Istambul, nem mesmo o exército conseguirá entrar.” 

 

  • Tequila Minsky/The New York Times

    Fachada de um dos prédios destruídos pelo terremoto que abalou Porto Príncipe, no Haiti

Repetindo a posição de outros engenheiros e planejadores que tentam reduzir a vulnerabilidade de Istambul, Erdik disse que a melhor esperança, considerando a escala do problema, seria a de um progresso econômico acontecer rápido o suficiente a ponto dos proprietários de imóveis substituírem os piores imóveis, já existentes, antes do chão tremer. 

“Se o sismo nos der algum tempo, nós podemos reduzir as perdas com a simples rotatividade”, disse Erdik. “Se acontecer amanhã, haverá um número imenso de mortes.” 

Mas quando um terremoto potente ocorreu a 80 quilômetros de distância em 1999, matando mais de 18 mil pessoas, incluindo 1.000 nos arredores de Istambul, a cidade foi lembrada de que o tempo pode não estar ao seu lado. Aquele terremoto ocorreu na falha Anatólia Norte, que passa sob o Mar de Mármara, a poucos quilômetros da zona sul densamente povoada da cidade. 

A falha, que é muito semelhante à de San Andreas na Califórnia, parece ter um padrão de sismos sucessivos, o que significa que um provavelmente ocorrerá no trecho próximo de Istambul, disse Tom Parsons, que estudou a falha para o Levantamento Geológico dos Estados Unidos. 

Uma cidade se prepara 

Istambul se destaca entre as cidades ameaçadas nos países em desenvolvimento por estar tentando se antecipar ao risco. 

Um primeiro passo foi a elaboração de um plano mestre para terremoto para a cidade e para o governo federal, de autoria da equipe de Erdik e de pesquisadores de três outras universidades turcas em 2006. Esse plano é uma raridade fora de cidades ricas como Tóquio e Los Angeles. 

A execução de sua longa lista de recomendações provou ser ainda mais desafiadora, dado que a maior fonte de pressão política em Istambul, assim como na maioria das grandes cidades com alta densidade populacional, não é um terremoto iminente, mas o trânsito, criminalidade, empregos e outros problemas imediatos. 

Todavia, com a urgência amplificada pelas lições da devastação no Haiti, Istambul está fazendo o que pode para se preparar para um desastre. 

O esforço de preparação está vindo do alto, com códigos de construção mais rígidos, seguro obrigatório contra terremoto e empréstimos de bancos de desenvolvimento internacionais para reforço ou substituição de escolas e outros prédios públicos vulneráveis. 

Mas também há um esforço vindo de baixo, à medida que grupos sem fins lucrativos, reconhecendo as limitações de um planejamento centralizado, treinam dezenas de equipes de voluntários em bairros pobres e as equipam com rádios, pés-de-cabra e kits de primeiros socorros, para que possam remover os escombros quando seus bairros forem sacudidos. 

Mahmut Bas, que lidera o Departamento de Terremoto e Análise do Solo da cidade, está encarregado de consolidar e coordenar tudo, das inspeções aos prédios à resposta de emergência. Mas a burocracia é quase tão grande e ineficaz quanto a teia vertiginosa de ruas tomadas pela poluição, congestionadas com cerca de 6 milhões de veículos. 

Bas disse que o desmoronamento de prédios é apenas uma de muitas ameaças. Uma previsão a respeito de um terremoto potente concluiu que 30 mil linhas de gás natural provavelmente se romperiam. “Se apenas 10% pegarem fogo, serão 3 mil incêndios”, ele disse, acrescentando que o corpo de bombeiros da cidade é capaz de lidar no máximo como 30 a 40 incêndios em um dia. 

Ainda assim, manter em pé as estruturas vitais– como os postos do corpo de bombeiros, os hospitais e as escolas– continua sendo a maior prioridade. 

Escorando as escolas 

Segundo um programa financiado com mais de US$ 800 milhões em empréstimos do Banco Mundial e do Banco de Investimento Europeu, assim como mais no aguardo proveniente de outras fontes internacionais, a Turquia está nos primeiros estágios de reforçar centenas das escolas mais vulneráveis em Istambul, juntamente com importantes prédios públicos e mais de 50 hospitais. 

Com cerca da metade das quase 700 escolas avaliadas como sendo de alta prioridade para adequação ou substituição até o momento, o progresso está lento demais para o agrado dos muitos engenheiros e geólogos turcos que estudam a ameaça. Mas nos bairros onde os trabalhos já foram realizados ou estão em andamento –aqueles mais próximos do Mar de Mármara e da falha– estudantes, pais e professores expressam um senso de alívio misturado com o conhecimento de que as reformas apenas reduzem as chances de uma calamidade. 

“Eu espero que seja suficiente”, disse Serkan Erdogan, um professor de inglês da escola primária Bakirkoy Cumhuriyet, próxima da costa do Mármara, onde US$ 315 mil foram gastos para adição de paredes de reforço, novos invólucros de concreto e barras de reforço de aço ao redor das velhas colunas e ajustes simples como mudar as portas da escola para que abram para fora, facilitando as evacuações. 

“As melhorias são ótimas, mas o prédio ainda pode desmoronar”, ele disse. “Nós temos que aprender a conviver com esse risco. As crianças precisam saber o que devem fazer.” 

Em uma classe da quinta série, o treinamento dos estudantes que acompanha as reformas estruturais era evidente enquanto Nazan Sati, uma assistente social, perguntava a crianças de 11 anos o que fariam caso um terremoto ocorresse naquele instante. 

Inicialmente, uma floresta de mãos se ergueu. Sati rapidamente disse para que mostrassem, não falassem. Em uma bagunça louca e cheia de risos, os alunos se esconderam sob suas mesas. 

  • AP

    Equipe de resgate procura sobreviventes sob os escombros de desabamento em Sichuan, na China

Mas a ameaça para as crianças e seus pais também se encontra fora dos muros da escola, em quilômetro após quilômetro de bairros repletos de estruturas chamadas “gecekondu”, que significam “erguidas da noite para o dia”, porque foram construídas de modo aparentemente instantâneo à medida que centenas de milhares de migrantes das regiões rurais tomaram as cidades à procura de trabalho na última década ou duas. 

Este tipo de construção é comum em muitas das zonas sísmicas mais instáveis do mundo. Bilham, da Universidade do Colorado, estima que um engenheiro está envolvido em apenas 3% das construções erguidas ao redor do mundo. 

Peter Yanev, que já foi consultor de engenharia de terremotos para o Banco Mundial e para o setor de seguros, além de ser autor de “Peace of Mind in Earthquake Country”, notou que na Turquia e em outros países em desenvolvimento, mesmo quando alguém com diploma de engenharia está envolvido, não há garantia de que a construção seja segura, porque há pouco treinamento especializado. 

Salvando os vizinhos 

Diante desses problemas, esforços estão em andamento nos lotados bairros operários e pobres de Istambul para treinar e equipar vários milhares de voluntários, para que estejam prontos para responder quando, não se, o pior acontecer. 

Em uma ensolarada manhã de sábado, Mustafa Elvan Cantekin, que dirige o Projeto de Apoio ao Desastre do Bairro, percorreu as ruas para se encontrar com uma equipe no distrito de Bagcilar da cidade, onde estima-se que cerca de 4.200 pessoas provavelmente morreriam em caso de um grande terremoto. 

Cantekin, um engenheiro turco formado pela Texas A&M University e testado na zona de terremoto de 1999, ajudou a criar 49 equipes de bairro na cidade, cada uma com um contêiner de carga repleto de pés-de-cabra, geradores, macas e outros equipamentos de emergência. 

Por meio do projeto, pago por uma agência de desenvolvimento suíça e por empresas privadas, ele viajou ao Marrocos, Jordânia e Irã para ajudar a iniciar programas semelhantes aos de Istambul. 

Um mapa no seu colo mostrava que o bairro estava na fronteira de zonas de risco vermelhas e laranjas delineando os piores riscos sísmicos. Ele apontou para um prédio após outro onde não havia um telhado permanente, mas sim colunas apontando para o alto na antecipação de que o senhorio encontrará um novo inquilino e acrescentará outro andar não aprovado –e outra camada de risco. 

Enquanto seu carro percorria labirintos de ruas congestionadas, Cantekin disse que a dura realidade para dezenas de pequenas comunidades dentro da megacidade, assim como as cidades devastadas na província de Sichuan, na China, após o terremoto de 2008, é que dependerão de si mesmas quando ocorrer um terremoto. 

“A China conta com a maior capacidade de defesa civil do mundo, mas ainda assim ela precisou de três a quatro dias para chegar às cidades devastadas”, ele disse. “Se ocorrer um grande terremoto aqui, as pessoas terão que se virar sozinhas com aquilo que tiverem por pelo menos as primeiras 72 horas.” 

Do lado de fora de um centro comunitário onde as crianças estavam diante de um computador jogando Farmville no Facebook, Cantenkin inspecionava o conteúdo do contêiner com o líder da equipe, Cuma Cetin, 36 anos, um operário de fábrica e pai de cinco. 

“Nós não estamos esperando pelo desastre”, disse Cetin, enquanto ele e sua equipe, trajando macacões laranjas, acompanhavam Cantekin enquanto este apontava as falhas fatais nos prédios próximos. 

Ao longo de uma avenida que era um leito de rio há quatro décadas, em um ponto onde as casas foram construídas sobre sedimentos em vez de leito rochoso, portanto particularmente vulneráveis, Cantekin liderou a equipe até uma área aberta no térreo de um prédio de quatro andares, com roupa lavada estendida ao vento para secar em uma sacada após a outra. 

As colunas que sustentam esta parte do prédio são finas demais, ele disse, apontando para as rachaduras que já marcam a superfície do concreto. 

“Este será um dos primeiros a cair”, disse Cantekin, antes de caminhar para o próximo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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