UOL Notícias Internacional
 

26/02/2010

Fed investiga atuação dos bancos de Wall Street no agravamento da crise na Grécia

The New York Times
Nelson D. Schwartz e Sewell Chan*
  • Brendan McDermid/Reuters

    Operadores financeiros trabalham no estande do Goldman Sachs, na bolsa de Nova York. O banco está sendo investigado pelo Federal Reserve (Fed) por suposta atuação na crise financeira da Grécia

Os problemas da Grécia se aprofundaram em ambos os lados do Atlântico nesta quinta-feira (25), à medida que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) revelou que está investigando o Goldman Sachs e outros bancos que ajudaram a Grécia a mascarar suas dívidas, e os investidores ficam cada vez mais desconfiados em emprestar qualquer dinheiro adicional a Atenas, enquanto esta flerta com a possibilidade de um calote. 

O papel de Wall Street na crise da dívida gerou críticas e pedidos de investigação por parte de líderes europeus, mas o inquérito por parte do Fed representa a primeira vez que reguladores americanos examinarão os negócios altamente lucrativos, apesar de pouco conhecidos, de fornecer instrumentos financeiros sob medida para países sem dinheiro na Europa. 

Apesar dos problemas econômicos da Grécia estarem sacudindo os mercados mundiais há semanas, seus problemas cresceram como bolas de neve nos últimos dias, à medida que os trabalhadores realizam piquetes em protesto contra os cortes orçamentários e o governo luta para levantar dinheiro para cobrir o maior déficit orçamentário da Europa. No ano passado, o déficit da Grécia equivalia a 12,7% de seu produto interno bruto. 

Na quinta-feira, a agência de classificação de crédito Moody’s se juntou à Standard & Poor’s no alerta de que poderia rebaixar os títulos do governo grego, uma ação que aumentaria o ágio que Atenas teria que pagar para tomar empréstimo. Isso ocorre em um momento precário para a Grécia, que precisa levantar 25 bilhões de euros ao longo dos próximos dois meses para evitar um calote da dívida soberana, que as autoridades temem que poderia abalar as finanças de outras economias fracas da Europa. 

As autoridades gregas também cancelaram uma viagem planejada aos Estados Unidos e à Ásia, que visava atrair novos investidores para seus títulos, devido à falta de demanda, segundo um banqueiro de investimento que foi informado sobre a estratégia de levantamento de fundos do governo. 

A União Europeia disse que apenas ajudará a Grécia caso ela apresente um plano para reduzir seu déficit até 16 de março, aumentando ainda mais a pressão. 

“Mesmo se reduzissem o déficit a zero, com taxas de juros a 6,5% e uma taxa de crescimento zero, na melhor das hipóteses, a relação da dívida da Grécia permaneceria em um trajeto explosivo”, disse Miranda Xafa, uma diretora do conselho executivo do Fundo Monetário Internacional. 

“Mas não acho que eles conseguirão levantar fundos no mercado agora”, ela disse. 

A Grécia sofre há anos com grandes déficits, mas até agora os grandes bancos sempre pareciam estar lá para resgatá-la. Já em 2000 e 2001, o Goldman ajudou discretamente Atenas a tomar bilhões em empréstimos para mascarar suas finanças ruins, criando derivativos que basicamente transformaram empréstimos em transações cambiais, que a Grécia não precisou informar sob as regras europeias. 

O presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, disse ao Congresso americano na quinta-feira que o Fed está “analisando várias questões envolvendo o Goldman Sachs e outras empresas nos arranjos de derivativos com a Grécia”. 

Bernanke disse que a Comissão de Valores Mobiliários (SEC) também está preocupada com a forma como os derivativos –instrumentos financeiros que em grande parte não são regulados e não são negociados em bolsas públicas– contribuíram para os problemas da Grécia. “Obviamente, o uso desses instrumentos de uma forma que intencionalmente desestabiliza uma empresa ou país é contraproducente”, ele disse. 

A SEC disse em uma declaração que não pode “confirmar ou negar a existência de uma investigação”, mas acrescentou estar cooperando com reguladores americanos e internacionais no exame de “abusos e efeitos desastabilizadores potenciais relacionados ao uso de swaps de crédito e outras práticas e produtos financeiros opacos”. 

O Goldman se recusou a comentar, citando sua política de não discutir assuntos legais ou regulatórios. Mas em uma apresentação de 21 de fevereiro, o Goldman disse: “O governo grego declarou (e nós concordamos) que essas transações eram consistentes com os princípios do Eurostat que regiam seu uso e aplicação na época”. O Eurostat é o órgão estatístico da União Europeia. 

O Goldman não é o único banco que forneceu derivativos voltados a reduzir déficits. No final dos anos 90, o JPMorgan Chase ajudou a Itália a reduzir seu déficit com um swap cambial em uma taxa de câmbio favorável. Em troca, a Itália se comprometeu a realizar futuros pagamentos que não seriam registrados como obrigações. 

Uma porta-voz do JPMorgan disse que todos os negócios foram informados pela Itália ao Eurostat. 

O senador Christopher Dodd, democrata de Connecticut e presidente do Comitê Bancário do Senado, também voltou sua atenção aos swaps de crédito, que permitem aos bancos e fundos hedge apostar no calote de uma empresa ou país. 

Os críticos dizem que os swaps contribuíram para os problemas da Grécia e aumentaram as chances de um colapso financeiro. 

“Nós temos uma situação em que grandes instituições financeiras estão amplificando uma crise pública para ganhos privados”, disse Dodd. 

O inquérito do Fed teve início há três semanas, segundo um funcionário envolvido na investigação e que não estava autorizado a fazer comentários públicos. Os investigadores do Fed estão se concentrando em se o Goldman e outros bancos cumpriram as instruções do Fed, emitidas em 2007, sobre como realizar a gestão de risco de veículos financeiros complexos. A investigação ainda está nos estágios iniciais, ele acrescentou, à medida que as autoridades analisam a documentação detalhando como os derivativos foram criados, que procedimentos de cumprimento regulatório foram seguidos e que análises internas foram realizadas. O Fed também está averiguando se Wall Street fez arranjos financeiros adicionais com a Grécia que não foram revelados. 

  • Aris Messinis/ AFP

    Greve geral na Grécia gera confrontos entre manifestantes e policiais e paralisa aeroportos

A crescente preocupação com essas transações deixaram os investidores com mais dúvida do que nunca a respeito da capacidade do governo de levantar rapidamente as dezenas de bilhões de euros em novos financiamentos que precisa para evitar o calote. A Grécia enfrenta um teste crítico na próxima semana, quando tentará levantar cerca de 3 bilhões de euros por meio da emissão de títulos de 10 anos. 

Mas com as ameaças de rebaixamento de sua dívida soberana, os investidores dizem que a Grécia precisaria pagar uma taxa enorme de 7% de juros apenas para interessar as pessoas pela compra. Isso representa quase 1 ponto percentual a mais do que a taxa que os investidores receberam na venda anterior de títulos gregos, em janeiro, e 3 pontos percentuais a mais do que o custo de tomada de empréstimo pela Grécia antes da atual crise. 

Uma porta-voz do Ministério das Finanças da Grécia não respondeu ao pedido de comentário. 

O aumento do ceticismo dos investidores levou a Grécia a adotar uma nova estratégia de financiamento. Em vez de vender os títulos da dívida por meio de leilões públicos, onde o risco de uma oferta fracassada poderia enervar ainda mais os mercados, ela procurou diretamente os investidores institucionais, os sondando em reuniões individuais, a maioria em Londres. 

Banqueiros e analistas em Atenas dizem que há um debate dentro do Ministério das Finanças sobre se o governo deve procurar o mercado agora, ou aguardar até que um novo cardápio de mudanças –como mais impostos e maiores cortes salariais no setor público– seja anunciado, na esperança de que essas medidas resultem em custos financeiros menores. 

Mas uma visão mais pessimista já está tomando conta, segundo alguns banqueiros, à medida que os investidores temem que a Grécia simplesmente não conseguirá cobrir os 20 bilhões de euros de dívida que vencerão em abril e maio, e os 53 bilhões de euros para todo o ano. Parece improvável que essa quantidade poderá ser levantada junto aos investidores –muitos dos quais são fundos de pensão conservadores e seguradoras que já estão sofrendo perdas com os 8 bilhões de euros em títulos gregos emitidos em janeiro, que foram atingidos pela recente baixa do mercado. 

* Landon Thomas contribuiu com a reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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