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26/02/2010

Oferta de moradia pelo prefeito provoca briga em Jerusalém

The New York Times
Ethan Bronner
Em Jerusalém (Israel)

O prefeito de Jerusalém está oferecendo a 120 famílias palestinas, que moram em um amontoado de casas que devem ser demolidas, um acordo que ele acredita ser irrecusável: novos apartamentos sobre lojas e restaurantes, uma creche, hotéis-butique e um imenso parque. Haverá afluxo de turistas e renda. É, como o prefeito gosta de dizer, uma situação onde todos só têm a ganhar. 

Mas como Ziad Kawar, um advogado que representa as famílias, gosta de dizer, esta é Jerusalém, não Zurique. Aqui sempre alguém ganha e alguém perde. 

  • Rina Castelnuovo / The New York Times

    O prefeito de Jerusalém está oferecendo a mudança de local para 120 famílias palestinas que residem em um amontoado de casas da cidade, que devem ser demolidas. Contudo, as famílias resistem e o caso abriu uma nova crise entre palestinos e israelenses

“Toda a situação é impossível”, disse Kawar. “É um problema político e me pedem para tratá-lo como um problema legal. Eu estou driblando uma série de obstáculos perigosos.” 

As negociações oferecem uma janela para o conflito entre israelenses e palestinos –a desconfiança, os sinais perdidos, o choque de culturas, o desequilíbrio de poder. O prefeito, Nir Barkat, diz que está atento aos interesses dos palestinos. Eles dizem que ele está mentindo. 

Os moradores dizem que moram lá há décadas. Barkat diz que eles estão mentindo. Se os dois lados chegarem logo a um acordo, será um milagre. Se não, as tensões crescerão. 

Barkat, um direitista secular que fez fortuna na indústria de alta tecnologia, diz que a proposta para o bairro, conhecido como Al Bustan, perto da cidade velha murada, é o piloto para o que ele espera fazer por toda a Jerusalém Oriental. “Ela pode ser uma mini-Toscana”, ele disse em uma entrevista. 

Ele acrescentou que com ou sem a cooperação dos moradores, o plano será posto em prática. “Eles acham que meu discurso é um, mas minhas intenções são outras”, disse Barkat. “Eles não estão acostumados a uma abordagem profissional, apenas uma política.” 

Na verdade, nenhum discurso escapa da política. Todos os rótulos e nomes aqui são contestados. O prefeito não chama o bairro pelo seu nome árabe, Al Bustan, mas pelo hebreu, Gan Hamelech, ou Jardim do Rei, uma referência ao local onde alguns acreditam que o rei Davi escreveu os salmos. Ele fala de moradias “ilegais”. Os palestinos –assim como o restante do mundo– não reconhecem a soberania de Israel sobre Jerusalém Oriental. Ele quer que os palestinos entreguem suas casas. Eles dizem que são donos das terras. 

  • Rina Castelnuovo / The New York Times

    Residentes de Al Bustan, em Jerusalém Oriental, assistem da janela o protesto de palestinos que terão suas casas demolidas pelas autoridades da cidade

“Para nós, ocupadores não podem nos dizer o que é legal e ilegal”, protestou Jawad Siyam, um ativista comunitário. 

Barkat diz não possuir agenda oculta. Mas em ambos os lados do bairro de Bustan há disputas em torno de recentes assentamentos judeus, e os moradores temem uma operação de pinça. 

Al Bustan é um setor de Silwan, e no nordeste de Silwan há um prédio de sete andares ocupado por colonos que a Justiça ordenou que fosse evacuado. Barkat quer permitir que os colonos permaneçam no prédio e aumentar a altura dos prédios palestinos, para que ambos os lados se beneficiem. A oeste, também parte de Silwan, há o que foi recentemente batizado de Cidade de Davi, um parque arqueológico com tema judeu dirigido por um grupo de colonos. 

Barkat diz que seu plano não tem nada a ver com a Cidade de Davi ou com os colonos. Mas poucos palestinos acreditam nele. 

Ahmed Rweidi, um membro da Autoridade Palestina falando na rádio palestina, acusou Barkat nesta semana de um plano de “limpeza étnica”, porque deseja demolir as casas em Al Bustan. 

Um dos moradores do bairro, Abdulkarim Abu Sneineh, acusou Barkat e o governo israelense de querer isolar a vizinha Mesquita de Al Aksa, o terceiro templo mais sagrado do Islã, para construção de um templo judeu. As ameaças de demolição em Bustan fazem parte de um plano maior que está causando preocupação internacional –a expulsão dos palestinos de Jerusalém Oriental e sua substituição por judeus. 

Mas Barkat diz que a tendência é a oposta. Os judeus israelenses estão trocando Jerusalém por partes de Israel onde a renda é maior. Por sua vez, ele diz, os palestinos estão migrando da Cisjordânia para Jerusalém por motivos econômicos. O plano para Bustan, ele diz, envolve a melhoria da cidade, não uma alteração demográfica. 

“O prefeito acha que chegará com ideias americanas e que as pessoas o abraçarão”, disse Efrat Cohen-Bar, que trabalha para o Bimkom, um grupo israelense concentrado em direitos humanos e planejamento urbano. “Ele escolheu um local para seu projeto piloto onde está ocorrendo uma guerra.” 

Desde que assumiu o cargo há um ano, o prefeito Barkat prometeu se opor a qualquer divisão de Jerusalém em qualquer acordo com os palestinos. Mas ele disse que seria o prefeito de todos. Isso inclui o um quarto de milhão de palestinos da cidade, que vivem em ruas esburacadas, cheias de lixo, com carência de escolas e o medo de que suas casas serão tomadas. Há 20 mil moradias ilegais palestinas em Jerusalém Oriental, segundo a Bimkom. 

No ano passado, o prefeito fez com que arquitetos e desenvolvedores urbanos trabalhassem em uma nova abordagem para Al Bustan, a um custo esperado de entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões, que seriam levantados em parte no exterior. Ele escolheu Al Bustan, ele disse, porque quase toda casa lá data dos últimos 20 anos e foi construída sem licença, e por possuir alto potencial turístico. 

A área era historicamente um cinturão verde desabitado e com enchentes anuais de inverno, que foram resolvidas no início dos anos 90. À medida que outras partes de Silwan ficaram lotadas, os moradores construíram Al Bustan. A prefeitura fez vista grossa. 

Barkat deseja devolver pelo menos parte do bairro ao seu estado original de parque. Ele deseja um lugar onde os visitantes possam contemplar os reis da Judeia, com água fluindo por ele até o Vale do Kidron próximo. Haveria pequenos hotéis e restaurantes simpáticos. Cerca de 8 milhões de visitantes passam pelos locais sagrados todo ano, ele disse. Ele calcula que pelo menos meio milhão deles poderia ser atraído para Gan Hamelech. 

  • Rina Castelnuovo / The New York Times

    Guarda armado israelense faz a ronda em um parque arqueológico de Jerusalém, bem ao lado da área onde o prefeito deseja desapropriar e demolir as casas. Ele observa um palestino realizando as orações do meio-dia, conforme tradição religiosa do grupo

“Em alta tecnologia, nós dizemos que o primeiro milhão é impossível”, disse Barkat. “Passar de um milhão para 10 milhões é extremamente difícil. Mas passar de 10 milhões para 100 milhões é inevitável. Para Jerusalém Oriental, Gan Hamelech é o primeiro milhão.” 

Fakhri Abu Diab, um contador, disse que já recebeu três ordens municipais separadas de demolição contra sua casa. Ele disse que gostaria de ver Al Bustan embelezada, com um aumento do verde e construção de hotéis, mas não às custas de trocar sua casa por um apartamento. No final, ele e outros moradores poderão fazer um acordo com a prefeitura. Mas, no momento, as tensões estão altas. 

“Eu quero que meus netos possam jogar futebol com os netos do prefeito”, ele disse. “Mas quando ele vai para casa para dormir à noite, ele descansa calmamente, sabendo que ninguém vai tomar sua casa. Eu não tenho esse conforto. Eu não sou contra a história, mas o que é mais importante, a história ou minha casa?”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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