UOL Notícias Internacional
 

27/02/2010

Para cortejar os negros americanos, inimigos do aborto apresentam argumento racial

The New York Times
Shaila Dewan
Em Atlanta (EUA)

Por anos, a equipe de maioria branca da Georgia Right to Life (Geórgia Direito à Vida, em inglês), o maior grupo antiaborto do Estado, tentou lidar com o número desproporcionalmente alto de mulheres negras que se submetem a abortos. Mas, como disseram os membros do grupo, eles tinham dificuldade de fazer incursões junto ao público negro.

Assim, em 2009, o grupo pegou o dinheiro que normalmente usaria para divulgar sua linha direta para gravidez e contratou uma mulher negra, Catherine Davis, para ser sua coordenadora para alcance das minorias.

  • Jessica McGowan/The New York Times

    Catherine Davis, da Georgia Right to Life, conversou com a platéia em Atlanta; grupos anti-aborto têm utilizado cartazes, filmes e outros esforços para alcançar o público negro

Davis percorreu as igrejas e faculdades da comunidade negra por todo o Estado da Geórgia, transmitindo a mensagem de que o aborto é a principal ferramenta de uma conspiração de décadas para matar negros.

A ideia teve repercussão, disse Nancy Smith, a diretora executiva. “Nós ficamos chocados quando gastamos menos dinheiro e recebemos muito mais telefonemas” pela linha direta, disse Smith.

Neste mês, o grupo expandiu seu alcance, virando notícia nacional com os 80 outdoors por toda a Atlanta que proclamam “Crianças negras são uma espécie ameaçada” e um site na Internet, www.toomanyaborted.com.

Por todo o país, o movimento antiaborto, há muito visto como quase exclusivamente branco e republicano, está voltando sua atenção para os afro-americanos e encorajando os negros oponentes do aborto de todo o país a se tornarem mais ativos.

Um novo documentário, escrito e dirigido por Mark Crutcher, um branco oponente do aborto de Denton, Texas, traça meticulosamente o que diz serem as ligações entre a escravidão, eugenia ao estilo nazista, controle da natalidade e aborto, e está sendo exibido regularmente por organizações negras.

Os negros adversários do aborto, que às vezes se referem aos abortos como “linchamentos no útero”, montaram um ataque sustentado contra a Planned Parenthood Federation of America, incitada por uma operação de jovens conservadores brancos, que gravaram funcionários da Planned Parenthood recebendo de bom grado doações voltadas especificamente para o aborto de crianças negras.

“O que está fazendo com que ganhe força é os negros estarem finalmente percebendo o que está acontecendo”, disse Johnny M. Hunter, um pastor negro e antigo oponente do aborto em Fayetteville, Carolina do Norte. “O jogo muda quando os negros se envolvem. E no movimento pró-vida, muitos dos grupos que foram ignorados por anos agora estão sendo estimulados.”

Os fatores por trás da concentração do foco nas mulheres negras –uma taxa de aborto muito maior do que a de outras raças e os laços entre o esforço para legalizar e popularizar o controle da natalidade e a eugenia– são, no fundo, notícia velha. Mas eles ganharam uma nova vida exagerada pela Internet, uma nova embalagem atraente, altos valores de produção e dinheiro, como os mais de US$ 20 mil (cerca de R$ 36 mil) que a Georgia Right to Life investiu nos outdoors.

Dados dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos mostram que as mulheres negras recebem quase 40% dos abortos do país, apesar dos negros corresponderem a apenas 13% da população. Quase 40% das gravidezes de mulheres negras terminam em aborto induzido, uma taxa muito maior do que entre as mulheres brancas e latinas.

Day Gardner, atual presidente da National Black Pro-Life Union, em Washington, disse que esses números a chocaram no início.

  • Jessica McGowan/The New York Times

    Lorreta Ross, de uma organização pró-aborto, diz que a ideia de que o aborto visa eliminar os negros pode estar encontrando terreno fértil

“Eu imaginava que os brancos abortassem mais do que qualquer outro, e que os negros não fariam isso, porque culturalmente somos pessoas mais religiosas, nós temos famílias grandes”, disse Gardner.

Muitos líderes antiaborto negros, incluindo Davis e Alveda King, uma sobrinha do reverendo Martin Luther King Jr. e diretora do programa afro-americano Padres pela Vida, contam com frequência suas próprias histórias de aborto (cada uma das mulheres se submeteu a dois).

Os adversários do aborto dizem que o número é tão alto porque as clínicas de aborto ficam deliberadamente localizadas em bairros negros, para atrair as mulheres negras. As evidências, eles dizem, estão por toda parte: a resposta da Planned Parenthood à propaganda antiaborto, exibida durante o Super Bowl (a final do futebol americano), contava com dois atletas negros, assim como várias clínicas para mulheres ofereceram serviços gratuitos –incluindo abortos– para as pessoas que foram evacuadas após o furacão Katrina.

“Quanto mais eu cavo, mais vasta é a rede que encontro”, disse Davis. “E percebo que as mulheres afro-americanas simplesmente não sabem a verdade, não entendem a verdade sobre a indústria do aborto.”

Mas aqueles que apóiam os direitos de aborto contestam a teoria de conspiração, dizendo que ela retrata as mulheres negras como tolas e vítimas. O motivo para as mulheres negras se submeterem a tantos abortos é simples, eles dizem: gravidezes indesejadas demais.

“É uma tempestade perfeita”, disse Loretta Ross, a diretora executiva da SisterSong Women of Color Reproductive Health Collective, em Atlanta, listando uma falta de acesso a controle da natalidade, falta de educação e até mesmo um alto índice de violência sexual. “Há a suposição de que toda vez que uma garota fica grávida, isso se deve a uma atividade voluntária, mas não é o caso”, disse Ross.

Mas, ela disse, a ideia de que o aborto visa eliminar os negros pode estar encontrando terreno fértil entre uma população que já experimentou tanto preconceito e violência sancionados.

Os negros oponentes do aborto gostam de dizer que os negros são antiaborto e anticontrole da natalidade desde cedo, apontando para a convicção de Marcus Garvey de que os negros poderiam superar a supremacia branca por meio da reprodução, e para os militantes negros que protestavam contra as clínicas de planejamento familiar.

Mas esta é apenas parte do quadro, dizem acadêmicos. As mulheres negras eram ávidas por controle da natalidade, antes mesmo dele ser popularizado por Margaret Sanger, a fundadora da SisterSong Women of Color Reproductive Health Collective, e os médicos negros que realizavam abortos ilegais eram saudados como heróis da comunidade.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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