UOL Notícias Internacional
 

28/02/2010

Milhares de haitianos redefinem suas vidas depois de amputações

The New York Times
Deborah Sontag
Em Porto Príncipe (Haiti)

“Não corte a minha perna!” Fabienne Jean gritava repetidamente enquanto a carregavam através dos portões do Hospital Geral depois do terremoto. “Sou bailarina, minha perna é meu meio de vida. Por favor, não tirem minha perna.”

Depois de quatro dias no hospital desordenado, deitada em meio ao que ela descreveu como “mortos e vivos todos misturados”, Jean foi levada para uma tenda de operação onde sua perna estilhaçada e infectada foi amputada abaixo do joelho.

  • Lynsey Addario/The New York Times

    A bailarina Fabienne Jean que teve a perna direita amputada conversa com a irmã

“É uma história triste”, diz Jean, 31, ex-bailarina graciosa do Teatro Nacional do Haiti, disse recentemente, massageando a extremidade enfaixada. “Mas o que posso fazer? Não posso me matar por causa disso, então tenho que aprender a viver assim.”

Mais de um mês depois do terremoto, milhares de pessoas amputadas enfrentam a realidade de viver com deficiências num país destruído cujo terreno e cultura nunca foram hospitaleiros para os deficientes.

Alguns continuam nas tendas do hospital cheio de moscas; outros se mudaram para centros pós-cirúrgicos temporários; e os que se recuperaram mais rápido, como Jean, foram liberados nas ruas, onde vivem atualmente. Todos precisam de cuidados contínuos num país sem hospital de reabilitação, poucos terapeutas, nenhuma fábrica de próteses desde o terremoto e um fornecimento esquelético de muletas, bengalas e cadeiras de rodas que gradualmente está sendo reforçado por doações.

“A situação para as pessoas recém-amputadas é muito delicada”, diz Michel Pean, secretário de Estado do Haiti para a integração dos deficientes. “Eles precisam urgentemente não só de cuidados médicos, mas de comida e um lugar para morar. Além disso, não podemos esquecer dos que já eram deficientes antes do desastre e que, por causa de sua deficiência, têm dificuldades para ter acesso à ajuda humanitária.”

ONGs reclamam da falta próteses no Haiti

Estimativas imprecisas do número de novos amputados são baseadas nas informações dos hospitais superlotados que não mantiveram um registro acurado das cirurgias. O governo do Haiti acredita que 6 a 8 mil pessoas perderam membros ou dedos. A organização International Handicap estima que 2 a 4 mil haitianos sofreram amputações, e muitos outros milhares sofreram fraturas complicadas, algumas das quais podem se transformar em amputações se não forem tratadas de forma adequada.

Pean, que é cego e trabalha num cargo relativamente novo como defensor das pessoas com deficiências para o governo, disse que os deficientes do Haiti – cerca de 8% da população antes do terremoto – são tratados há muito tempo como cidadãos de segunda classe. Mas recentemente o governo tomou medidas legais para reconhecer os direitos deles e abriu escritórios para atendê-los no interior, disse ele.

Segundo Pean, o ideal seria que a reconstrução pós-terremoto ofereça uma oportunidade para tornar Porto Príncipe, a capital do Haiti, mais acessível às pessoas com deficiências e também incentive a criação de um instituto nacional para reabilitação.

Por enquanto, entretanto, o mais urgente é o presente incerto: assegurar que milhares de pessoas que passaram por amputações para salvar suas vidas tenham futuro.

A organização Handicap International, sediada na França, vem coordenando o esforço de reabilitação pós-desastre com a CBM, um grupo cristão alemão para os deficientes, e com o governo do Haiti. Seus voluntários – cerca de cinco dúzias de terapeutas, enfermeiros, técnicos e assistentes sociais – vêm fornecendo cuidados pós-cirúrgicos e fisioterapia em 12 hospitais daqui, e a organização também está montando uma fábrica de próteses.

“Sabemos que as pessoas com ferimentos e deficiências estão passando por um momento difícil agora, mas elas precisam saber que não estão sozinhas”, disse Aleema Shivji, uma especialista em primeiros socorros que trabalha para o grupo. “Há serviços disponíveis, e eles estão aumentando a cada dia.”

Recentemente, Caryn Brady, uma fisioterapeuta do Canadá, fez rondas nas sufocantes tendas de pós-operatório fora do Hospital Geral. Os pacientes estão sendo acompanhados por um grupo tão variado de profissionais médicos internacionais, e seus prontuários são tão mal cuidados, que mensagens rabiscadas nas bandagens sobre as amputações comunicam o essencial: “Ver novamente em 23 de fevereiro. Obrigado. (Carinha sorridente.)”

Ao lado da cama, Brady ajudava Emmanuel Souverain, um estudante universitário cujo braço direito foi amputado acima do ombro, a realizar uma série de exercícios para evitar contraturas e manter seus músculos saudáveis para uma prótese – embora ainda não haja planos para fabricação de próteses para a parte de cima do corpo.

  • Lynsey Addario/The New York Times

    O estudante Emmanuel Souverain descansa no hospital depois de ter o braço amputado

A próxima era Mana Alexandre, 22, vestida com uma camisola branca. Brady sorriu quando ela exibiu um sorriso de orgulho no rosto enquanto exercitava com tenacidade suas duas pernas amputadas. Depois de mais exercícios, Alexandre passou, com a ajuda do terapeuta, para uma cadeira de rodas, mas ficou preocupada em saber como voltaria para a cama.

“Bem”, disse sua mãe Evenie Belizaire, baixinha e com covinhas no rosto: “Eu levantei você a vida inteira, com a ajuda de Deus.”

As pernas amputadas de Alexandre ficavam penduradas sobre o assento da cadeira de rodas. “Em casa, há cadeiras com uma extensão acolchoada que pode ser puxada para oferecer apoio”, disse Brady. “Mas talvez elas possam usar uma tábua?”

A necessidade de se adaptar é um desafio para todos os recém-amputados, mas aqui, pacientes que receberam alta recentemente como a bailarina Jean, não tem nem mesmo uma casa onde possam se recuperar ou superfícies pavimentadas onde apoiar suas muletas ou andadores.

Numa tarde recente, Jean sentou-se numa cadeira de plástico em frente do novo lar de sua família, uma pequena barraca verde num morro rochoso. Sua cunhada estava atrás dela, afagando as longas e finas tranças de Jean enquanto ela falava.

“Dançar era meu hobby, meu trabalho, minha paixão, era tudo para mim”, disse Jean. Ela abriu sua bolsa e pegou algumas fotos em que aparecia em trajes folclóricos: uma delas, uma pose parecida com Judith Jamison, a outra, uma apresentação de Carnaval. “Esta era eu”, disse ela. “As fotos do antes.”

Quando sua casa balançou violentamente no dia do terremoto, Jean estava se preparando para entrar no banho. Ela correu para fora de sutiã, com uma toalha amarrada na cintura, disse.

De pé ao lado de uma parede, ela respirou aliviada por ter escapado antes que sua casa caísse parcialmente. E então a parede caiu sobre ela. Esforçando-se para sair dos escombros, ela viu que sua perna estava rasgada na metade, uniu as duas partes com a toalha e voltou para a casa para procurar algumas roupas.

Jean não lembra quem a levou para o hospital, em meio ao caos absoluto. Dois dias depois, ela falou com um médico que prometeu tentar salvar sua perna, disse, mas ela nunca mais o viu. Sua lega esmagada começou a cheirar mal. Quatro dias depois do terremoto, ela perdeu a perna, e no começo da semana seguinte, estava deitada numa tenda do hospital, chorando numa toalha. Suas emoções vêm oscilando desde então.

Depois de dez dias, o Hospital Geral deu alta para Jean e a enviou para um complexo de missionários próximo aos túmulos coletivos em Titanyen. Quase um mês depois do terremoto, ela foi enviada, com um andador, de volta para sua família.

“Sinto como se eu também tivesse perdido a minha perna”, disse seu pai, Roigner Trazile, 58, esfregando os olhos. “Toda a esperança que eu tinha na vida se reduziu ao tamanho de uma ervilha. Antes, quando ela tinha duas pernas, eu achava que ela iria se tornar alguém, e que eu também me tornaria alguém.”

Alguns médicos estrangeiros - “Graças a Deus pelos estrangeiros”, disse Jean – prometeram encontrar para ela uma prótese especial que permitiria que ela não só voltasse a andar, mas também a dançar. “Tudo bem”, disse ela sorrindo. “Estou esperando.”

Tradução: Eloise De Vylder

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