UOL Notícias Internacional
 

01/03/2010

Novas ideias e velhas armas

The New York Times
Editorial
  • Abedin Taherkenareh/EFE

    O presidente iraniano Magmoud Ahmadinejad discursa durante cerimônia de aniversário da Revolução Islâmica, em Teerã, capital do Irã

A cada quatro anos a Casa Branca divulga uma “reavaliação da postura nuclear”. Isso pode soar como algo datado. Não é. Num mundo em que os Estados Unidos e a Rússia ainda têm mais de 20 mil armas nucleares – e o Irã, a Coreia do Norte e outros países têm um apetite nuclear aparentemente insaciável – o que os Estados Unidos dizem sobre seu arsenal tem enorme importância.

A reavaliação do presidente Barack Obama foi submetida ao Congresso em dezembro. Mas sofreu atraso em parte por causa de lutas internas do governo. O presidente precisa acertar nesse assunto. É a sua chance de finalmente descartar a doutrina da guerra fria e reforçar a credibilidade dos EUA ao pressionar para impedir o avanço nuclear no Irã, Coreia do Norte e outros países proliferadores.

Obama já se comprometeu retoricamente com a visão de um mundo sem armas nucleares. Mas tememos que alguns de seus conselheiros, especialmente no Pentágono, resistam às suas arrojadas ambições. Ele precisa se aferrar às ideias que articulou em sua campanha e em discursos realizados em Praga e na ONU no ano passado.

Eis algumas das questões importantes que a reavaliação de postura precisa abordar:
A proposta: A doutrina atual atribui às armas nucleares um “papel fundamental” na defesa dos Estados Unidos e seus aliados. E sugere que elas poderiam ser usadas contra inimigos que possuam armas químicas, biológicas e até mesmo convencionais – e não apenas nucleares. Os assessores de Obama propuseram mudar isso, dizendo que o “principal” propósito das armas nucleares é deter um ataque nuclear contra os Estados Unidos e seus aliados. Isso ainda dá margem para questionar se Washington valoriza – e pode usar – forças nucleares contra alvos não-nucleares.

Dada a grande superioridade militar convencional dos EUA, o uso mais amplo [do poder nuclear] não é realista nem tampouco necessário. Qualquer ambiguidade reduz a credibilidade de Washington ao argumentar que outros países não têm motivos estratégicos para desenvolver suas próprias armas nucleares. O único motivo para a existência das forças nucleares norte-americanas deveria ser impedir um ataque nuclear contra o país ou seus aliados.

Quanto: O presidente George W. Bush desdenhou o controle de armas, que considerava um pensamento ultrapassado, e Washington e Moscou não assinaram um tratado de redução de armas desde 2002. Obama lançou as negociações de um novo acordo que reduziria o número de ogivas prontas para o uso que ambos os lados têm de 2.200 para 1.500 a 1.675. A negociação está se arrastando, mas ainda há esperanças de um acordo em breve. Ambos os lados devem ir mais fundo.

  • BRENDAN HOFFMAN/AFP

    O presidente norte-americano, Barack Obama, fala durante reunião do Comitê Nacional do Partido Democrata, em Washington, EUA

A revisão deveria deixar claro que os Estados Unidos estão prontos para dar o próximo passo, reduzindo seu arsenal para mil ogivas prontas para uso – especialistas militares dizem que metade desse número já é o suficiente para eliminar o arsenal da Rússia, que não é mais uma nação inimiga. Estima-se que a China, única grande potência nuclear que acrescentaria ao seu arsenal, tem entre 100 e 200 ogivas. O tratado que está sendo negociado não fala nada sobre as quase 15 mil ogivas que os Estados Unidos e a Rússia juntos mantém como reserva – as chamadas ogivas “hedge”. E também não diz nada sobre as 500 armas nucleares de curto alcance dos EUA, consideradas em segurança, ou sobre as 3 mil ou mais da Rússia, temivelmente vulneráveis ao roubo.

A reavaliação deveria deixar claro que não há necessidade de uma reserva tão grande, e que as armas táticas não têm muito valor estratégico – como um prelúdio para reduzir a ambas. Com certeza, nenhum general que conhecemos imaginaria explodir uma ogiva no campo de batalha. O maior perigo nuclear atual é que terroristas roubem ou construam uma arma. A melhor maneira de responder a isso é impedir a proliferação, reduzir as reservas e outros materiais e aumentar a segurança.

Menos armas: Os Estados Unidos construíram sua última ogiva em 1989. Então, quando os assessores do presidente George W. Bush pediram a construção de novas armas, com novos projetos e novas capacidades, o país ficou vulnerável a acusações de hipocrisia e injustiça ao pedir que a Coreia do Norte e o Irã interrompessem seus programas nucleares.

Obama disse que o país não precisa de novas armas. Mas tememos que a revisão abra as portas exatamente para isso ao orientar os laboratórios a estudar as opções – incluindo um novo projeto de arma – para manter o arsenal. O governo tem um sistema forte e extremamente caro para assegurar que as reservas estejam seguras e sejam confiáveis. Obama já aumentou bastante o orçamento dos laboratórios. A revisão deveria deixar claro que não há necessidade de uma nova arma.

Níveis de alerta: Os Estados Unidos e a Rússia ainda têm cerca de mil armas cada um prontas para serem usadas a qualquer momento. Obama descreveu isso, corretamente, como uma perigosa relíquia da guerra fria. A revisão deveria se comprometer a retirar o máximo possível dessas armas do estado de alerta – e encorajar a Rússia a fazer o mesmo.

Em abril, Obama irá moderar um encontro extremamente necessário sobre a necessidade de proteger melhor o material nuclear contra os terroristas. Em maio, Washington irá encorajar uma conferência da ONU para fortalecer a Tratado de Não-Proliferação Nuclear, o acordo pioneiro e desgastado para restringir a disseminação de armas nucleares.

Obama também terá de persuadir o Senado para ratificar o tratado Start, e esperamos que ele não demore em pressionar o Senado para aprovar o tratado de proibição de testes. Ele também está trabalhando com seus aliados para retomar o diálogo nuclear com a Coreia do Norte e para impor sanções mais duras sobre o Irã. Acertar nessa reavaliação de postura é essencial para fazer com que tudo isso vá para frente.

Tradução: Eloise De Vylder

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