UOL Notícias Internacional
 

04/03/2010

Terremoto expõe as falhas no cenário político do Chile

The New York Times
Ginger Thompson
Em Santiago (Chile)
  • Reuters

    Foto mostra a atual presidente do Chile, Michelle Bachelet, e Sebastián Piñera, presidente eleito que toma posse na próxima semana

Com uma enxurrada de críticas à resposta de seu governo ao terremoto e pouco mais de uma semana para dispersá-las antes de deixar o cargo, a presidente Michelle Bachelet intensificou na quarta-feira seus esforços para fornecer ajuda a centenas de milhares de pessoas afetadas pelo desastre e começou a lutar publicamente para preservar seu legado. 

Pela manhã, Bachelet parecia um retrato de força, assegurando aos líderes da mais poderosa associação empresarial do Chile de que o país conta com reservas para reconstruir sua infraestrutura danificada, e posteriormente animando os voluntários que começaram a construir casas temporárias para aqueles que foram deslocados. 

Então, durante uma longa entrevista para a emissora de rádio mais popular do Chile, a presidente normalmente equilibrada defendeu vigorosamente a forma como seu governo lidou com a crise e cedeu à emoção, dizendo: “Todo mundo alega ser um general depois da guerra”. 

“Chega de atribuírem culpa”, ela disse. 

Observadores disseram que a conversa passional de uma hora foi mais um sinal de que, apenas dias após um dos terremotos mais poderosos na história registrada, o cenário político do Chile também mudou, expondo falhas que ameaçam lançar um país, que desfrutou de décadas de estabilidade, no tipo de disputa polarizadora vivida por alguns de seus vizinhos. 

“Este país tem pouca tolerância com polarização”, disse Christopher Sabatini, um especialista em América Latina do Conselho das Américas. “Esta crise e a cacofonia de queixas testarão isso.” 

Nos 20 anos desde que o país fez a transição de ditadura para democracia, a política tem em grande parte seguido o caminho do centro, em vez dos extremos. Desde a queda do general Augusto Pinochet, a coalizão esquerdista que governou o país permaneceu em grande parte de fora das disputas ideológicas acaloradas travadas por toda a região, aderindo a políticas pragmáticas que empregam ideias de ambos os lados do espectro político. 

Essas políticas ajudaram a dar ao Chile uma das economias mais fortes da América Latina e a condução bem-sucedida do governo por Bachelet durante a crise financeira global ajudou a manter seu índice de popularidade acima de 70%, mesmo quando os eleitores rejeitaram o candidato do partido dela para sucedê-la. 

O presidente-eleito, Sebastián Piñera, o terceiro homem mais rico do Chile, representa uma coalizão de direita. Mas ele também se proclama um centrista e prometeu que desenvolverá as políticas praticadas por sua antecessora, não substituí-las. 

Mas o terremoto complicou a transição do poder, marcada para 11 de março, com Bachelet no meio de uma luta não apenas pelo seu legado, mas também pelas perspectivas futuras da coalizão de esquerda que ela representa. De fato, a coalizão já parecia à deriva antes da eleição recentemente perdida. 

“A crise decididamente deslocou o país do centro para a direita”, disse Raúl Sohr Biss, um comentarista político da “Chilevision”, que é de propriedade de Piñera. “Quando você vê um país que já viveu sob ditadura militar aplaudindo a visão de tropas na rua, você sabe que ocorreu uma mudança política dramática.” 

Sohr apontou que foi o terremoto de 1972 na Nicarágua que afrouxou o controle do poder da dinastia Somoza. E o terremoto de 1985 no México é amplamente considerado como o início do fim do governo do Partido Revolucionário Institucional. 

É cedo demais para prever uma mudança de maré no Chile, disse Sohr. Mas ele disse que a entrevista de Bachelet ao rádio, na quarta-feira, sugere que a possibilidade de que seu legado seja arranhado tem pesado muito em sua mente. 

As críticas públicas têm crescido em torno das alegações de que o sistema de alerta de emergência das forças armadas fracassou em alertar adequadamente o país de que poderia ocorrer um tsunami, além do governo ter sido lento para mobilizar seus recursos ou em pedir ajuda internacional após o desastre. 

Na entrevista, Bachelet disse que as acusações contra seu governo se baseiam em rumores infundados e mentiras. Ela aceitou que ocorreram alguns erros na resposta de seu governo ao terremoto, mas ela explicou que as autoridades ficaram paralisadas devido ao caos e à incapacidade de comunicação com as áreas afetadas nas horas críticas após o terremoto. 

“Não houve falta de vontade”, ela disse. “Ninguém fracassou em cumprir sua responsabilidade. Algumas coisas podiam ter sido feitas de modo diferente. Há coisas que precisam ser mudadas para impedir que isso aconteça de novo. Mas agora não é hora de atribuir culpa.” 

“Eu entendo a dor e medo das pessoas”, ela disse posteriormente, “mas essas acusações apenas aumentam o ar de instabilidade”. 

Apesar da presença de 14 mil soldados e um toque de recolher de 18 horas terem ajudado a por um fim à falta de lei que atormentava a cidade de Concepción, o pânico tomou conta de novo na quarta-feira, após um forte tremor secundário ter levado um grande número de pessoas à procura de um lugar elevado, por temor de outro tsunami. 

As autoridades apresentaram relatórios conflitantes, emitindo inicialmente um alerta de tsunami e depois o retirando. Com base em suas experiências após o terremoto do último fim de semana, as pessoas não sabiam em que acreditar. 

O maior jornal do país, “El Mercurio”, noticiou na quarta-feira que as autoridades militares disseram inicialmente que o terremoto no fim de semana tinha ocorrido tão no interior do país que não havia risco de tsunami. Mas em algumas cidades ao longo da costa, a elevação do mar pareceu causar mais danos do que o próprio terremoto. 

Posteriormente na quarta-feira, um site de notícias diferente citou oficiais militares negando a história do “El Mercurio”, dizendo que eles alertaram a presidente três vezes.

“Não é oportuno e nem conveniente procurar culpa ou responsabilidade neste assunto”, disse um comunicado emitido pela Marinha. “Mas a evidência de que dispomos mostra que o alerta de tsunami foi claramente emitido.” 

Bachelet não respondeu às recriminações em sua entrevista. Em vez disso, ela pediu às pessoas que mantivessem a fé. 

“Nós não seremos derrotados pela adversidade”, ela disse. “O Chile se recuperará disto.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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