UOL Notícias Internacional
 

05/03/2010

Ajuda do FMI à Grécia é uma perspectiva arriscada

The New York Times
Sewell Chan e Liz Alderman

A Grécia evitou o desastre nesta semana, ao convencer os investidores e políticos de que está finalmente nos trilhos para consertar suas finanças. 

Mas antes mesmo da poeira assentar, o governo está preparando o terreno para um conflito potencial com a Alemanha, França e outros governos europeus, o que pode levantar dúvidas sobre a sustentabilidade do projeto do euro. 

  • LOUISA GOULIAMAKI/AFP

    Taxistas marcham em Atenas (Grécia) durante greve em protesto contra o plano do governo para reduzir a dívida pública do país. O projeto causa polêmica internamente, mas é apontado por analistas financeiros como a única salvação para as finanças públicas gregas

Nos últimos dois dias, o ministro das Finanças da Grécia ameaçou recorrer à ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI) caso a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e outros políticos europeus resistam em ajudar a Grécia a lidar com sua nova frugalidade. Um pedido de ajuda ao fundo poderia criar uma nova rodada de turbulência financeira e política, ao enviar a mensagem de que a Europa é incapaz de resolver seus próprios problemas, disseram analistas. 

“Causaria estragos ao avanço da zona do euro, porque semearia dúvidas sobre se realmente se trata de uma união monetária, ou apenas um grupo de países que compartilham uma moeda”, disse Simon Tilford, economista-chefe do Centro para Reforma Europeia, em Londres. 

Os autores de políticas e líderes de muitos países que usam o euro veem os problemas da Grécia como um problema dentro da família. Eles querem uma solução política local que mostre que a Europa é capaz de consertar crises econômicas internas sem ajuda externa. 

Recorrer ao FMI, que costuma ajudar países emergentes em dificuldades, é visto como um estigma que deve ser evitado, uma preocupação ressaltada pelo presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, na quarta-feira. “Eu não acho que seria apropriada a introdução do FMI como fornecedor de ajuda”, ele disse. 

Nenhum membro da zona do euro teve que pedir empréstimo ao FMI desde que o uso da moeda comum teve início em 1999, e nenhum grande país industrializado da Europa o fez desde o Reino Unido em 1976. 

Mas do ponto de vista da Grécia, o FMI forçaria o governo a engolir praticamente o mesmo remédio amargo que a Alemanha, França e outros exigem –mas pelo menos Atenas receberia a ajuda financeira garantida do FMI em troca. 

Além disso, não está claro que a Alemanha e outros governos europeus que desejam conter a crise dispõem dos recursos ou perícia pra monitorar a Grécia e outros membros gastadores do euro pelos muitos anos necessários para solução dos problemas. E se a Grécia tiver que refinanciar ainda mais sua dívida nos próximos meses, a crise se intensificaria. 

“Será um olho roxo para a zona do euro se um de seus membros tiver que recorrer à ajuda do FMI”, disse Randall W. Stone, um cientista político da Universidade de Rochester. “Seria embaraçoso. Por outro lado, é potencialmente mais perigoso criar um precedente para os países ricos europeus resgatarem os pobres quando estes se virem em dificuldades financeiras.” 

O jogo temerário da Grécia pode muito bem trazer o FMI às suas portas. “Eu acho que o FMI será chamado antes do final do dia”, disse Kenneth S. Rogoff, um economista de Harvard e ex-economista chefe do FMI, em uma entrevista por telefone, na Alemanha. “O plano de austeridade da Grécia é como uma resolução de Ano Novo. Não será fácil de cumprir.” 

Para os líderes gregos enfrentando grande inquietação civil, incluindo a ocupação do Ministério das Finanças do país pelos sindicalistas na quinta-feira, a ameaça de recorrer ao FMI pode ter uma finalidade útil. 

“As pessoas gostam de culpar o FMI pelas políticas que ele impõe, mas em muitos casos essas são as políticas que os governos sabem que precisam realizar”, disse James Raymond Vreeland, um cientista político da Universidade de Georgetown. “Eles usam a influência do FMI para que elas se tornem um pouco mais politicamente palatáveis.” 

Mas mesmo deixando de lado as implicações simbólicas, alguns especialistas acreditam que uma ajuda do FMI sacudiria profundamente os mercados. 

Apesar da venda tranquilizadora dos títulos na quinta-feira, os investidores poderiam rapidamente elevar os custos de tomada de empréstimo para a Grécia caso passem a acreditar que uma intervenção do FMI é provável, disse Michael L. Mussa, um ex-diretor de pesquisa do FMI que atualmente é um membro sênior do Instituto Peterson para Economia Internacional. 

“O mercado está esperando que os outros países europeus façam algo”, disse Mussa. “Se essa expectativa for desapontada, eu não vejo como eles vão resolver a crise.” 

O maior obstáculo é a Alemanha, que historicamente tende a impor retidão fiscal e econômica aos seus vizinhos. Muitos contribuintes alemães rejeitam veementemente pagar pela gastança de seus vizinhos perdulários na Grécia e em outros países europeus do sul, que deixaram seus déficits subirem às alturas, em vez de domá-los durante os bons tempos. 

Ao mesmo tempo, os bancos alemães também subscrevem grande parte das dívidas do continente e exercem influência considerável na política doméstica, segundo Mark S. Copelovitch, um cientista político da Universidade de Wisconsin, em Madison. A Alemanha “não quer que seu setor bancário afunde devido a um calote da Grécia”, ele disse. 

Mas noticiários noturnos de greve geral na Grécia, assim como acusações por parte de alguns em Atenas de que a Alemanha deve à Grécia por indenizações inadequadas pagas após a Segunda Guerra Mundial, fazem alguns alemães pensarem que uma intervenção do FMI pode ser preferível. 

“Na Alemanha, o público pode preferir uma intervenção do FMI caso ela reduza a dependência pela Grécia dos fundos alemães”, disse Justin Vaisse, um membro sênior da Instituição Brookings. 

As disputas de poder europeias também estão em jogo. Simon Johnson, um economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e um ex-economista chefe do FMI, disse que a Alemanha há muito busca ter um alemão à frente do Banco Central Europeu, e uma intervenção do FMI poderia arranhar a credibilidade da Alemanha. 

Nicolas Sarkozy, o presidente da França, considera Dominique Strauss-Kahn, o diretor-gerente do FMI e ex-ministro das Finanças francês, como um rival político e odiaria lhe conceder uma vitória. 

Há semanas o FMI busca dizer o mínimo possível sobre a Grécia fora declarar que está pronto para ajudar. 

Stone disse que a estratégia parece ser a mais sábia por ora. “A única coisa pior do que anunciar um programa do FMI é anunciar que talvez haja um”, ele disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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