UOL Notícias Internacional
 

05/03/2010

Passado nebuloso de candidato xiita tumultua eleição no Iraque

The New York Times
Marc Santora e Michael R. Gordon
Em Bagdá (Iraque)

Um político amplamente acusado de comandar esquadrões da morte não teria facilidade para concorrer a um cargo público.

Mas este é o Iraque. Em um país infelizmente acostumado a anos de derramamento de sangue sectário, Hakim al Zamili não apenas ocupa um lugar proeminente na chapa eleitoral xiita, como provavelmente conquistará uma cadeira no Parlamento.

É uma mudança de direção surpreendente, que mostra as limitações da reconciliação política. Apesar de alguns candidatos sunitas terem sido impedidos de disputar a eleição por seu suposto apoio ao Partido Baath, a candidatura de Al Zamili não provocou nenhum protesto dos principais políticos xiitas do país. Isso gera o risco de que os líderes xiitas sejam vistos como adotando medidas apenas contra aqueles que perseguiram xiitas, não sunitas.

O novo papel político de Al Zamili acentuou as preocupações de que apesar de toda a conversa sobre alianças intersectárias entre facções xiitas e sunitas, o Iraque poderá não conseguir romper com seu passado problemático.

O apoio à candidatura dele “envia a pior mensagem possível aos iraquianos leais”, disse uma autoridade americana que esteve envolvida no esforço infrutífero de condenar Al Zamili em um julgamento proeminente em 2008. Ele falou sob a condição de anonimato, pois não está autorizado a comentar sobre os desdobramentos políticos iraquianos.
Sentado dentro de sua sede de campanha caindo aos pedaços em Sadr City, Al Zamili insistiu que as acusações contra ele eram apenas invenções com motivações políticas. Mas ele não pede desculpas pelos ataques que milícias xiitas, como o Exército Mahdi de Muqtada al Sadr, realizaram no passado contra os americanos e insurgentes sunitas.

“Muitas pessoas na política entendem que a resistência era um direito nosso, porque sofremos ocupação”, ele disse. “Nós tínhamos o dever de proteger as pessoas das forças americanas e dos ataques dos terroristas”, ele disse.

Agora que as tropas americanas estão se retirando, Al Zamili, cujas olheiras escuras lhe dão um ar de cansado mesmo quando sorri, disse que é hora de abandonar a luta armada. Como candidato Nº 15 na chapa da Aliança Nacional Iraquiana, ele faz parte de uma coalizão que inclui Ibrahim al Jaafari, o ex-primeiro-ministro, e Ahmed Chalabi, um antigo sobrevivente político que lidera o esforço de cassação dos candidatos sunitas e que conta com apoio, como acusam as autoridades americanas, do Irã.


“Eles acharam que colocariam um fim ao movimento sadrista, mas nós perseveremos”, disse Al Zamili. Vários anos atrás, Al Zamili foi protagonista de um drama muito diferente. O Ministério da Saúde e os hospitais que ele supervisiona foram as primeiras instituições que os seguidores de Al Sadr controlaram após a derrubada de Saddam Hussein. Al Zamili, disseram as autoridades americanas, foi nomeado para o cargo de ministro com apoio de Al Sadr.

Segundo o inquérito que levou ao julgamento de Al Zamili, o serviço de proteção do ministério foi usado como milícia privada para sequestrar e matar centenas de sunitas de 2005 ao início de 2007. Um vice-ministro da Saúde, Ammar al Saffar, que estava reunindo dados sobre os abusos cometidos no ministério, desapareceu antes que pudesse entregar os resultados ao primeiro-ministro Nouri Kamal al Maliki. Ele desapareceu após dizer a associados que Al Zamili o ameaçou.

Al Zamili foi preso no início de 2007, depois que Al Maliki se desentendeu com Al Sadr. As autoridades americanas trabalharam estreitamente com as autoridades iraquianas para construir um caso envolvendo Al Zamili em assassinato, sequestro e corrupção. Seu julgamento seria o primeiro de um alto funcionário xiita por crimes sectários –um evento, como afirmou um funcionário americano, que seria tão importante para o estabelecimento da regra da lei no Iraque quanto o julgamento de Saddam Hussein.

Após um julgamento de dois dias, manchado por acusações de intimidação de testemunhas, as acusações foram retiradas e Al Zamili foi solto após passar mais de um ano sob custódia americana.

Al Zamili negou na entrevista que orquestrou os sequestros e assassinatos. “Eles me acusaram de alimentar a violência”, ele disse. “Toda pessoa que resiste ou se opõe à ocupação é terrorista, ladrão, criminoso”, ele disse desdenhosamente.

Mas ele disse que sua prisão foi na verdade uma bênção política. Ele tem trombeteado sua posição no Ministério da Saúde em sua campanha. Citando Gandhi, ele se retrata como um mártir político. “Foi um benefício para mim, porque as pessoas solidarizam comigo”, ele disse. “Elas me viram sofrendo. E o sofrimento faz bem para a alma.”

As famílias daqueles que ele foi acusado de mandar assassinar dizem que estão perplexas. Ali al Saffar, o filho de Al Saffar, disse em uma entrevista por telefone, de Londres, que Al Jaafari era um amigo da família e que quando ele se encontrou com o ex-primeiro-ministro, há três anos, Al Jaafari reconheceu ter recebido informação ligando Al Zamili ao desaparecimento de seu pai.

“Apesar da ênfase deles na moralidade pessoal, eles infelizmente mostraram disposição de abandonar seus ideais na busca pelo poder, incluindo a aceitação em suas fileiras de pessoas como Hakim al Zamili”, disse Al Saffar, se referindo à chapa da Aliança Nacional Iraquiana.

Manal Finjan, uma candidata na eleição e porta-voz da lista de Al Jaafari, disse que a Justiça inocentou Al Zamili, logo ele deve ser tratado como qualquer outro candidato.

“Nós lidamos com as pessoas com base nas evidências e documentos”, ela disse. “Ele foi absolvido pelo tribunal e qualquer pessoa que tenha alguma evidência contra ele deve procurar as autoridades apropriadas.”

Apesar de Al Zamili estar atualmente participando do jogo político, ele não descartou a possibilidade das milícias poderem novamente ser chamadas para defender a população. “Em caso de uma situação ruim, de um aumento dos ataques, da continuidade das prisões injustas, eles nos forçarão a nos defendermos e aos nossos líderes”, ele disse.

Isto pode ser um pouco de bravata. O apoio aos sadristas secou à medida que os iraquianos se cansaram da violência e das mortes sectárias. Mas a julgar pelo sentimento de dezenas de jovens em agasalhos esportivos sujos de lama, que antes eram os uniformes não oficiais do Exército Mahdi, alguns parecem dispostos a voltar à luta.

Antes da chegada de Al Zamili, eles tinham recebido a notícia –posteriormente negada por assessores de Al Maliki– que um tribunal tinha expedido um mandado de prisão para Al Sadr, que acredita-se que esteja no Irã, caso ele retorne ao Iraque. Enquanto condenações furiosas eram manifestadas em uma sala cheia de fumaça, um jovem musculoso deixou claro que os sadristas não permitiriam uma ação dessas.

“Nós cercamos Maliki em Basra durante sua visita, mas não conseguimos chegar até ele”, ele disse. “Mas desta vez, se essa notícia for verdadeira, nós iremos até a Zona Verde e o puxaremos pela cabeça e o arrastaremos pela rua.”

 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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