UOL Notícias Internacional
 

07/03/2010

Indonésia tenta transformar rebeldes em guardas florestais

The New York Times
Peter Gelling
Em Banda Aceh (Indonésia)

Durante décadas, a imensa floresta que cobre a província de Aceh no norte da Indonésia ofereceu um refúgio para milhares de soldados rebeldes que lutavam pela independência.

Agora, ainda marginalizados e em grande parte desempregados apesar dos quase cinco anos de paz, muitos ex-separatistas fugiram novamente para a floresta, desta vez para colocá-la abaixo.

“Conversei com um antigo capitão rebelde recentemente e perguntei por que ele continuava desmatando ilegalmente as florestas de Aceh”, diz Mohammad Nur Djuli, chefe do Corpo de Reintegração de Aceh, uma organização estabelecida pelo governo provincial em 2006 para ajudar ex-combatentes a se reintegrarem à sociedade.

“Ele disse: 'Tudo bem, se você alimentar meus 200 homens eu jogo essa motosserra no rio'. O que você responde numa situação dessas?”

Um programa do governo, chamado Aceh Verde, espera fornecer uma resposta.

Cinco anos depois do terremoto e tsunami que devastaram a maior parte da província de Aceh, matando 170 mil pessoas, o governo local começou a instituir uma estratégia de desenvolvimento econômico. Ele quer incorporar o desenvolvimento sustentável, integrar os antigos combatentes na sociedade e criar empregos que preencham os objetivos do antigo movimento separatista: assegurar que os lucros com os recursos naturais beneficiem a população local.

O programa Aceh Verde, embora ainda em seus primeiros estágios, já obteve alguns resultados.

Centenas de ex-rebeldes, que conhecem a floresta Ulu Masen talvez melhor do que qualquer um, estão sendo treinados como guarda florestais pela Fauna e Flora International, um dos grupos ambientalistas mais antigos em Aceh. Os novos guardas caminham pela mata, armados de bússolas e cordas para escalar, à procura de madeireiros e caçadores ilegais.

Os guardas são escolhidos pelas comunidades locais e agem como um grupo independente que serve de apoio à pequena polícia florestal já existente – seus antigos adversários. Os ex-rebeldes são treinados durante dez dias pela Fauna e Flora International.

Sua cerimônia de formatura parece um episódio de “Survivor”. Exaustos e sujos, eles ficam dentro de um rio, cercados por tochas acesas para receber seus diplomas, que vêm na forma de abraços. Como num batismo, eles são submersos um a um no rio pelo “treinador mestre” e recebem um uniforme limpo para começar suas novas vidas.

“Muitos deles choram”, diz Matthew Linkie, gerente do programa na filial da Fauna e Flora International em Aceh. “É incrível ver isso entre esses homens durões. Esses caras estão deixando de ser criminosos e foragidos para se tornarem heróis. Eles estão se tornando nossos olhos e ouvidos. Eles nos informam sobre o que está acontecendo em partes muito remotas da floresta, lugares que são normalmente muito difíceis de monitorar.”

A Aceh Green é uma ideia original do governador Irwandi Yusuf, que também é um ex-rebelde e veterinário formado nos EUA e fundador da filial da Fauna e Flora International em Aceh. Ele apresentou o Aceh Green ao mundo na Conferência da ONU sobre a Mudança Climática de 2007 em Bali, onde, aplaudido pelos ambientalistas de todo o mundo, declarou sua intenção de transformar a província num modelo mundial de sustentabilidade.

Os analistas têm elogiado o espírito do programa, que indica um futuro potencialmente brilhante para uma região conhecida pelo desastre e conflito. Vários meses depois da conferência em Bali, o governador declarou uma moratória ao corte de madeira na floresta Ulu Masen e começou o programa de guardas florestas com a Fauna e Flora.

Em fevereiro de 2008, Ulu Masen se tornou a primeira floresta a ser internacionalmente reconhecida como área protegida pela ONU, de acordo com o programa Redd (Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação Florestal em Países em Desenvolvimento). O sistema permite que países ricos compensem suas emissões de carbono pagando aos países pobres para preservarem suas florestas. O projeto poderia render a Aceh cerca de US$ 26 milhões em créditos de carbono se a província conseguir proteger com sucesso todos os 1,9 milhão de acres da floresta de Ulu Masen.

“O Aceh Verde é a articulação de uma visão que Pak Irwandi teve durante muito tempo”, diz Lilianne Fan, ex-funcionária de ajuda internacional que agora trabalha como conselheira do governador na Aceh Verde, usando um título indonésio de cortesia antes do nome do governador.

Aceh, que cobre o extremo norte da ilha de Sumatra e abriga uma população de mais de 4 milhões de pessoas, tem uma das reservas naturais mais ricas do mundo, incluindo gás natural, petróleo, carvão, ouro, ferro, cobre, estanho e madeira de lei. Foi a luta para controlar os rendimentos desses recursos naturais que desencadeou a longa rebelião separatista.

Agora, o governo da província, com mais poder por causa de um acordo de paz feito em 2005 que lhe rendeu uma autonomia limitada em relação a Jacarta, capital da Indonésia, espera extrair esses recursos de forma sustentável e para o benefício de sua população.

Os críticos dizem que apesar do Aceh Verde ser uma boa ideia, a província não tem infraestrutura governamental e força de vontade para torná-lo efetivo.

Alguns funcionários de ajuda humanitária se referem ao programa como Aceh Marrom, afirmando que nas áreas remotas em que eles trabalham, o som das motosserras ficou mais alto do que nunca apesar da moratória sobre o corte de madeira. Em resposta, o governo diz que ainda não é capaz de monitorar toda a floresta.

Uma das forças por trás do Aceh Verde é uma necessidade urgente de melhorar a economia de Aceh. Analistas dizem que o crescimento é essencial para manter a paz, mas a economia está estremecendo à medida que o esforço multibilionário de reconstrução depois do tsunami de 2004 vai chegando ao fim. Os ambientalistas locais temem que, na corrida para compensar o desemprego que veio com o fim dos projetos de ajuda internacional aqui, o espírito do Aceh Verde perca sua força.

O governador “apoia os investidores, não o meio ambiente”, diz Arifsyah Nasution, coordenador da Kuala, uma organização guarda-chuva que representa 25 grupos ambientalistas locais. “O governador diz que estão tomando um 'caminho verde', mas ainda não vimos nenhum resultado. Para nós isso é só um jargão, uma forma de atrair grandes investimentos.”

No cerne das dificuldades da Aceh Verde está a falta de um governo funcional na maior parte da região. Mais de 30 anos de conflito e o tsunami deixaram os governos locais e provincial em frangalhos. A corrupção, especialmente no nível local, continua forte, de acordo com organizações anticorrupção como a Transparência Internacional.

“A equipe do Aceh Green trabalha sozinha”, diz Nasution sobre a quipe do governador, que trabalha fora de Banda Aceh, capital da província. “Não há quase nenhuma coordenação ou entendimento entre outros setores do governo”.

“Há muitas regulações conflitantes vindas de vários níveis do governo”, acrescenta. “É uma bagunça.”

Fan diz que a equipe Aceh Verde do governador planeja passar os próximos dois anos fortalecendo as habilidades de governança entre os líderes locais e provinciais. Eles estão revendo a política florestal assim como a extração de recursos. Vários projetos estão sendo trabalhados, incluindo uma parceria entre o governo indonésio e o banco de desenvolvimento alemão KfW para explorar os recursos geotérmicos.

Para alguns, incluindo os rebeldes transformados em guardas florestais, o Aceh Verde se tornou uma nova espécie de doutrina da província.

Kamarullah, 32, ex-guerrilheiro rebelde e ex-madeireiro, que assim como muitos indonésios usa apenas um nome, diz que hoje considera a si mesmo um ativista ambiental.

“Nunca soube como usar a floresta de forma sábia”, disse ele durante uma patrulha recente. “Agora eu entendo a importância da floresta. Vou sempre protegê-la, sua vida selvagem e o ambiente como um todo a partir de agora, mesmo que eu deixe de ser guarda florestal.”

Tradução: Eloise De Vylder
 

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