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07/03/2010

Na epidemia de obesidade, um biscoito por dia não faz muita diferença

The New York Times
Tara Parker Pope
  • Adolescente chinês nada para combater a obesidade; estudo aponta que pequenas mudanças no consumo de calorias têm pouco efeito no peso da pessoa a longo prazo

    Adolescente chinês nada para combater a obesidade; estudo aponta que pequenas mudanças no consumo de calorias têm pouco efeito no peso da pessoa a longo prazo

A fórmula básica para ganhar e perder peso é bastante conhecida: 450 gramas de gordura equivalem a 3.500 calorias.

Essa equação simples alimentou a ideia amplamente aceita de que a perda de peso não requer uma intimidante mudança de estilo de vida, mas “pequenas mudanças somadas”, como a primeira-dama, Michelle Obama, disse no mês passado ao anunciar um plano nacional para combater a obesidade infantil.

Segundo essa visão, cortar ou queimar apenas 100 calorias extras por dia – substituindo refrigerante por água, por exemplo, ou indo a pé para a escola – pode levar a uma perda de peso significativa com o tempo: 450 gramas a cada 35 dias, ou mais de 4,5 quilos num ano.

Embora seja certamente uma mensagem esperançosa, também é equivocada. Inúmeros estudos científicos mostram que pequenas mudanças no consumo de calorias não têm quase nenhum efeito sobre o peso. Quando deixamos de comer uma bolacha ou nos exercitamos um pouco mais, as adaptações biológicas e comportamentais do corpo entram em ação, reduzindo significativamente os benefícios calóricos do nosso esforço.

Mas será que pequenas mudanças na dieta e exercícios conseguirão pelo menos evitar que as crianças ganhem peso? Enquanto alguns especialistas acreditam que sim, modelos matemáticos sugerem que não.

Conforme um comentário recente no The Journal of the American Medical Association observou, a teoria das “pequenas mudanças” falha ao não levar em consideração os mecanismos de adaptação do corpo. O aumento da obesidade infantil durante as últimas décadas não pode ser explicada por um refrigerante de 100 calorias extra todo dia, ou menos aulas de educação física. Deixar de comer um biscoito ou passar a ir a pé para a escola não afetam em quase nada o desequilíbrio calórico que vai “bem além da capacidade da maioria dos indivíduos de lidarem com isso pessoalmente”, escreveram os autores – da mesma forma que andar 8 a 16 quilômetros por dia durante dez anos.

Michelle Obama defende alimentação saudável para criança

Isso não significa que pequenas melhoras são insignificantes – longe disso. Mas as pessoas precisam ter uma visão realista do que são capazes de atingir.

“Como profissionais de saúde, comemoramos as pequenas mudanças porque elas com frequência levam a mudanças maiores”, diz o Dr. David Ludwig, diretor do programa Optimal Weight for Life no Hospital Infantil de Boston e co-autor do estudo. “Um adolescente obeso que passar a assistir televisão por cinco horas em vez de seis a cada dia poderá então reduzir esse tempo ainda mais. Entretanto, seria totalmente irrealista pensar que só estas mudanças produzirão uma perda de peso significativa.”

Por que não? A resposta está na biologia. O peso de uma pessoa fica estável desde que o número de calorias consumido não exceda a quantidade de calorias que o corpo gasta, tanto nos exercícios quanto nas funções básicas do corpo. Se o balanço de calorias que entram e saem muda, nós ganhamos ou perdemos peso.

Mas os corpos não ganham ou perdem peso indefinidamente. Em determinado momento, uma série de mudanças biológicas entra em ação para o corpo manter o novo peso. Como explica o artigo, uma pessoa que come um biscoito extra por dia ganhará peso, mas com o tempo, uma proporção maior das calorias do biscoito também será usada para administrar o peso extra do corpo. Eventualmente, o corpo se ajuda e para de ganhar peso, mesmo que a pessoa continue comendo aquele biscoito.

Fatores semelhantes entram em ação quando abrimos mão daquele biscoito extra. Podemos perder um pouco de peso a princípio, mas logo o corpo se ajusta ao novo peso e requer menos calorias.

Infelizmente, entretanto, o corpo resiste mais para perder peso do que para ganhar. Os hormônios e a química cerebral que regulam nossa vontade inconsciente de comer e como o corpo responde ao exercício podem tornar ainda mais difícil perder peso. Você pode deixar de comer o biscoito, mas, sem saber, compensar comendo um pão francês ou um prato a mais de macarrão no jantar.

“Há um contexto muito mais amplo do que resumir tudo a um biscoito por dia ou uma Coca por dia”, diz o Dr. Jeffrey M. Friedman, chefe do laboratório de genética molecular da Universidade Rockefeller, que foi o primeiro a identificar a leptina, um hormônio secretado pelas células de gordura do corpo que regula o consumo de alimentos e o gasto de energia. “Se você perguntar a qualquer pessoa na rua: ‘Por que as pessoas são obesas?’, elas responderão: ‘Porque elas comem muito’.”

“Isso é sem dúvida verdade, mas a questão por trás disso é: por que elas comem muito? Hoje está claro que há muitos motivos importantes para comer e que não se trata simplesmente de uma decisão cognitiva ou consciente.”

Isso não quer dizer que o incentivo para fazer pequenas mudanças diárias na alimentação e exercícios é equivocado. James O. Hill, diretor do Centro de Nutrição Humana na Universidade do Colorado em Denver, diz que embora a perda de peso exija mudanças significativas no estilo de vida, tirar as calorias extras da dieta através de pequenos passos podem ajudar a desacelerar e evitar o ganho de peso.

Num estudo com 200 famílias, metade foi solicitada para substituir 100 calorias de açúcar por um adoçante não calórico e caminhar mais 2 mil passos por dia. As outras famílias passaram a usar pedômetros (aparelho que mede os passos) durante seus exercícios, mas não tiveram que fazer nenhuma mudança de dieta.

Durante o estudo de seis meses, crianças de ambos os grupos mostraram quedas pequenas, porém estatisticamente significativas no índice de massa corporal; o grupo que cortou 100 calorias teve mais crianças que mantiveram ou reduziram a massa corporal e menos crianças que ganharam peso em excesso.

O estudo, publicado em 2007 na Pediatrics, não observou os benefícios a longo prazo. Mas Hill disse que ele sugere que pequenas mudanças podem evitar que crianças acima do peso ganhem mais peso ainda.

“Uma vez que você está tentando perder peso, está fora do domínio das pequenas mudanças”, disse. “Mas a abordagem de dar pequenos passos pode impedir o ganho de peso.”

Embora seja improvável que os pequenos passos resolvam a crise de obesidade do país, os médicos dizem que perder um pouco de peso, comendo alimentos mais saudáveis e aumentar os exercícios podem fazer uma grande diferença na saúde como um todo e nos riscos de ter doenças cardíacas ou diabetes.

“Não estou dizendo para desistir e esquecer tudo isso”, diz Friedman. “Em vez de pensar no peso ou na aparência, pensemos na saúde das pessoas. Há coisas que as pessoas podem fazer para melhor significativamente sua saúde e que não exigem a redução do peso.”

Ludwig ainda encoraja os indivíduos a fazerem pequenas mudanças, como assistir menos televisão ou comer mais verduras e legumes, porque essas mudanças podem ser o início de mudanças bem maiores no estilo de vida que poderão, por fim, levar à perda de peso. Mas ele e outros dizem que reverter a obesidade exige mudanças bem maiores – como regulamentar a propaganda de alimentos para crianças e eliminar os subsídios do governo que tornam a “junk food” barata e rentável.

“Precisamos saber contra o que estamos lutando em termos de desafios biológicos básicos, e então planejar uma campanha que será de fato capaz de lidar com o problema em toda a sua magnitude”, diz Ludwig. “Se esperarmos apenas que as crianças do centro da cidade exercitem o autocontrole e andem um pouco mais, então acho que vamos ficar muito frustrados com os resultados.”

Tradução: Eloise De Vylder

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