UOL Notícias Internacional
 

11/03/2010

Novo presidente do Chile assume o cargo com um cenário político modificado pelo terremoto

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Santiago (Chile)
  • A presidente do Chile, Michelle Bachelet, ao lado do futuro presidente, Sebastian Piñera, durante cerimônia em Santiago, capital chilena, um dia antes da posse do novo presidente do país

    A presidente do Chile, Michelle Bachelet, ao lado do futuro presidente, Sebastian Piñera, durante cerimônia em Santiago, capital chilena, um dia antes da posse do novo presidente do país

O poderoso terremoto no Chile enterrou pessoas e casas em um amplo trecho da costa sul, mas também pode ter dado à nova coalizão de governo de direita do país uma chance de enterrar os fantasmas do ex-ditador Augusto Pinochet. 

O sismo de 27 de fevereiro ocorreu durante uma transição chave, enquanto Sebastián Piñera, um empresário bilionário e ex-senador, se preparava para assumir a presidência como primeiro líder eleito de direita no Chile em 50 anos. Quando ele tomar posse na quinta-feira, ele será o primeiro presidente de direita desde que Pinochet deixou o cargo em 1990, devolvendo o Chile à democracia após uma ditadura sangrenta. 

Piñera, que fez campanha com uma plataforma de criação de empregos e de lei e ordem, poderá agora contar com maior liberdade para reprimir a delinquência e o tráfico de drogas. Ele já está se rotulando como o “presidente da reconstrução”, embarcando em um empreendimento ilimitado que poderia lhe dar uma vantagem duradoura sobre a coalizão rival de centro-esquerda, Concertación, cuja resposta foi considerada lenta após o desastre. 

Benjamin Leal, um professor de psicologia de 38 anos, sobreviveu ao tsunami que atingiu a cidade portuária de Talcahuano, deixando quase metade de seus 250 mil moradores desabrigados. Ele então suportou os tumultos posteriores, à medida que saqueadores e vândalos roubavam o que podiam enquanto o governo da presidente de saída, Michelle Bachelet, hesitou por 36 horas em empregar as forças armadas. 

“Nós vimos um exemplo vergonhoso de que a delinquência não foi enfrentada devidamente pelo governo de saída”, disse Leal. Ele estava nervoso do lado de fora de seu prédio de apartamentos na semana passada, onde contêineres de carga do tamanho de caminhões, que foram lançados na rua pelo tsunami, ameaçavam tombar sobre seu prédio. 

“Aqui há uma pobreza extrema e às vezes é uma selva, onde manda a lei do mais forte”, ele disse. “Nós esperamos que Piñera mude isso.” 

O clima político mudou desde que Piñera foi eleito em janeiro. Naquele momento havia dúvidas sobre suas vastas negócios e ligações com ex-oficiais militares e autoridades da era Pinochet. 

Agora Piñera parece ter uma nova oportunidade de ser visto com a força modernizadora, firme, que os eleitores pediam quando ele foi eleito derrotando o ex-presidente Eduardo Frei, o candidato da coalizão Concertación, que se manteve no poder por duas décadas. 

O Gabinete de 22 membros de Piñera é composto quase que exclusivamente por tecnocratas da direita corporativa. Muitos são economistas da conservadora Universidade Católica de Santiago, que possuem mestrados e doutorados de universidades americanas de prestígio. O próprio Piñera tem um doutorado em economia por Harvard. 

“Ele conta com a experiência administrativa que precisamos agora”, disse Claudio Torres, um subempreiteiro de refino de petróleo, na semana passada em Talcahuano, enquanto empurrava um carrinho de supermercado ladeira acima, após encher uma panela com água potável em um caminhão da prefeitura. 

“É uma virada do destino o fato de, após 50 anos, a direita de Piñera agora ter a chance de modernizar o país, de torná-lo algo melhor do que era antes”, disse Marta Lagos, que dirige uma empresa de pesquisa daqui. “Se a direita for inteligente e realizar um trabalho pelo menos decente, ela permanecerá no poder por um bom tempo.” 

Pela primeira vez desde o governo de Pinochet, as forças armadas estavam patrulhando as ruas do Chile na semana passada, restaurando rapidamente a ordem e obtendo elogios dos moradores por sua benevolência e profissionalismo. Piñera disse que gostaria que o exército permanecesse na zona do terremoto além do limite de 30 dias imposto pela lei. 

Apesar dos esforços dos militares para evitar confrontos, surgiram notícias na noite de quarta-feira de um possível episódio mortal. 

Cinco membros de uma patrulha de infantaria foram detidos pela Marinha sob suspeita de participação na morte de um civil em Hualpen, na madrugada de quarta-feira, durante o toque de recolher, disse o almirante Roberto Macchiavello para a “Radio Cooperativa”. 

A maioria dos chilenos com menos de 35 anos é jovem demais para lembrar do papel brutalmente repressivo que os militares exerceram sob Pinochet. Muitos soldados nas ruas de Concepción na semana passada eram bebês quando a ditadura chegou ao fim. 

Mas a forma como se comportaram após o terremoto ressaltou que as forças armadas não são mais um agente político no Chile. Os generais não fazem mais declarações políticas, não oferecem opiniões sobre assuntos públicos nem mesmo tentam intervir em assuntos públicos como no passado. 

“O que é importante no momento é que o exército está do lado de nossos compatriotas”, disse o general Juan Miguel Fuente-Alba na terça-feira, durante uma cerimônia na qual assumiu o comando do exército. 

O terremoto foi menos benéfico para a esquerda, pelo menos por ora. Bachelet despontou originalmente na cena política nacional em 2002, após um famoso incidente em que, como ministra da Defesa, ela subiu em um tanque na chuva durante uma operação para ajudar vítimas de inundações. Mas após o terremoto do mês passado, Bachelet, que foi presa e torturada durante a ditadura militar, hesitou em enviar tropas para manter a paz nas ruas. 

“Seu mandato começou com críticas de que ela não sabia liderar e terminou com as mesmas críticas”, disse Lagos. “No final ela demonstrou fraqueza. Para ela, o terremoto será como (o acidente em) Chappaquiddick foi para Ted Kennedy.” 

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Piñera foi um dos fundadores dos partidos de direita criados na segunda metade dos anos 80 que apoiaram o governo militar, mas que também exerceram um papel de intermediação entre a ditadura e a oposição –que posteriormente se tornou a Concertación– na negociação dos termos da transição para a democracia. 

Um desses termos foi o de que o novo governo civil não aboliria a lei de anistia de 1978 para os oficiais militares que cometeram violações de direitos humanos de 1973 a 1978. 

Os líderes políticos da direita e a direita corporativa eram protegidos do governo Pinochet e se beneficiaram generosamente de seu modelo econômico e da privatização das empresas estatais. 

Enquanto fazia campanha em novembro, Piñera se encontrou com cerca de 500 militares e policiais aposentados, a pedido deles. Ele disse que asseguraria que os julgamentos de direitos humanos seriam acelerados e as leis seriam “aplicadas corretamente” –uma clara referência à lei de anistia e ao estatuto de limitações para as investigações, que os juízes têm ignorado ao longo da última década. 

Alguns analistas disseram que a lua-de-mel de Piñera poderia durar pouco caso ele parecesse favorecer os interesses do setor privado no esforço de reconstrução, cujo custo estimado é de pelo menos US$ 12 bilhões. Suas escolhas para governadores em Santiago e Maule, na zona do terremoto, foram de presidentes-executivos de empresas de engenharia e construção. 

Sua recusa em deixar a gestão de seus negócios aos cuidados de outros já provocou comparações com o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi. Desde o terremoto, Piñera, o quarto homem mais rico do Chile, disse que adiará a venda prometida de sua participação restante de 11% na Lan Airlines até 30 de abril, por causa das “consequências sérias do terremoto e tsunami”, segundo um comunicado de imprensa do Bancard, um de seus grupos de investimento. 

“Tudo isso colocou a questão dos interesses comerciais de Piñera e de um possível conflito de interesse em segundo plano, mas não por muito tempo”, disse Robert Funk, vice-diretor acadêmico do Instituto de Assuntos Públicos da Universidade do Chile. 

“Se os esforços de reconstrução começarem a pender para o setor privado, muitas pessoas começarão a questionar que laços os membros do governo têm com as empresas envolvidas nos projetos de reconstrução”, ele disse. “As pessoas estarão alertas.” 

Pascale Bonnefoy contribuiu com reportagem.

 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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