UOL Notícias Internacional
 

17/03/2010

No México, promessas oficiais não aliviam a dor de uma cidade abalada pela violência

The New York Times
Elisabeth Malkin e Ginger Thompson
Em Ciudad Juárez (México)
  • Soldado mexicano preserva o local onde dois traficantes morreram durante tiroteio no balneário de Acapulco, no México. De acordo com o governo, a criminalidade associada à droga deixou mais de 15 mil mortos nos últimos três anos no México. O governo mexicano convocou cerca de 50 mil soldados do Exército para ajudar na segurança e no combate ao trafico

    Soldado mexicano preserva o local onde dois traficantes morreram durante tiroteio no balneário de Acapulco, no México. De acordo com o governo, a criminalidade associada à droga deixou mais de 15 mil mortos nos últimos três anos no México. O governo mexicano convocou cerca de 50 mil soldados do Exército para ajudar na segurança e no combate ao trafico

Nas seis semanas desde que homens armados mataram 15 pessoas em um bairro operário daqui, a polícia, o governador, psicólogos e até mesmo a esposa do presidente estiveram aqui.

A primeira-dama, Margarita Zavala, prometeu construir um campo de futebol americano no terreno gigante cheio de lixo ao lado. Os psicólogos jogaram jogos com as crianças assustadas do bairro para ajudá-las a lidar com a situação. 

E então todo mundo partiu. O terreno ainda está vazio e as crianças ainda têm dificuldade de dormir à noite. 

“Eu quero que volte a ser como era antes”, disse uma mãe de três que perdeu o marido naquela noite, quando ele saiu para resgatar o filho de 16 anos do casal, cujas pernas ficaram tão feridas que ele provavelmente não voltará a andar. Ela não quis dizer seu nome por temer que a pessoa por trás das mortes volte para eliminar as testemunhas. 

“Eu gostaria que tudo fosse um sonho, que todos estivessem de volta”, ela disse. Então ela deu de ombros levemente. 

As mortes naquela noite em Villas del Salvarcar, um bairro de casas modestas de concreto no sudeste desta cidade de fronteira, provocou um movimento político que prosseguia na terça-feira, quando o presidente Felipe Calderón fez sua terceira visita à cidade desde as mortes. 

Ansioso em mostrar que o governo federal está comprometido em colocar um fim à violência ligada às drogas que matou 500 pessoas em Juárez desde 1º de janeiro –incluindo três pessoas ligadas ao consulado dos Estados Unidos, que foram mortas a tiros no sábado– Calderón apresentou uma lista de programas sociais que ele espera que aplaque os cidadãos cada vez mais furiosos da cidade. 

Nas semanas que se passaram desde as mortes em Villas del Salvarcar, o presidente mudou de direção, reconhecendo que sua ênfase em uma solução militar para dar fim à violência do narcotráfico não funcionará por si só. Há 10 mil soldados e policiais patrulhando as ruas da cidade, mas toda semana a violência parece se tornar mais descarada. 

“Nós estamos cheios, sr. presidente... muda muda”, diz a primeira página do “El Diario de Juárez”. 

“Como os cidadãos podem se sentar com suas autoridades para definir onde construir um novo parque ou recuperar um espaço público, sem um mínimo de garantia de que seus filhos podem sair sem serem expostos ao crime?” perguntava o editorial de primeira página. 

Lucinda Vargas, a diretora geral do Plano Estratégico de Juárez, um grupo cívico, disse que Calderón estava finalmente começando a adotar a abordagem certa, combinando uma solução policial com uma ênfase na reforma judicial e programas sociais. 

“Inicialmente eles pensaram que isso poderia ser uma solução rápida”, disse Vargas. “Eles ficaram surpresos por não termos ficado gratos o bastante.” 

“Eu não sou ingênua para achar que isso vai terminar da noite para o dia”, ela acrescentou. “Se as coisas estiverem caminhando na direção certo, então será uma ameaça ao crime organizado. Quando você vê medidas que funcionam, há um pico de violência. É esse ponto de inflexão que questiono quando será.” 

Acompanhado por sua esposa, grande parte de seu Gabinete e pelo embaixador dos Estados Unidos no México, Carlos Pascual, Calderón prometeu em um evento no ginásio de uma escola fornecer bolsas de estudo para o ensino médio para estudantes do ensino fundamental. 

Ele passou grande parte da tarde em um centro de conferências em um hotel escutando uma recitação de programas do governo por parte de seus ministros, recebendo respostas educadas por parte do establishment cívico e empresarial de Juárez. Um punhado de manifestantes entrou em choque com a polícia do lado de fora. 

A presença de Pascual ressaltou o crescente envolvimento de Washington na abordagem modificada da guerra de Calderón contra os narcotraficantes. Os governos Bush e Obama apoiaram a campanha de três anos de Calderón, fornecendo cerca de US$ 1,3 bilhão em ajuda militar e policial. 

Prosseguindo em seu apoio, o governo Obama deverá anunciar um plano de US$ 311 milhões para a expansão das unidades conjuntas de inteligência que se concentram na lavagem de dinheiro, assim como treinamento adicional para juízes, promotores e policiais. 

E em uma mudança acentuada de direção, a ajuda americana também será destinada a um fortalecimento dos programas comunitários nos bairros pobres. O diretor mexicano da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) visitou Juárez na semana passada para se encontrar com os grupos cívicos. 

As mortes no sábado, em Juárez, de três pessoas ligadas ao consulado –uma funcionária do consulado americano e seu marido, assim como o marido mexicano de outra funcionária– dão uma nova urgência ao envolvimento dos Estados Unidos na guerra das drogas no México. 

Os corpos do casal americano morto, Lesley A. Enriquez e Arthur H. Redelfs, foram levados para El Paso na terça-feira. A investigação das mortes está seguindo várias linhas, incluindo a possibilidade de que as vítimas tenham sido mortas em um caso de erro de identidade, disse a agente especial Andrea Simmons, uma porta-voz do escritório de campo o FBI em El Paso, que está ajudando os investigadores mexicanos. 

Em Washington, há um crescente desencanto com os resultados da ajuda americana, sob o que é conhecida como Iniciativa Merida. 

Mas no coração da zona de batalha, em Villas del Salvarcar, onde aqueles que podem já partiram, há pouca esperança de que todo esse estardalhaço fará alguma diferença. 

“Para que ele está vindo aqui?” disse Gerardo Dominguez, um entregador desempregado, sobre o presidente. “Ele está aqui para nada.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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