UOL Notícias Internacional
 

17/03/2010

Região rural do Haiti tem dificuldade para absorver os desabrigados do terremoto

The New York Times
Deborah Sontag
Em Fond-des-Blancs (Haiti)

Antes do terremoto que mudou tudo, Chlotilde Pelteau e seu marido viviam uma existência supremamente urbana. Uma vendedora de cosméticos e um mecânico, ambos desfrutavam de uma clientela constante e de uma rotina diária agitada, sob a serenata das buzinas dos carros e da algazarra geral de Porto Príncipe. 

Agora, enquanto os galos cantam e as cabras balem, Pelteau, 29 anos, trabalham duro em uma encosta escarpada na aldeia isolada de Nan Roc (nas rochas), que ela abandonou aos 14 anos por uma vida de maiores oportunidades. À noite, ela, seu marido e dois filhos dormem colados a uma dúzia de parentes na pequena casa de pau-a-pique onde ela cresceu. 

“Com tudo destruído, o que eu poderia fazer a não ser voltar?” disse Pelteau, vestindo uma saia com estampa floral enquanto plantava sementes de milho em um solo árido que dificilmente produzirá comida suficiente para sustentar a ela e seus parentes magros, muito menos aqueles que fugiram da capital destruída para se juntar a eles. 

A vida completou um círculo para muitos haitianos que originalmente deixaram o campo para escapar de sua pobreza opressiva. Desde o início dos anos 80, os haitianos rurais vinham se mudando em uma taxa constante para Porto Príncipe à procura de escolas, empregos e serviços públicos. Após o terremoto, mais de 600 mil voltaram para o interior, segundo o governo, colocando em sérias dificuldades as comunidades desesperadamente pobres que receberam pouca assistência de emergência. 

“Ocorreu um êxodo em massa para lugares como Fond-des-Blancs”, disse Briel Leveille, um ex-prefeito e fundador da principal cooperativa camponesa da região, que inclui Nan Roc. “Mas a miséria do interior está se somando aos efeitos do desastre. Eu ouvi pessoas dizerem que seria melhor enfrentar outro terremoto em Porto Príncipe do que permanecer nesta miséria rural sem qualquer ajuda do governo.” 

De fato, alguns já retornaram à capital em busca da ajuda internacional que está concentrada lá. Mas se o fluxo reverso continuar, ele poderia minar a meta primária do governo haitiano e da comunidade internacional: usar o terremoto como um catalisador para descentralizar o Haiti e ressuscitar sua economia agrícola, disse Nancy Dorsinville, uma conselheira especial do ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e emissária especial da ONU para o Haiti. 

“Se realmente falamos sério sobre a descentralização, então temos que pensar rapidamente sobre uma distribuição mais robusta de alimento para o interior, programas de dinheiro por trabalho lá e assistência à agricultura”, disse Dorsinville. 

A descentralização há muito é defendida por muitas pessoas no Haiti, porque o interior do país foi negligenciado por décadas enquanto a área de Porto Príncipe ganhou um congestionamento disfuncional. Agora, com a capital destruída, isso se tornou uma prioridade política, apesar da comida se tornar cada vez mais escassa no interior. 

“É apenas uma questão de tempo até começarmos a ver uma desnutrição severa em Fond-des-Blancs”, disse Conor Shapiro, diretor da St. Boniface Haiti Foundation, que dirige um hospital com 60 leitos e uma organização de desenvolvimento comunitário aqui. 

Até o momento, o sentimento é de boas-vindas aos que retornam, já que são da família. Jacqueline Jerome, a mãe enrugada de Pelteau e que não sabe sua idade, disse, dando de ombros: “Eles não têm nada agora, então cabe a mim cuidar deles agora. Se Deus lhe dá uma boa colheita, você compartilha com aqueles que foram menos afortunados”. 

Fond-des-Blancs é uma área remota, montanhosa, a 120 quilômetros a sudoeste de Porto Príncipe, com acesso apenas por uma estrada acidentada intransitável por veículos após chuvas pesadas. Os líderes comunitários dizem que a população, calculada em 45 mil pelo censo do governo de 2001, inchou em pelo menos um terço desde o terremoto. 

É difícil medir o crescimento, mas os líderes comunitários apontam para alguns poucos indicadores. Cerca de 300 famílias carentes entrevistadas informaram ter recebido em média cinco vítimas do terremoto cada. A St. François Xavier, uma escola secundária, viu seu número de estudantes crescer pela metade, com 150 adolescentes deslocados. E 500 a 600 refugiados adicionais do terremoto estão tentando retomar seus estudos, apesar de Fond-des-Blancs ter apenas duas escolas públicas (e nenhuma vai além do ensino fundamental). 

A transformação pós-terremoto de Fond-des-Blancs é palpável. No St. Boniface Hospital, sobreviventes do terremoto com lesões no cérebro e espinha lotam as alas, enquanto seus parentes vivem em um pátio. O hospital, que não possuía nem mesmo aparelho de raio X até um ser doado após o terremoto, foi voluntário para receber pacientes do navio-hospital americano Comfort, que levantou âncora na última terça-feira. 

No centro da cidade, o afluxo de Porto Príncipe criou uma vida noturna onde antes não existia nenhuma. O único poste de luz atrai o público noturno, e os refugiados do terremoto chamam brincando o local de encontro empoeirado de Champ de Mars, o nome da praça movimentada na capital haitiana. 

Perto do poste de luz, Ronange Buissereth montou um pequeno restaurante ao ar livre, tentando imitar o movimentado que perdeu em Porto Príncipe com o terremoto. Mas, ela disse suspirando, sua cidade natal relativamente pequena não consegue produzir uma clientela constante para suas bananas fritas, batatas e carne de porco, de forma que seu trabalho é na verdade apenas um passatempo. 

Várias dezenas de membros da família estendida de Buissereth retornaram à propriedade cheia de mato que sua geração abandonou décadas atrás. Alguns, como sua irmã Rosemen, 37 anos, estão felizes em voltar, apesar de ansiosos com seu sustento. 

“É como se você virasse comunista aqui, porque você nunca vê dinheiro”, ela disse. “Mas não é tão ruim. Apesar de ter partido há 25 anos, Fond-des-Blancs ainda é o lugar que posso chamar de lar.” 

Sua prima, Monique Alexandre, 45 anos, já está criando raízes. No último fim de semana, com bobs coloridos em seus cabelos e porcos revirando a terra aos seus pés, ela supervisionava as obras das fundações de sua nova casa –“com um teto de folhas de flandres que não podem nos esmagar!” ela disse. 

“Se eu conseguir juntar algum dinheiro, eu vou voltar para Porto Príncipe e reconstruir meu negócio”, um mercado, ela disse. “Se não der, vou ficar aqui e cultivar a terra. É preciso se adaptar.” 

Missoule Alexandre Pierre, 54 anos, não estava tão esperançosa. Enquanto suas filhas apáticas folheavam revistas e olhavam para suas unhas, ela expressou uma frustração considerável pela educação de suas filhas ter sido interrompida. 

“Essas três garotas eram estudantes universitárias e agora o futuro delas é incerto”, ela disse. “Elas não sabem o que fazer aqui. Toda manhã elas acordam e dizem: ‘Mãe, leva a gente de volta. Nós preferimos dormir na rua’.” 

Fond-des-Blancs tem uma longa história de migração, com moradores fugindo para Cuba, Nova York e para a Guiana Francesa, mesmo nos bons tempos. 

“Até 1963, aqui era um local bonito, com todo tipo de pássaros, chuva abundante, grandes árvores velhas e plantações de café”, disse Leveille, 62 anos. “Mas naquele ano o furacão Flora devastou nosso ambiente em um dia. Empresas estrangeiras como a Dupont começaram a trocar o sisal, que cultivávamos, por fibras sintéticas. E as pessoas começaram a cortar as árvores para produzir carvão.” 

Em 1982, Fond-des-Blancs, desmatada, estava em seu ponto mais baixo e o êxodo para Porto Príncipe estava em curso. Ao mesmo tempo, ajuda começou a chegar: um programa de reflorestamento relativamente bem-sucedido e um posto de saúde iniciado por uma paróquia católica em Quincy, Massachusetts, que viria a se tornar o St. Boniface Hospital. 

Projetos como o cruzamento das magras cabras locais com uma raça dominicana maior deu nova vida à economia (com Fond-des-Blancs aspirando ser conhecida como a capital das cabras do Haiti), mas a área ainda enfrenta dificuldades. 

Preocupados com o impacto daqueles que retornaram, os líderes locais decidiram unir seus vários grupos comunitários para encontrar uma forma de absorver os recém-chegados, usando ao mesmo tempo o terremoto para chamar atenção para o apuro das áreas rurais. Em uma recente reunião da cidade, eles resumiram sucintamente seus recursos em um quadro negro: “Saúde pública: inexistente; eletricidade: inexistente; água: insuficiente”. 

O ex-prefeito Leveille, com seu rosto calejado sob um chapéu de palha, disse às pessoas: “É hora de forçar a comunidade internacional e nosso próprio governo a também se concentrarem em nós”. E todos concordaram.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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