UOL Notícias Internacional
 

19/03/2010

Ex-rivais, Obama e Clinton forjam parceria forte na política externa

The New York Times
Mark Landler e Helene Cooper
Em Washington (EUA)

Em uma quinta-feira nervosa, pouco antes de sua reunião semanal com o presidente Barack Obama no mês passado, Hillary Rodham Clinton recebeu um telefonema preocupante: seu marido, Bill Clinton, estava em um hospital com dores no peito e precisava de uma cirurgia urgente no coração.

Hillary Clinton manteve seu compromisso com Obama no Escritório Oval, ocupando seu lugar habitual no sofá amarelo enquanto os dois conversavam sobre sua futura viagem ao Golfo Pérsico, onde ela planejava aumentar a pressão sobre o Irã devido ao seu programa nuclear. 

“Ninguém teve ideia” de que ela estava enfrentando uma preocupação pessoal, disse um alto funcionário da Casa Branca que estava presente. Depois, Hillary correu para tomar um voo para Nova York para ver seu marido. 

Mas o fato dela primeiro ter dedicado 45 minutos para traçar a estratégia para o Irã com o homem que a derrotou em uma campanha divisora nas primárias, mostra quão longe Obama e Hillary foram desde o primeiro semestre amargo de 2008, quando ele atacou que as credenciais dela de política externa consistiam de tomar chá com os líderes mundiais, e ela zombava que as dele consistiam de ter morado na Indonésia quando tinha 10 anos. 

Dezesseis meses depois de Obama ter surpreendido quase todo mundo ao escolhê-la como sua secretária de Estado, os dois de novo surpreenderam quase todo mundo ao formar uma parceria crível. Hillary provou ser boa em trabalhar em equipe, uma defensora incansável do governo, até mesmo deferente a Obama e cuidadosa em assegurar para que seu marido, o ex-presidente, não se sobreponha ao seu chefe. 

Obama tem sido atencioso com Clinton, às vezes ficando ao lado dela em debates internos, até mesmo mostrando sinais de adotar alguns de seus pontos de vista mais linhas-duras. 

Eles agora brincam sobre seu status de “amigos-inimigos” e fizeram gestos em relação às famílias uns dos outros. Quando Obama soube que Chelsea Clinton tinha ficado noiva, ele se virou para Hillary e perguntou: “Ela gostaria de um casamento na Casa Branca?” lembrou um alto funcionário. (Hillary recusou, dizendo que a oferta era “gentil”, mas “imprópria”.) E quando Hillary viajou para Honolulu em janeiro, ela prestou um tributo à mãe de Obama, Stanley Ann Dunham, em um discurso feito enquanto olhava para um jardim dedicado a ela. 

Ainda assim, não há a profunda familiaridade ou os laços fortes –o acesso 24 horas, informal– de seus antecessores, Condoleezza Rice e George W. Bush, ou olhando mais para trás, entre James A. Baker e o primeiro presidente Bush ou entre Henry A. Kissinger e Richard M. Nixon. 

“Hillary Clinton é a secretária de Estado”, disse David Rothkopf, um ex-funcionário do governo Clinton que escreveu sobre a elaboração da política externa. “A pergunta agora é se ela se tornará uma conselheira de fato e se ele confia nela.” 

Obama tem guardado ciumentamente sua prerrogativa como arquiteto da política externa americana, concentrando na Casa Branca a tomada de decisão em questões cruciais como o Irã, Iraque e Oriente Médio. E Hillary ainda precisa definir uma questão de política externa central, o tipo de papel marcante que permita que sua nascente parceria com Obama se transforme em uma aliança realmente histórica. 

É claro, eles teriam que fazer história primeiro. Até o momento, as ambições de política externa do governo tem sido marcadas mais pela frustração do que realização, de uma Rússia teimosa e uma China desafiadora, até um impasse com o Irã devido ao seu programa nuclear e um conflito cada vez mais profundo com Israel, onde Hillary já expressou de modo alto e claro a insatisfação do presidente. A principal preocupação de política externa de Obama –o conflito no Afeganistão e Paquistão– ainda é uma obra em progresso. 

Entrevistas com mais de uma dúzia de altos funcionários da Casa Branca e do Departamento de Estado, assim como com amigos de Obama e Hillary, sugerem que o presidente e sua mais alta diplomata ainda estão se adaptando à sua aliança. A maioria dos entrevistados falou sob a condição de anonimato para discutir as deliberações internas, mas seus relatos batem com os de outros participantes sempre que possível. Funcionários e associados contam uma história de cultivo meticuloso de amizade e ambição sublimada, de diplomacia realizada por meio de tentativa e erro e reuniões ritualizadas na Casa Branca (ela bebe água; ele come uma maçã). 

Apesar de seus subalternos às vezes resmungarem uns em relação aos outros –alguns dos defensores de Hillary chamam os membros da Casa Branca de “Os Cardeais” (para sugerir o excesso de controle por parte deles), enquanto funcionários de Obama se referem ao Departamento de Estado como “Hillarylândia” (como o campo inimigo era chamado durante a campanha)– Obama e Hillary têm bons motivos para fazer com que seu relacionamento funcione. 

Para Hillary, uma passagem bem-sucedida pelo Departamento de Estado poderia lhe adicionar brilho caso decida concorrer novamente à presidência. Para Obama, manter Hillary satisfeita ajuda a impedir que ela se transforme novamente em uma rival, particularmente caso seus atuais problemas se aprofundem. 

“Nós desenvolvemos, eu acho, um entendimento muito bom, um diálogo realmente positivo sobre tudo que você possa imaginar”, disse Hillary em uma entrevista recente, em seu gabinete no Departamento de Estado. “E tivemos algumas experiências interessantes, até mesmo incomuns, ao longo do caminho.” 

A Casa Branca rejeitou os pedidos para uma entrevista com o presidente. 

Um dança delicada 

Nos primeiros dias do governo, disseram assessores, Obama e Hillary tratavam um ao outro com cautela, usando o vice-presidente Joe Biden como um intermediário informal. 

“Hillary me perguntava: ‘Como você acha que devo apresentar isto ao presidente?’” lembrou Biden em uma entrevista. “E eu dizia: ‘Apenas apresente a ele’. E Barack dizia: ‘Ela sabe que está fazendo um bom trabalho?’ E eu dizia: ‘Diga isso para ela’.” 

Parte disso simplesmente deriva de quem eles são e pelo que passaram. Obama pode parecer distante até mesmo para associados próximos, e perguntas sobre o modo reservado de Hillary levaram à observação memorável de Obama durante um debate: “Você é agradável o suficiente, Hillary”. 

Obama e Clinton usaram publicamente o humor para remover a pungência de sua rivalidade antes tóxica. Em um encontro de cúpula em abril, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, confessou que nunca imaginava que Obama seria eleito presidente. “Bem, nem eu”, brincou Hillary. 

Poucas semanas depois, no jantar da Associação dos Correspondentes da Casa Branca, Obama celebrou seu novo companheirismo com Hillary. “No instante em que ela retornou do México”, ele disse, “ela me deu abraço e um grande beijo –e me disse para ir lá pessoalmente”. O México estava enfrentando na época a epidemia de gripe suína. 

Para assegurar que Obama e Hillary conversassem um com o outro, os funcionários da Casa Branca marcaram as reuniões de 45 minutos nas tardes de quinta-feira. Também participam delas vários assessores, mas Obama frequentemente esvazia a sala no final para conversar com ela de modo privado. Na sessão da semana, por exemplo, os dois discutiram censurar Israel por seu plano de construção de moradias judaicas em Jerusalém Oriental, e Hillary em seguida deu um duro telefonema para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. 

As reuniões são sacrossantas para a secretária: após seu avião ter quebrado na Arábia Saudita no mês passado, uma Hillary frenética abandonou os jornalistas que a acompanhavam para pedir carona ao general David H. Petraeus, o comandante do Comando Central dos Estados Unidos que estava reunido com o rei saudita, para voltar para casa para que não perdesse sua sessão com o presidente no dia seguinte. 

Mas uma reunião pessoal semanal no Escritório Oval está muito longe do acesso que alguns de seus antecessores desfrutaram. Em uma entrevista conjunta com Hillary para a “Newsweek” em dezembro, Kissinger disse que via Nixon todo dia quando ambos estavam na cidade. 

“Eu vejo o presidente quando preciso vê-lo; eu falo com presidente quando preciso falar com ele”, rebateu Hillary em uma entrevista posterior ao “New York Times”. 

Para os funcionários da Casa Branca que poderiam se preocupar com a possibilidade de Hillary estabelecer uma espécie de governo paralelo no Departamento de Estado –ou que ela e Bill Clinton poderiam competir com Obama no palco internacional– ela ofereceu rapidamente uma tranquilização. 

Ela abraçou a mensagem de engajamento do presidente, atravessou o globo para reparar as relações com a Rússia, amolecer o Paquistão e animar os aliados europeus. Na China, ela recuou na questão dos direitos humanos, apesar de ter defendido a causa na conferência da mulher em Pequim, em 1995. Ela defendeu Obama voluntariamente quando ele foi atacado pela direita por ter abandonado os planos do presidente George W. Bush de um escudo de defesa antimísseis na Polônia e República Tcheca. 

Ainda assim, trabalhar para um superastro global pode ser uma experiência humilhante. Na Assembleia Geral da ONU em setembro passado, que representou uma estreia para ambos, Obama participou por quatro dias, em vez dos habituais um ou dois e dominou o evento, deixando Hillary de lado. 

Nos debates sobre políticas, Hillary escolhe com cuidado quando e como agir. Em julho passado, ela apelou a Obama durante um almoço para que enviasse seu marido à Coreia do Norte para libertar as duas jornalistas americanas que estavam presas lá. Os conselheiros do presidente eram contrários à ideia, temendo que a visita interferiria nos esforços para coibir as ambições nucleares da Coreia do Norte. Mas o líder norte-coreano, Kim Jong-il, insistiu em Bill Clinton, e Hillary argumentou que ele atuaria de modo contido. 

“Eu concordo com Hillary”, disse o presidente, segundo um assessor que estava presente naquele dia. 

Tentando definir um papel

Mas não está claro que Hillary teve um papel importante em assuntos mais relevantes. No Oriente Médio, tradicionalmente o coração do portfólio de um secretário de Estado, Hillary parece mais uma executora da visão de Obama do que uma autora de política. A diplomacia no dia a dia na região é realizada pelo emissário especial, o ex-senador George J. Mitchell. E a primeira grande incursão do governo no processo de paz –um esforço infrutífero para persuadir Israel a suspender a construção de assentamentos judeus em troca de gestos árabes em prol de Israel– foi concebida por Obama e seu chefe de Gabinete, Rahm Emanuel. 

No Afeganistão, Obama atendeu ao conselho de Hillary para o envio de mais tropas americanas, mas ela estava seguindo a recomendação do secretário de Defesa, Robert M. Gates. E no Iraque, ele entregou a responsabilidade para Biden. 

“Você pergunta para as pessoas que estão no governo há muito tempo e elas dizem que esta é uma das operações de autoria de política mais centralizadas que já viram”, disse Leslie H. Gelb, presidente emérito do Conselho de Relações Exteriores. 

A ausência de um debate público mais vigoroso dentro do governo, disse Gelb, não resultou em políticas melhores. A Casa Branca buscou “reiniciar” as relações com a Rússia –um esforço que sofreu um revés em Moscou quando as autoridades russas escolheram o dia visita de Hillary, na quinta-feira, para anunciar que uma usina nuclear que a Rússia estava construindo para o Irã entraria em operação na metade deste ano. O governo está ainda mais irritado com a China, porque Pequim está contrariando Obama em tudo, do Irã à mudança climática, da taxa de câmbio aos direitos humanos. 

A determinação de Obama de dialogar com velhos adversários ainda não produziu resultados com o Irã, e seu envolvimento no processo de paz no Oriente Médio até o momento resultou apenas em uma disputa feia com Israel e nada mais. 

“Eles não conseguiram as coisas que queriam”, disse George Friedman, presidente-executivo da Stratfor, uma empresa de análise de risco. “Há muito pouco resultado para mostrar.” 

Zbigniew Brzezinski, o conselheiro de segurança nacional do presidente Jimmy Carter, dá crédito a Obama e Hillary por serem “incomumente criativos e progressivos” na determinação das aspirações da política externa americana. Mas no Oriente Médio, disse Brzezinski, ele está “desconcertado” com o motivo de Hillary e dos outros assessores de Obama não terem determinado antecipadamente o que Obama deveria fazer caso Israel rejeitasse as exigências americanas. 

“Você não entra em um confronto sem perguntar a si mesmo antecipadamente: ‘O que farei se o outro lado disser não?’” disse Brzezinski. 

Mesmo em assuntos menores, a Casa Branca tem buscado fazer com que as coisas saiam do seu modo. Um dos principais conselheiros de política externa de Obama, Denis McDonough, brigou a respeito da indicação de embaixadores com a chefe de Gabinete de Hillary, Cheryl D. Mills, uma negociação que é mais delicada do que o habitual porque a secretária de Estado, como o presidente, quer recompensar aqueles que lhe deram apoio político. E os conselheiros de Obama rejeitaram um plano para dar a Sidney Blumenthal, um confidente de longa data da família Clinton, um cargo de consultoria no Departamento de Estado. 

Funcionários do governo insistem que Hillary participa de todos os principais debates e expressa sua opinião. E eles apontam que ela assumiu a liderança na obtenção de apoio para sanções mais duras contra o Irã. Os líderes iranianos desdenharam o ramo de oliveira de Obama, forçando a Casa Branca a dar andamento a uma campanha de pressão que Hillary há muito considerava inevitável. 

O conselheiro de segurança nacional do presidente, o general James L. Jones, insistiu que Hillary tem algumas políticas próprias, citando o esforço dela para tornar a ajuda ao exterior uma parte mais integral da política externa americana. 

Hillary também assumiu deveres que vão além do seu cargo. A pedido da Casa Branca, ela deu telefonemas a legisladores indecisos para obter o apoio deles para a legislação de reforma da saúde no final do ano passado. Quando a Câmara aprovou seu projeto de lei de reforma da saúde, ela telefonou para o presidente em Camp David para parabenizá-lo. 

Os elogios são mútuos. Certo sábado em outubro passado, Obama recebeu a notícia que de Hillary tinha salvo um pacto para normalização das relações entre a Turquia e a Armênia, após um problema de último minuto que ameaçava arruiná-lo. Ele ligou para Hillary em sua limusine em Zurique para parabenizá-la. “Foi como um cumprimento dado por telefone”, disse um assessor. 

Uma equipe de negociação 

Apesar de todos os esforços orquestrados para demonstrarem parceria, foi necessário o quase colapso da cúpula sobre mudança climática em Copenhague, em dezembro, para que Obama e Hillary trabalhassem juntos sem um roteiro. 

A China e outros grandes países em desenvolvimento não aceitavam um acordo com reduções obrigatórias de emissões. Os europeus estavam declarando o fracasso. Em uma manhã chuvosa, Obama, ao acabar de desembarcar do Força Aérea Um, chegou ao Bella Center, um mega shopping center esvaziado, com suas lojas de roupas e calçados ocupados apenas por manequins. Sua secretária de Estado o recebeu sem aviso. 

“Sr. presidente, esta é a pior reunião da qual participei desde o conselho estudantil da oitava séria”, disse Hillary, segundo funcionários que estavam presentes. As negociações tinham empacado; ninguém sabia o que fazer. Não havia nem mesmo uma reunião agendada para Obama participar. 

Obama e Hillary concluíram que os Estados Unidos precisavam confrontar a China e os outros países. Mas por horas naquele dia, os líderes desses países pareciam estar evitando os dois americanos. De fato, ao finalmente seguirem para um encontro com o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, dois funcionários chineses os barraram. “Ainda não!” eles disseram, fazendo gestos para que fossem embora. 

Obama disparou um olhar para Hillary. “Vamos fazer isso”, ele disse segundo seus assessores. Hillary seguiu em frente, desviando dos funcionários chineses e entrando na sala, onde Wen e os líderes do Brasil, Índia e África do Sul estavam sentados. Houve um espanto coletivo quando Hillary invadiu a sala, sorrindo. E então, logo atrás dela, Obama. “Olá para todos!” ele disse. “Sr. premier, o senhor está pronto para me ver?” 

Sentados lado a lado, Obama e Hillary negociaram por mais de uma hora, elaborando os termos de um acordo como os advogados que são. No final, os países concordaram em monitorar o progresso dos padrões para redução da poluição e em estabelecer um limite para o aumento das temperaturas globais. Foi, segundo os padrões americanos e europeus, um resultado espetacularmente fraco. 

Mas para o presidente e sua secretária de Estado, foi um feito pessoal: eles passaram em seu primeiro grande teste trabalhando juntos no palco mundial. “Foi uma oportunidade para tomarmos uma decisão que não estava no roteiro de ninguém”, disse Hillary na entrevista. “Nós seguimos nossos instintos nisso.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host