UOL Notícias Internacional
 

20/03/2010

Em nome da reforma da saúde, Obama adia outras preocupações do governo

The New York Times
Peter Baker
Em Washington (EUA)
  • Obama defende reforma da saúde em discurso em Strongsville, Ohio (EUA), em 15 de março

    Obama defende reforma da saúde em discurso em Strongsville, Ohio (EUA), em 15 de março

 Em uma sexta-feira no mês passado, as forças americanas entraram na área de Marjah do sul do Afeganistão, dando início à maior operação militar da presidência de Obama. Em cinco semanas desde então, o presidente Barack Obama fez 38 discursos, declarações ou outros comentários públicos, mas não mencionou nenhuma vez a operação.

De fato, em meio a cerca de 100 mil palavras ditas nesses eventos roteirizados durante esse período, os termos “Taleban”, “Marjah” e “terrorista” nunca passaram por seus lábios. Assim como ele não disse nada a respeito da construção de assentamentos em Jerusalém, militantes no Paquistão ou julgamentos de terroristas em Nova York. Em comparação, ele usou as palavras “saúde”, “seguro” ou alguma variação desses termos mais de 750 vezes.

A batalha em torno da reforma da saúde nas últimas semanas tem consumido a presidência de Obama, sem contar o restante da capital do país, ofuscando virtualmente todos os outros assuntos, externos ou domésticos. Apesar de seu governo e o Congresso continuarem trabalhando nas outras áreas, como imigração, energia e empregos, a liderança do país está tão fixada na reforma da saúde que seria fácil pensar que se trata da única questão de real importância.

A decisão de Obama de adiar sua viagem para a Indonésia e Austrália, para fazer lobby pela reforma da saúde, minou seu próprio argumento de que estava dando atenção à região que supostamente foi negligenciada por seu antecessor. E até mesmo alguns democratas temem que seu fracasso em falar sobre o Afeganistão perde a oportunidade de conquistar o apoio da opinião público ao esforço de guerra e de expressar apoio para o trabalho perigoso das tropas.

Reforma da saúde americana

  • Campanha da Casa Branca no Twitter pró reforma da saúde mirou congressistas indecisos, diz especialista

“Ele está preocupado com a reforma da saúde –é seu maior desafio e eu entendo isso”, disse o deputado Ike Skelton, um democrata do Missouri e presidente do Comitê de Serviços Armados da Câmara. “Mas no final do dia, se a Al Qaeda conseguir desferir outro golpe, nós teremos um grande número de americanos mortos. Isso me preocupa. Nós estamos jogando duro lá. Nós estamos jogando de modo sério.”

O presidente, é claro, ainda dedica tempo nos bastidores monitorando o Afeganistão e avaliando outros assuntos. Assessores disseram que seu diálogo pessoal com o presidente da Rússia, Dmitry A. Medvedev, nos últimos dias parece ter resolvido um impasse que impedia um novo tratado de controle de armas. E os assessores estão cuidando das negociações com os legisladores em assuntos como a forma de lidar com os suspeitos de terrorismo.

Mas viagens presidenciais e discursos são ferramentas vitais para enviar mensagens internacionais e chamar atenção em casa, e Obama optou nos últimos dois meses em concentrar essas ferramentas em grande parte na campanha em prol da reforma da saúde.

Tudo isso pode representar um uso inteligente de seu tempo limitado e voz pública, dado quão crítica a reforma da saúde se tornou para sua presidência. Se ele tivesse partido no domingo para Jacarta ou Canberra, enquanto o projeto doméstico central de seu mandato sucumbisse no Capitólio, isso seria visto por muitos como sendo um erro estratégico. Mas os legisladores democratas ficaram descontentes por ele ter mantido a viagem na agenda por tanto tempo, dada a natureza vai ou racha do debate.

Mas a decisão de adiar a viagem até junho ocorreu poucos dias após a Casa Branca descrevê-la como sendo vital, porque, como um funcionário disse aos repórteres, “a América está um tanto ausente da região nos últimos anos e estamos comprometidos em restabelecer essa liderança”.

Agora os Estados Unidos, ou pelo menos o presidente, estarão ausentes da região por mais três meses. Robert Gibbs, o secretário de imprensa da Casa Branca, disse que as alianças regionais “são críticas para a segurança e progresso econômico da América, mas a aprovação da reforma da saúde é de importância vital”. Outros assessores disseram que os governos indonésio e australiano reconheceram que era melhor adiar até um momento em que o presidente não estivesse tão distraído pelos eventos domésticos.

Ainda assim, Michael J. Green, o principal conselheiro para a Ásia do presidente George W. Bush, disse que os governos asiáticos ficaram frustrados pela falta de progresso por parte de Obama na promoção do comércio. “Eles sentem que a reforma da saúde sugou todo o oxigênio da sala”, disse Green.

A falta de atenção pública ao Afeganistão tem incomodado alguns que apoiam a política de Obama. Nos 38 discursos e comentários públicos desde o início da batalha por Marjah, Obama mencionou “Afeganistão” quatro vezes, sempre de passagem –uma vez para reconhecer a presença de uma mulher afegã em um evento do Dia Internacional da Mulher e três vezes para agradecer aos primeiros-ministros grego e irlandês pelas tropas que estão servindo lá.

Fora a reforma da saúde, os principais assuntos nesse período foram empregos, energia e educação. (A contagem cobre os comentários postados no site da Casa Branca, não entrevistas, que geralmente não são divulgadas pela equipe do presidente.)

Aqueles que apoiam o esforço no Afeganistão disseram que é importante o presidente explicar ao público o que os Estados Unidos estão fazendo lá. Peter D. Feaver, um ex-assessor de segurança nacional de Bush, disse que Obama corre o risco de transmitir a mensagem de que “seu coração não está nisso”. Feaver acrescentou: “Mesmo sendo uma suposição injusta, e eu acho que provavelmente é uma suposição injusta, é uma que os aliados ficarão felizes em se apropriar para seus próprios interesses”.

Mas Paul D. Eaton, um general reformado do Exército e um alto conselheiro da Rede de Segurança Nacional, um grupo que defende uma política “progressista de segurança nacional”, disse que o silêncio de Obama não deve ser exageradamente interpretado. “Nós dizemos que ele é um presidente de tempos de guerra, mas ele tem tantos assuntos para tratar no momento”, ele disse. “Eu não me ofendo por um assunto em particular, como a reforma da saúde, ter tomado toda a atenção em Washington, D.C.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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