UOL Notícias Internacional
 

20/03/2010

Tática, perseverança e sorte fizeram a ressurreição da reforma da saúde

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg, Jeff Zeleny e Carl Hulse*
Em Washington (EUA)

A presidente da Câmara dos Representantes Nancy Pelosi estava no limite, e disse isso ao presidente.

Scott Brown, republicano em rápida ascensão, havia acabado de ganhar a corrida pelo Senado em Massachusetts, numa vitória que parecia ter destruído o sonho de Obama de reformar o sistema de saúde do país. O chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel, que já foi braço direito de Pelosi no Capitólio, pressionava Obama para reduzir suas ambições e buscar um projeto de lei mais modesto.

Reforma da saúde americana

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Obama parecia aberto à ideia, embora claramente não fosse sua primeira opção. Pelosi a ridicularizou.

“Saúde infantil”. Foi assim que a porta-voz chamou o plano, em particular, de forma pejorativa.

Numa série de conversas inflamadas, ela revelou sua frustração ao presidente, de acordo com pessoas a par das conversas. Se ela e Harry Reid, líder democrata no Senado, tivessem que se arriscar em prol da prioridade legislativa de Obama, Pelosi queria garantias de que o presidente também o fizesse. Assessores de Obama disseram que ele também queria garantias; ele precisava ter certeza de que os líderes do Congresso poderiam aprovar seu plano de grande alcance.

“Estamos em maioria”, disse Pelosi ao presidente. “Nunca teremos uma maioria melhor em números durante nosso mandato do que temos agora. Podemos levar isso adiante.”

Agora, no que poderá ser a história de ressurreição de Lázaro no Legislativo – ou pelo menos a situação mais dramática do governo de Obama até o momento – a Câmara deve avaliar o projeto de lei da saúde pela última vez, esperam os democratas.

Para Obama, será uma vitória extraordinária se a medida for aprovada. Mas a derrota poderia enfraquecê-lo pelo resto de seus dias no governo.

O fato de Obama ter chegado tão longe – a um triz de aprovar um projeto de lei social histórico – já é um feito notável. Mas a história de como ele fez isso não pertence só a ele. É a história de como um presidente em dificuldades fez uma parceria com dois congressistas experientes – Pelosi e, em menor extensão, Reid – para atingir um objetivo que, segundo Obama, escapou de seus antecessores desde Theodore Roosevelt.

“Estamos muito próximos do cume da montanha”, disse Obama a seus conselheiros próximos numa reunião no final de janeiro, disse um participante. “Precisamos tentar mais uma vez”.

Respondendo à derrocada

As urnas ainda estavam abertas em Massachusetts em 19 de janeiro quando Obama se encontrou no Salão Oval com David Plouffe, seu principal confidente de fora da Casa Branca e ex-gerente de campanha. A vitória de Brown – ele assumiria o lugar do senador Edward M. Kennedy – estava certa, e a supermaioria de 60 votos de Obama no Senado desapareceria repentinamente.

Brown deixou claro suas objeções à legislação sobre a saúde. “Uma coisa está clara”, proclamou ele na noite da eleição, “os eleitores não querem o projeto de lei trilionário da saúde que está sendo empurrado para o povo norte-americano”.

Naquele momento, o presidente não sabia como deveria agir. A Câmara e o Senado haviam aprovado versões diferentes do projeto de lei e não conseguiam entrar em acordo. Os republicanos estavam unidos na resistência. Qualquer que fosse o curso de ação, os auxiliares disseram que Obama insistia que a reforma da saúde não fosse colocada numa “cápsula do tempo”, para nunca mais ser aberta durante seu mandato.

Tom Daschle, um conselheiro próximo ao presidente, disse que Obama sempre acreditou que a reforma da saúde seria o seu legado. “Esta é a razão de sua presidência”, disse ele.

Se havia uma coisa que Pelosi sabia que não conseguiria fazer, era obrigar a Câmara a aprovar o projeto de lei do Senado. Os liberais da Câmara objetaram contra a falta de um plano de saúde do governo, os conservadores acharam que a lei era muito permissiva em relação ao financiamento para o aborto, e toda a Câmara ficou preocupada com os acordos especiais, como o chamado Cornhusker que daria a Nebraska dinheiro extra para pagar pelo Medicaid.

Mas a ação da Câmara em relação ao projeto de lei do Senado foi exatamente o que os senadores democratas queriam quando Obama se dirigiu a eles num retiro político em 3 de fevereiro. Num painel de discussões confidencial que aconteceu depois que o presidente saiu, o conselheiro sênior de Obama, David Axelrod, ouviu poucas e boas sobre a saúde.

O senador Al Franken, democrata de Minnesota, queria saber qual era o plano de Obama, lembra-se um participante, e disse a Axelrod que o presidente precisava da aprovação do projeto do Senado pela Câmara.

“Tudo bem”, respondeu Axelrod. “Se você tiver 218 votos no bolso, nós faremos isso.”

No dia seguinte, o presidente convidou os líderes congressistas democratas para a Casa Branca. Eles tiveram uma conversa franca, em que Pelosi expressou sua frustração por Obama ainda não ter declarado publicamente, e com clareza, o que queria ver num projeto de lei para a saúde. Os dois já tiveram brigas no passado; uma vez, quando Pelosi desafiou o presidente, ele respondeu: “Não sou estúpido”, disse um auxiliar do Congresso.

Mas o senso de urgência depois da derrota democrata em Massachusetts pareceu mudar a química entre o presidente e Pelosi. “Os dois se tornaram verdadeiros parceiros”, disse uma pessoa próxima a ambos.

Entenda como funciona o Medicaid

Naquela noite, Obama deu dicas de sua estratégia. Numa sessão de perguntas e respostas num evento para levantar fundos para o Comitê Nacional Democrata, ele disse que queria que os republicanos, democratas e especialistas em saúde debatessem suas ideias juntos. “E então”, disse ele, “acho que temos que seguir adiante e partir para uma votação”.

No começo de fevereiro, a Casa Branca recebeu notícias da Califórnia de que o governo iria aderir. A Anthem Blue Cross havia alertado a seus clientes de que alguns teriam um aumento de quase 40% em 1º de março.

 “Parecia que estávamos num julgamento”, disse Axelrod a um associado. “Eu tinha acabado de abrir meu BlackBerry para ver a primeira prova.”

Os conselheiros do presidente sabiam que haviam finalmente conseguido uma história que os ajudasse a vender seu plano: um motivo para as pessoas com planos de saúde se preocuparem com o projeto de lei e seu controle de custos.

A história da Anthem também ia ao encontro do que Obama ouvia de seus “conselheiros informais”: as dez cartas que ele lê todos os dias de norte-americanos comuns, selecionadas por auxiliares juniores na sala de correio da Casa Branca. Uma carta, de uma mulher de Ohio chamada Natoma Canfield, chamou atenção. 

Um encontro crucial

A ideia de Obama de fazer uma reunião de cúpula sobre a saúde no final de fevereiro deixou os democratas do Capitólio surpresos. 

Ele sentiu que um evento como este poderia ser um antídoto para as críticas contra Washington expressas pelos eleitores. Pelosi não se opôs, mas não ficou entusiasmada. Alguns democratas do Senado, convencidos de que nunca conseguiriam o apoio republicano, acharam a ideia sem sentido. 

Alguns aliados da Casa Branca agora dizem que a sessão se mostrou essencial para colocar a reforma da saúde de volta na agenda nacional. “Quando forem escrever a história disso tudo, o episódio será visto como um ponto de virada e uma ideia brilhante”, diz Chip Kahn, presidente da Federação de Hospitais Norte-Americanos, que tem sido uma das principais aliadas do governo. 

O evento permitiu que Obama assumisse a postura superior do bipartidarismo; depois da vitória de Brown, ele precisava estender a mão para o outro lado. De forma mais sutil, ele queria obrigar os republicanos a colocarem suas ideias na mesa, para que o público visse o debate como uma escolha entre duas formas de combater um problema premente, e não apenas como um referendo sobre o que os republicanos chamavam pejorativamente de “ObamaCare”. 

Um dia depois da reunião, a Casa Branca utilizou sua arma secreta: Canfield. Numa reunião com executivos dos planos de saúde, Obama leu a carta em voz alta. Canfield escreveu que, 16 anos depois de ser tratada de um câncer, ela foi obrigada a escolher entre pagar a mensalidade de seu plano de saúde ou a de sua casa. (Ela escolheu a casa.) 

Com base em pesquisas de opinião e grupos de discussão, a Casa Branca sabia que a opinião pública parecia estar mudando lentamente, a favor de alguns elementos do projeto de lei. E a história de Canfield permitiu que Obama personalizasse o debate, lembrando aos norte-americanos de que as coisas não se resumiam a números, mas a vidas. O presidente e sua equipe de comunicação não tinham como saber que Canfield logo receberia um novo diagnóstico de câncer, desta vez leucemia. 

A Casa Branca divulgou a carta dela para a mídia. Na mesma hora, equipes de televisão estavam na porta da casa de Canfield. 

A pressão por votos

Na semana passada, com a votação se aproximando e dezenas de democratas da Câmara ainda indecisos – muitos temendo que votar a favor do projeto de lei custe seus empregos –, auxiliares da liderança da Câmara chegaram ao gabinete de Pelosi com uma lista de 68 legisladores para persuadir. Os auxiliares presumiam que a liderança democrata fosse dividir os nomes. 

“Ficarei com todos os 68”, declarou Pelosi. 

Assim como Obama, ela vê a aprovação da legislação como um imperativo moral, e tem sido incansável em manter os membros de seu partido em linha. Inúmeros democratas dizem que sua atitude otimista e persistente os salvou nos dias mais sombrios depois de Massachusetts. Mas ao enfrentar algum membro que ela considerasse irracionalmente resistente, ela podia ser “até assustadora”, disse uma pessoa que participou de suas sessões de estratégia. 

Nesse ponto, o caminho parlamentar estava claro: a Câmara aprovaria o projeto de lei original do Senado e um pacote de mudanças usando o procedimento orçamentário conhecido como reconciliação. Os republicanos acusaram os democratas de usar truques de procedimento e alertaram que a presidente da Câmara estava levando os congressistas a um desastre político. 

Na Casa Branca, o braço político de Obama se mobilizava, com estrategistas rastreando os votos de cada legislador e preparando uma campanha de rádio e televisão para combater os oponentes do projeto de lei, que estavam gastando bem mais que eles. 

Mas foi o presidente, disseram muitos democratas, que fez a maior diferença, oferecendo finalmente o profundo envolvimento pessoal que Pelosi e Reid pediram com insistência. Ele viajou o país em comícios pela reforma da saúde e dedicou horas a persuadir os democratas. 

“Levar isso pelo país, com os discursos, os comícios, levar às companhias de planos de saúde, foi importante”, disse o representante Raul M. Grijalva, democrata do Arizona. “Esse botão estava mudo na Casa Branca.” 

* Jackie Calmes e Eric Lichtblau contribuíram com a reportagem

Tradução: Eloise De Vylder

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