UOL Notícias Internacional
 

25/03/2010

EUA e Rússia concordam em diminuir número de armas nucleares

The New York Times
Peter Baker e Ellen Barry*
Em Washington (EUA)
  • A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, em Moscou

    A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, em Moscou

Os Estados Unidos e a Rússia quebraram o impasse nas negociações para controle de armas e esperam assinar um tratado no próximo mês, visando reduzir seus arsenais nucleares para os níveis mais baixos em meio século, disseram autoridades de ambos os países na quarta-feira. 

Após meses de impasse e adiamento, os dois lados concordaram em reduzir o limite para ogivas estratégicas posicionadas em mais de um quarto e os lançadores pela metade, disseram as autoridades. O tratado imporá um novo regime de inspeção para substituir o que deixou de vigorar em dezembro, mas não restringirá os planos americanos de um escudo de defesa antimísseis baseado na Europa. 

Os presidentes Barack Obama e Dmitri Medvedev planejam conversar na sexta-feira para finalizar o acordo, mas as autoridades disseram que eles estão otimistas de que o acordo está praticamente fechado. Os dois lados deram início aos preparativos para uma cerimônia de assinatura em Praga, em 8 de abril, para marcar o aniversário do primeiro encontro entre os dois presidentes, assim como o discurso de Obama na capital tcheca, no qual expôs sua visão para futuramente livrar o mundo das armas nucleares. 

O novo tratado talvez represente a realização mais concreta em política externa para Obama desde que assumiu o cargo, há 14 meses, e o resultado mais significativo de seu esforço de “reiniciar” o relacionamento problemático com a Rússia. O governo quer usá-lo como forma de ganhar embalo para a cúpula nuclear internacional em Washington, poucos dias após a cerimônia de assinatura, e para uma rodada mais ambiciosa de redução de armas mais à frente em seu mandato. 

“Isso dá um impulso” aos esforços do governo de melhorar os laços com a Rússia, disse Steven Pifer, um alto funcionário do Departamento de Estado sob o presidente George W. Bush, que é especializado em Rússia e questões de controle de armas. “Ainda há muito que fazer e ainda há questões difíceis. Mas as coisas parecem estar transcorrendo bem nos últimos seis meses e isto é positivo para o relacionamento.” 

De modo mais amplo, a Casa Branca espera que o tratado se some à vitória do presidente na luta pela reforma da saúde, demonstrando progresso tanto nas frentes doméstica quanto internacional após meses de frustração com as metas não atingidas. 

O novo pacto de 10 anos substituiria o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START, na sigla em inglês) de 1991, que expirou em dezembro, e amplia ainda mais os cortes negociados por Bush em 2002, no Tratado de Moscou. Sob o novo pacto, segundo as pessoas informadas a respeito em Washington e Moscou, em sete anos cada lado reduziria suas ogivas estratégicas posicionadas das 2.200 atualmente permitidas para 1.550. Cada lado reduziria o número total de lançadores dos 1.600 atualmente permitidos para 800. O número de mísseis com armas nucleares e bombardeiros pesados teria um limite de 700 cada. 

Nem a Casa Branca e nem o Kremlin anunciaram formalmente o acordo na quarta-feira, que dependia de um telefonema final entre os presidentes. Um funcionário do Kremlin, que falou sob a condição de anonimato, disse que há um acordo em relação ao texto do pacto, apesar de sua redação ainda não ter sido concluída. Robert Gibbs, o secretário de imprensa da Casa Branca, disse: “Nós estamos muito perto”. 

Os defensores do controle de armas aplaudiram o progresso. Daryl G. Kimball, diretor executivo da Associação para o Controle de Armas, o chamou de “a primeiro tratado real de redução de armas nucleares pós-Guerra Fria”. Richard Burt, um ex-negociador chefe do START e que agora chefia o grupo pró-desarmamento chamado Global Zero, disse que os dois presidentes “deram um grande passo para atingirem sua meta de zerar (as armas) globalmente”. 

O avanço acabou com quase um ano de negociações tumultuadas, que se arrastaram bem mais do que o previsto. Os dois lados brigaram pela obrigação de verificação, compartilhamento de telemetria e limitação aos programas de defesas antimísseis. Obama reestruturou os planos de Bush para um escudo antimísseis na Europa, mas Moscou também fez objeções à nova versão e queria restrições. Obama se recusou. Os dois presidentes resolveram os desentendimentos durante um telefonema em 13 de março. 

O tratado será enviado para ratificação pelos Legislativos de ambos os países, e a política de ratificação no Senado poderá ser difícil, ocorrendo em um momento polarizado e com as eleições de meio de mandato no horizonte. Os senadores republicanos já expressaram preocupação de que Obama esteja oferecendo concessões inaceitáveis. A ratificação no Senado exige 67 votos, o que significa que Obama precisaria do apoio dos republicanos. 

Os senadores Mitch McConnell, do Kentucky, e Jon Kyl, do Arizona, os líderes republicanos, escreveram para Obama na semana passada alertando que esta ratificação é “altamente improvável” se o tratado contiver qualquer ligação vinculante entre as armas de ataque e a defesa antimísseis, o recordando de sua posição de que “o escudo antimísseis não está na mesa de negociação”. 

Os funcionários do governo que descreveram a minuta do tratado disseram que seu preâmbulo reconhece a relação entre armas de ataque e a defesa antimísseis, mas que a linguagem não é vinculante. O tratado estabelece um novo regime de inspeções, mas a equipe de monitoramento americana baseada na fábrica de produção de mísseis em Votkinsk, até a expiração do START, não seria autorizada a retornar de modo permanente. 

Analistas russos disseram que Moscou ficou contente com a redução do regime de inspeção exigido pelo START, que considerava altamente intrusivo, mas decepcionado por não ter obtido as restrições à defesa antimísseis. Os militares pressionavam o Kremlin a não aceitar reduções de armas sem limitações ao escudo antimísseis americano, apesar de tanto Bush quanto Obama terem dito que ele é voltado ao Irã, não à Rússia. No final, o Kremlin passou por cima dos militares porque queria uma realização na política externa. “Os militares não têm mais a influência que tinham nos tempos soviéticos”, disse Anton V. Khlopkov, diretor do Centro para Estudos de Energia e Segurança, em Moscou. “Naquela época, os militares, quando não estavam no comando do governo, eles estavam entre aqueles que lideravam as negociações de controle de armas pelo lado soviético. Agora eles têm um papel bem menor.” 

Vladimir Z. Dvorkin, um general reformado e consultor de controle de armas, disse que Moscou manterá a capacidade de abandonar o novo tratado caso as defesas antimísseis americanas se tornem uma ameaça. “Se, por exemplo, os Estados Unidos posicionarem unilateralmente quantidades consideráveis de defesas antimísseis, então a Rússia teria o direito de se retirar do acordo, porque o espírito do preâmbulo teria sido violado”, ele disse. 

Obama se encontrou na quarta-feira na Casa Branca com os senadores John Kerry, de Massachusetts, e Richard G. Lugar, de Indiana, os líderes democrata e republicano no Comitê de Relações Exteriores do Senado, para informá-los sobre as negociações. Kerry disse que não convocaria audiências entre a Páscoa e o Memorial Day a respeito do controle de armas e prometeu agir até o final do ano. “Eu asseguro ao presidente de que apoiamos fortemente seus esforços e que se as negociações finais e tudo mais prosseguir tranquilamente, nós trabalharemos para assegurar que o Senado possa votar o tratado neste ano”, disse Kerry. 

*Reportagem de Peter Baker, em Washington (EUA), e Ellen Barry, em Moscou (Rússia). Clifford J. Levy, em Moscou, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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