UOL Notícias Internacional
 

27/03/2010

Um herdeiro político filipino pronto para assumir o manto

The New York Times
Norimitsu Onishi
Em Quezón (Filipinas)
  • O candidato à presidência da Filipinas Benigno S. Aquino 3º durante comício

    O candidato à presidência da Filipinas Benigno S. Aquino 3º durante comício

Filho único do casal, ele nunca demonstrou a ambição política bruta de seu pai ou seu senso de um lugar predestinado na história do país. Ele exerceu, de modo mais parecido com o de sua mãe, um papel público discreto, como era esperado dele até as circunstâncias o forçarem a agir.

Benigno S. Aquino 3º, 50 anos, apesar de ser o único filho de dois ícones da democracia das Filipinas, teve uma carreira discreta, não notável como legislador, ofuscado pelos inúmeros políticos de sua geração. Como ele mesmo admitiu, ele nunca se imaginou liderando este país. Mas agora ele se vê como o líder nas pesquisas para a eleição presidencial de 10 de maio.

A reação emocional do país à morte de sua mãe, a ex-presidente Corazón Aquino, em agosto passado, levou aos pedidos para sua candidatura. Após certa indecisão, Aquino, conhecido como Noynoy, aceitou, apesar de não antes de passar meio dia dentro de um convento em busca de orientação.

“Havia vozes demais dizendo ‘Concorra’, ‘Não concorra’, como concorrer, o que fazer”, ele disse. “Aquilo teve um efeito calmante em mim. Me ajudou a colocar em ordem os pensamentos que estavam na minha cabeça.”

Um quarto de século atrás, sua mãe também visitou um convento antes de aceitar concorrer contra Ferdinand Marcos, o autocrata apoiado pelos americanos cujos soldados mataram seu marido, Benigno S. Aquino Jr., o líder da oposição conhecido como Ninoy, no aeroporto de Manila. Após Marcos ter tentado fraudar a eleição, Corazón foi conduzida à presidência pela força do “poder popular”, um protesto não violento, em grande escala, na capital.

Após ser perguntado se sentia dúvidas, Aquino, que é solteiro, disse: “Bem, sabe como é, meus amigos que se casaram me disseram que resolveram muitas dúvidas antes de subirem ao altar. Mas no altar em si, ainda havia algumas dúvidas brotando em suas mentes”.

Restando menos de dois meses para a eleição, parte da emoção popular que cercava a morte de sua mãe perdeu intensidade e a vantagem de Aquino nas pesquisas começou a encolher, talvez em consequência. As críticas de que ele oferece pouco além da linhagem foram acentuadas pelo fato de que seu rival mais próximo, o senador Manuel Villar, ascendeu da pobreza para se tornar um dos empresários mais ricos das Filipinas.

Em uma manhã recente, em um bairro de classe média, Aquino ficou sentado por quase 90 minutos na casa da família, uma casa térrea modesta que pertence aos Aquinos desde 1961. É onde Corazón viveu até sua morte e onde seu filho atualmente vive sozinho.

Em uma sala de estar dominada por retratos de seus pais, Aquino falou em canalizar o movimento do poder popular de sua mãe para a vitória. Ele prometeu romper com a cultura política corrupta das Filipinas, tentando explorar o amplo desencanto com a profundamente impopular presidente Gloria Macapagal Arroyo, que está impedida de concorrer de novo devido às limitações de mandato.

“Nós acreditamos que esta é uma campanha do povo, então nossos chefes estão claramente definidos”, ele disse em uma voz rouca devido à campanha e ao fumo.

Sem recorrer a anotações ou consultar assessores, Aquino falou longamente sobre suas prioridades para as Filipinas: a criação de empregos e o fortalecimento da educação, da saúde e da Justiça. Ele pretende recalibrar as relações de seu país com os Estados Unidos, uma ex-potência colonial aqui.

Desde 2002, as Forças Especiais americanas estão atuando no sul das Filipinas, treinando as forças armadas filipinas na caça de extremistas islâmicos. Apesar de Aquino dar crédito aos americanos pelo aumento da “capacidade” das forças armadas filipinas, ele disse que a força americana não deve se tornar “semipermanente ou permanente”. Ele também disse que o Acordo para Forças Visitantes, o pacto bilateral que permite às forças armadas americanas manterem militares sob custódia durante processos criminais aqui, “terá que ser revista”.

“Às vezes eu tenho a impressão de que em nosso relacionamento com a América, eles parecem seguir o exemplo de uma corporação que precisa apresentar um relatório anual aos seus acionistas, em vez de pensarem em gerar um relacionamento de longo prazo”, ele disse.

Os debates políticos e lealdade partidária têm pouca influência no resultado da campanha eleitoral nas Filipinas, onde as famílias dominam.

Assim, seus comícios de campanha são pontuados por cores, simbolismo e música que evocam, em seus eleitores na maioria de classe média, o martírio de seu pai e a promessa do levante do poder popular de sua mãe –deixando de lado o retrospecto mais ambíguo de Corazón Aquino como presidente.

Dentro de um estádio aqui, Aquino subiu ao palco ao som de “Tie a Yellow Ribbon Round the Ole Oak Tree”, a canção que foi o tema do movimento de seus pais e que lembra os característicos vestidos amarelos de sua mãe. O evento foi encerrado com “The Impossible Dream” (o sonho impossível), a canção favorita de seu pai, um político precocemente bem-sucedido que passou a personificar a oposição democrática a Marcos. Antes de ser morto, o pai transferiu suas ambições ao seu único filho, em uma carta cujo conteúdo foi destacado no comício: “Filho, a bola agora está em suas mãos”.

Aquino, que tem quatro irmãs, disse que seu pai tinha grandes expectativas em relação a ele por ser seu único filho.

“Quando eu era mais novo, a certa altura eu era o terceiro melhor da minha classe. Eu estava realmente orgulhoso de ser o terceiro melhor, porque os outros dois eram realmente nerds que eu não conseguia me imaginar sendo”, ele lembrou. “E meu pai disse: ‘Por que apenas o terceiro?’”

Mas a exploração por Aquino do legado de seus pais, somado ao seu modesto retrospecto legislativo, começou a atrair cada vez mais críticas.

“Ele não pode depender para sempre do seu nome e dos seus pais”, disse Bobby Tuazon, diretor do Centro para Empoderamento do Povo na Governança da Universidade das Filipinas. “Está ficando óbvio demais.”

Seus defensores dizem que Aquino não conseguiu propor leis simplesmente por estar na oposição. Mais do que qualquer coisa, seus defensores apontam para a honestidade de Aquino, apesar de alguns se perguntarem se ele será durão o bastante para frear o tipo de corrupção que floresceu no governo de sua mãe, que também era considerada pessoalmente honesta.

Os críticos dizem que Aquino, como sua mãe, será incapaz de promover políticas, como a reforma agrária, que vão contra os interesses de sua família estendida.

“Todos os principais candidatos possuem programas econômicos semelhantes”, disse Alberto Lim, diretor executivo do Makati Business Club, uma organização influente. “O motivo para apoiarmos Noynoy é porque ele não usou seu cargo no governo para enriquecer seus negócios.”

Outros eleitores também expressam seu apoio a Aquino, mas, de modo revelador, de forma defensiva. Ele é amplamente considerado um candidato tépido na campanha que, apesar de ter melhorado seu discurso público, raramente empolga as multidões.

Leah Navarro, uma cantora proeminente que está ajudando na campanha de Aquino, disse que ele “vem de bom berço”.

Ela acrescentou: “Ele emana uma autoconfiança serena. Ele não é espalhafatoso. Ele não é chamativo. Não é como dançarinas de minissaia”.

Aquino diz que gosta de conhecer as pessoas nos comícios, mas que não gosta do que descreve como “aspectos de circo” da campanha. Ele permitiu que sua irmã Kris, uma das entertainers mais famosas do país, escolhesse novas roupas para ele. Mas ele rejeitou o conselho para tratar seu cabelo que está ficando ralo ou receber injeções de Botox.

Ele disse que se sente à vontade sendo ele mesmo, apesar de estar ciente de que inevitavelmente os eleitores o comparam aos seus pais.

“Eu nunca busquei competir com eles, porque acredito que se trata de um teste impossível”, ele disse. “Logo após a morte de seu pai, esses simpatizantes ardorosos diziam que eu ainda estava muito longe do meu pai.”

“Como alguém pode competir com uma ideia?” ele acrescentou, mencionando a luta de seus pais pela democracia. “Isso seria um empreendimento inútil da minha parte. Eu me concentrei em assegurar que os sacrifícios deles não fossem arruinados.”

 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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