UOL Notícias Internacional
 

30/03/2010

Vencedor das eleições legislativas no Iraque rebate críticas sobre apoio do partido de Saddam

The New York Times
Rod Nordland e Tim Arango
Em Bagdá (Iraque)
  • Ayad Allawi, ex-primeiro-ministro do Iraque, durante entrevista em Bagdá, capital do país. Vencedor das eleições legislativas no Iraque, o ex-opositor de Saddam diz que quer formar um governo de coalizão

    Ayad Allawi, ex-primeiro-ministro do Iraque, durante entrevista em Bagdá, capital do país. Vencedor das eleições legislativas no Iraque, o ex-opositor de Saddam diz que quer formar um governo de coalizão

Ayad Allawi raramente fala publicamente sobre uma noite há mais de 30 anos, quando dois assassinos empunhando machados transformaram seu quarto em Londres em um matadouro. 

Agora, determinado a rebater as acusações feitas por seus inimigos políticos de que ele venceu as eleições nacionais do Iraque ao apelar aos baathistas e após iniciar uma briga com o primeiro-ministro Nouri Kamal al Maliki para formar um governo, ele contou essa história no meio de uma entrevista na segunda-feira. 

“Eu estava dormindo e apenas abri meus olhos por pura sorte, quando vi uma sombra ao lado da cama”, ele disse, descrevendo as primeiras horas da manhã de 4 de fevereiro de 1978, quando morava em Kingston upon Thames, na condição de um exilado e estudante de medicina após romper com o Partido Baath de Saddam Hussein. 

Allawi disse que deu um chute no homem enquanto ele desferia um golpe de machado, quase cortando sua perna. Uma luta sangrenta se seguiu, com sua esposa pulando nas costas de um dos homens, e Allawi arrancando um dos machados e contra-atacando, até que o segundo agressor acertou uma machadada em sua cabeça. Sua esposa, Ettor, morreu posteriormente devido aos seus ferimentos. Allawi estava tão gravemente ferido que eles o deixaram para morrer, mas não antes dele gritar para eles enquanto partiam, como ele recorda: “Digam para Saddam que vou sobreviver a isso e eu vou arrancar seus olhos”. Ele ri nervosamente de quão brutais essas palavras de tanto tempo atrás soam agora. 

É uma história que parece voltada a repercutir junto aos iraquianos que suspeitam de um homem que atraiu um grande percentual do voto sunita, e que precisa frustrar os esforços das coalizões xiitas que ameaçam se unir para impedi-lo de se tornar de novo primeiro-ministro. Ele e Al Maliki estão tentando reunir votos suficientes para obter uma maioria entre as 325 cadeiras no Parlamento. 

Os agressores de Allawi nunca foram encontrados; ele disse que a Scotland Yard lhe disse que eles eram agentes da inteligência iraquiana. Ele precisou de um ano e dez operações para se recuperar do ataque de 1978, assim como outro ano de fisioterapia. Posteriormente ocorreram várias tentativas frustradas por parte de seu grupo de exilados políticos, o Acordo Nacional Iraquiano, trabalhando em conjunto com a CIA, de derrubar Saddam. 

Ao longo do caminho, ele se tornou um reumatologista, trabalhando como especialista em cirurgia da coluna vertebral durante seu exílio em Londres. Quando os americanos ocuparam o Iraque, ele foi nomeado primeiro-ministro interino do país em 2004, mas então terminou em um distante terceiro lugar nas eleições nacionais do Iraque, em janeiro de 2005. 

O retorno surpreendente de Allawi o colocou contra Al Maliki, a quem ele derrotou por uma maioria de votos de 91 a 89, apesar da Comissão de Prestação de Contas e Justiça do país –antes conhecida como Comissão de Desbaathificação– ter invalidado as candidaturas de centenas de seus partidários, alegando que eram ex-baathistas, e das forças antiterrorismo do governo terem prendido vários de seus candidatos. 

Ele confirmou que a comissão estava tentando invalidar mais dez de sua lista Iraqiya de vencedores parlamentares, o que potencialmente poderia lhe tirar sua maioria estreita. A comissão diz que isso significa que as cadeiras deles serão canceladas, enquanto a Alta Comissão Eleitoral do Iraque mantém que o Iraqiya poderá substituir aqueles que forem afastados por outros membros de sua aliança. A disputa provavelmente irá parar nos tribunais. 

O ódio aos baathistas é profundo entre os políticos xiitas, assim como as suspeitas em relação às motivações dos sunitas; muitos xiitas, que representam 60% da população, veem o apoio sunita a Allawi como uma forma disfarçada de apoiar o velho governo. 

“Eles sabem que isso não é verdade”, disse Allawi, 64 anos. “Eles sabem que eu combati Saddam e seu regime por mais de 30 anos, mais do que qualquer outra pessoa neste governo. Eles sabem que combati os baathistas, a ideia dos baathistas.” 

“Aqueles que cometeram crimes devem enfrentar a Justiça, e as centenas e milhões de pessoas que nunca cometeram crimes, estas devem ser perdoadas e ter direito a fazer parte e participar da sociedade iraquiana”, ele disse. 

Não ajuda o fato de alguns de seus partidários o compararem favoravelmente a Saddam, e dos entusiastas em seus comícios poderem ser ouvidos cantando: “Nós sacrificaremos nosso sangue e nossas almas por você, Allawi”. Esse era o canto de Saddam, cunhado durante a guerra Irã-Iraque. 

Mesmo alguns de seus simpatizantes repetem com admiração as histórias que o mostram como um homem forte, com algumas das qualidades de Saddam que muitos iraquianos parecem admirar. Enquanto foi primeiro-ministro, eles dizem, ele atirou pessoalmente em vários insurgentes capturados. “Eu não mato pessoas”, ele disse. “Tudo isso é invenção.” Então ele acrescentou: “Eu sou duro contra as pessoas que violam a lei, porque acredito na supremacia da lei”. 

Ele também tem uma reputação merecida como cabeça-dura e volátil; quando ele visitou pela primeira vez os Estados Unidos na condição de primeiro-ministro, seu antebraço estava enfaixado e muitos disseram que foi porque ele esmurrou furiosamente sua mesa. 

As autoridades americanas evitaram cuidadosamente expressar qualquer preferência por Allawi ou Al Maliki, mas elas tiveram um relacionamento amistoso com ele durante seu mandato. “Allawi demonstrou habilidade para tomar e executar decisões difíceis em segurança e outros assuntos”, disse Meghan O’Sullivan, na época uma autoridade da ocupação americana e que atualmente é professora em Harvard. 

Allawi criticou as prisões de seus seguidores pelo governo de Al Maliki, particularmente a de Najim al Harbi, que era o candidato com mais intenções de voto de sua lista Iraqiya em Diyala, uma província mista xiita e sunita. Ele está detido em um local não revelado, sem acesso a um advogado, disse Allawi, por acusações de terrorismo. “A Comissão de Desbaathificação está trabalhando arduamente e provavelmente desbaathificará os 91 candidatos que venceram”, ele disse, prevendo que a comissão invalidará seus candidatos. 

“Eu posso dizer com confiança que se as coisas saírem como eles querem e eles começarem a distorcer as coisas, eu asseguro que este país será engolfado pela violência e que a violência não permanecerá dentro do Iraque. Ela se espalhará”, ele disse. 

Independente dele ter sucesso ou não em formar um governo, é improvável que sua família se junte a ele no Iraque, ele disse. “Meus filhos e minha esposa estão Londres porque não podem vir para cá”, ele disse. Ele se casou de novo após a morte de sua primeira esposa. “Que escolas frequentariam aqui? Os filhos de Ayad Allawi, o que fariam com eles? Eles seriam mortos.” 

Sua conversa retornou à noite em Kingston upon Thames. “Quando eu enfrentei aqueles homens que tentaram me matar e depois quando combati Saddam, eu passei por um momento muito difícil”, ele disse, “mas eu não me assusto facilmente”. 

Sa’ad al Izzi contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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