UOL Notícias Internacional
 

31/03/2010

Vaticano e papa tropeçam na resposta à crise dos abusos sexuais

The New York Times
Rachel Donadio e Daniel J. Wakin
Na Cidade do Vaticano

O Vaticano tem reforçado sua defesa de como o papa Bento 16 e a Igreja lidaram com um crescente escândalo de abuso sexual. Mas rechaçar as críticas tem se mostrado difícil para este papado, que está sendo definido por erros e dificuldades em transmitir sua mensagem. 

Mesmo enquanto o porta-voz do Vaticano, o padre Federico Lombardi, dizia que a crise ameaçava a “credibilidade moral” da Igreja, ele reconhecia em uma entrevista nesta semana que não discutiu pessoalmente a crise dos abusos com o papa, um fato que ele atribuiu à estrutura do aparato de comunicações do Vaticano. 

“O papa nunca evitou os problemas da Igreja”, disse Lombardi sobre a questão dos abusos sexuais em uma entrevista na segunda-feira. “Ele sempre expressou sua profunda dor e profunda consciência da seriedade do que aconteceu.” 

Mas essa mensagem pode não estar chegando ao seu destino, disseram analistas do Vaticano, em parte porque Bento 16, um teólogo reservado há muito imerso nas questões doutrinárias, parece ter pouco interesse nas comunicações. 

“Eu não acho que você verá o Vaticano lidando com algo assim da mesma forma que uma grande empresa de relações públicas americana faria, com grandes coletivas de imprensa”, disse um arcebispo americano que falou sob a condição de anonimato, para evitar problemas nas relações com a Santa Sé. “Eles estão um tanto defensivos no momento, convencidos de que se trata de uma vingança contra o Santo Padre.” 

Mas ao mesmo tempo, disse o arcebispo, a burocracia entrincheirada também dificulta para o Vaticano apresentar sua posição publicamente. “Eu não acho que exista muita discussão”, ele disse, acrescentando que não há “muita consideração” por “relações públicas”. Ele prosseguiu: “É uma espécie de ingenuidade sobre como enfrentar esses desafios significativos de uma forma que chegue até as pessoas nos bancos das igrejas”. 

A pressão sobre Bento 16 se tornou particularmente intensa devido às dúvidas sobre o papel do papa, como arcebispo de Munique três décadas atrás, na forma como foi tratado o caso de um padre pedófilo que foi autorizado a retornar ao trabalho pastoral. O Vaticano insistiu que Bento 16 não teve responsabilidade pelo assunto e um de seus assessores assumiu a culpa. 

O Vaticano tende a rotular essa cobertura da imprensa como “ataques” que “sem dúvida provaram ser danosos”. Mas o Vaticano se recusa a discutir o papel do papa em qualquer detalhe, insistindo que a Igreja já demonstrou amplamente a “não responsabilidade” do papa no assunto. “Não seria certo ele assumir responsabilidade pessoal por coisas ou erros que ele não cometeu”, disse Lombardi na entrevista. 

Segundo os padrões de qualquer Estado secular ou corporação multinacional, essa resposta poderia parecer indiferente. Mas segundo os padrões do Vaticano, uma monarquia burocrática, lenta, que tende a se comunicar indiretamente e em código –o sucessor de São Pedro geralmente não dá coletivas de imprensa– a resposta é vista como relativamente contundente. 

A resposta mais forte de Bento 16 à mais recente crise foi uma longa carta, no início deste mês, aos católicos romanos na Irlanda, após os relatórios do governo documentando o acobertamento por décadas de muitos abusos sexuais. 

Na carta, ele falou dos “sérios pecados cometidos contra crianças indefesas” e culpou diretamente os bispos da Irlanda. “Devem ser reconhecidos os graves erros de julgamento que foram cometidos e os fracassos de liderança que ocorreram”, disse Bento 16. O papa pediu uma investigação especial do Vaticano em dioceses não especificadas. 

Ele também aceitou a renúncia de dois bispos irlandeses e vários outros também ofereceram sua renúncia. Mas sua abordagem foi considerada inadequada por alguns críticos irlandeses, que criticaram Bento 16 por não disciplinar os bispos que foram cúmplices no acobertamento. 

A relutância do papa em defender penas específicas para os bispos que cometeram erros no tratamento desses casos repercutiu após ter vindo à tona que Bento 16 recebeu, em Munique, um memorando sobre o retorno ao trabalho de um padre que cometeu abusos enquanto o futuro papa era arcebispo lá, em 1980. O Vaticano insistiu que Bento não teve conhecimento de que o padre, que posteriormente molestou outras crianças, tinha retornado ao trabalho. 

Os críticos de Bento também citaram o caso de um padre de Wisconsin e molestador em série, que não foi afastado da Igreja apesar dos apelos diretos por carta do arcebispo de Milwaukee ao futuro papa, quando ele comandava o escritório doutrinário do Vaticano, a Congregação para a Doutrina da Fé, segundo documentos fornecidos por um advogado que está processando a Igreja em nome das vítimas. O Vaticano disse que a idade avançada e saúde ruim do padre, além de que muitas décadas se passaram desde o abuso, justificavam o seu não afastamento do clero. 

Os defensores de Bento dizem que ele deve ser creditado pela melhora da resposta da Igreja aos casos de abuso e por agir especificamente em pelo menos um caso de destaque, uma investigação do fundador da ordem religiosa Legionários de Cristo, após esses casos terem sido consolidados sob seu controle em 2001. 

Em uma entrevista na segunda-feira, Lombardi disse que não discutiu a crise dos abusos sexuais com Bento 16. “Não, eu preciso ser honesto”, ele disse. Mas ele disse que foi “algo que obviamente discuti muito com o secretário de Estado nas últimas semanas”, ele disse, falando sobre o cardeal Tarcisio Bertone, ex-vice de Bento 16 na Congregação para a Doutrina da Fé. “Eu não considero como sendo uma tarefa pessoal ser o porta-voz do papa, mas sim como uma institucional”, disse Lombardi, acrescentando que também supervisiona a Imprensa do Vaticano, assim como a Rádio do Vaticano. 

De muitas formas, Lombardi, um padre jesuíta bem intencionado e sobrecarregado, representa um contraste em relação ao antigo porta-voz do papa João Paulo 2º, Joaquín Navarro-Valls, um psiquiatra e jornalista hábil em moldar uma mensagem e que fazia parte do círculo interno de João Paulo 2º. 

“A expectativa por uma resposta pública do papa foi criada por João Paulo 2º”, disse Paul Elie, autor de um livro sobre os escritores católicos do século 20 que escreviam do Vaticano. “João Paulo disse e fez tantas coisas dramáticas em público que as pessoas, naturalmente, agora esperam que o papa atue de forma pública e dramática em uma crise.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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