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05/04/2010

Artistas escavam pistas científicas para pintar retratos do passado

The New York Times
Carl Zimmer
  • Ilustração na capa da revista Science simula a aparência de Ardi, fóssil achado na Etiópia

    Ilustração na capa da revista Science simula a aparência de Ardi, fóssil achado na Etiópia

Em algum lugar da Inglaterra, 600 anos atrás, um artista sentou-se para pintar um elefante. Havia apenas um problema: ele jamais tinha visto um elefante.

O artista estava ilustrando um livro que hoje é conhecido como “O Bestiário de Anne Walshe”, um guia sobre animais.

Para pintar um elefante, ele não podia voar até o Quênia e examinar o animal ao vivo ou visitar um zoológico. Ele não podia assistir o DVD de David Attenborough, conhecido apresentador da série “O Planeta Terra”, nem procurar fotos na internet.

As únicas pistas que o artista poderia encontrar estavam nas histórias e mitos preservados nos livros antigos.

Nestes livros, ele pode ter descoberto que os elefantes não se ajoelham ou não se interessam por sexo. Havia ilustrações de elefantes, porém elas eram pintadas por artistas que também jamais tinham visto esses animais.

No final, o ilustrador do “Bestiário de Anne Walshe” produziu uma interessante mistura de suposições. Seu elefante se parece com um bull terrier com patas de camelo e um aspirador no lugar do nariz.

Os artistas ainda pintam coisas que eles não podem enxergar na vida real. Mas, em vez de ficarem a milhas de distância de seus modelos, hoje eles estão separados por milhares de anos – às vezes milhões.

Felizmente, hoje suas imagens podem se basear em informações científicas.

Entretanto, eles não podem eliminar o vácuo entre a realidade e a imagem.

No mês passado, por exemplo, o retrato de um homem de 4 mil anos apareceu na capa da revista Nature. A foto comemorava o sequenciamento completo do genoma de um antigo habitante da Groenlândia.

Em um grande trabalho técnico, uma equipe de cientistas extraiu o DNA de tufos de cabelo coletados na Groenlândia em 1986 e armazenados em um museu da Dinamarca desde então.

Os cientistas descobriram que o dono do genoma da Groenlândia, cujo apelido era Inuk, não era parente próximo dos nativos da América do Norte. Na verdade, seu DNA o associa ao povo chukchi, da Sibéria.

A nova pesquisa sugere que a Groenlândia foi colonizada por uma onda migratória separada, vinda da Ásia.

Eles então observaram os marcadores de genes individuais, os quais haviam sido associados a características particulares nos estudos anteriores. E descobriram, por exemplo, que o tipo sanguíneo de Inuk era A positivo.

Outras variantes genéticas do DNA de Inuk se relacionam com a aparência física. Algumas se referem a um alto índice de massa corporal, outras aos olhos castanhos e ao cabelo grosso e escuro. Inuk tinha uma variante genética associada a uma dentadura superior frontal em forma de colher e até mesmo um gene associado à calvície.

O artista Nuka Godtfredsen utilizou estas pistas para pintar o retrato de Inuk e estudou fotografias do povo chukchi para definir como seria o rosto.

Ele também notou que, apesar da propensão genética de Inuk para a calvície, seus tufos de cabelo tinham quase 20 centímetros de comprimento. Como acordo, ele mudou o corte de cabelo.

O retrato feito por Godtfredsen é plausível, mas não fotográfico. É impossível identificar um indivíduo em uma lista policial com base somente no genoma. Cabelos escuros, olhos castanhos e tipo forte são características de milhares de pessoas que habitam o ártico atualmente.

Também é importante lembrar que os genes raramente determinam os traços. Pelo contrário, eles tendem a se associar a eles. Assim, não podemos ter certeza de que por ter o gene da calvície Inuk tenha ficado careca. É possível que ele tenha morrido cedo demais para saber.

Quanto melhor o retrato, mais fácil é esquecer a complexidade científica que está por trás dele.

Em outubro, o paleoartista Jay Matternes ofereceu um belo retrato de um parente dos humanos de 4,4 milhões de anos, chamado Ardipithecus ramidus.

Matternes foi convidado a pintar o hominídeo por seus descobridores, uma equipe de cientistas americanos e etíopes, que haviam escavado e analisado ossos de Ardipithecus desde o início da década de 90 e finalmente estavam prontos para publicar uma descrição detalhada.

No retrato pintado por Matternes, o Ardipithecus não se parece com nenhum ser humano de hoje. Ele possui mãos e pés longos e uma face redonda, como um macaco, mas se mantém erguido sobre dois pés como os humanos.

Matternes trabalhou muitos anos com os cientistas na reconstrução do Ardipithecus. Primeiro ele desenhou o esqueleto, para então adicionar os músculos e no final, a pele e o cabelo.

Matternes infundiu no retrato um profundo conhecimento artístico de anatomia. Mas não deixa de ser uma hipótese científica.

Os cientistas mantêm o Ardipithecus erguido sobre os dois pés, com base nas formas dos ossos dos pés, pernas, pélvis e coluna. Porém, esses ossos não estão perfeitamente preservados e os cientistas não poderiam simplesmente juntá-los como se fosse um jogo de Lego.

A pélvis estava tão fragmentada que eles precisaram utilizar um scanner de tomografia computadorizada para criar modelos tridimensionais de seus pedaços e mais tarde analisá-los com ajuda do computador.

Em consequência disso, outros especialistas não estão completamente convencidos a endossar a visão do Ardipithecus pintada por Matternes. Mas isto não significa que ele esteja enganando alguém, e sim que nós, os observadores, precisamos ter em mente como o passado é reconstruído pelos cientistas.

Matternes só pode tentar adivinhar a cor do Ardipithecus observando os macacos vivos. Isso mostra que os fósseis mais antigos guardaram as pistas sobre sua cor.

No mês passado, a revista Science publicou uma aquarela de um dinossauro emplumado de 150 milhões de anos, chamado Anchiornis (o Anchiornis é um antepassado dos pássaros).

A pintura, executada pelo artista Michael DiGiorgio, mostra que o dinossauro tinha uma coroa de plumagem avermelhada, a face matizada, o corpo cinza chumbo e grandes listras brancas nas asas.

DiGiorgio baseou sua pintura em uma nova análise do fóssil do Anchiornis. Junto com os ossos, o fóssil também preservou as plumas de todo o corpo.

Pois nestas plumas há estruturas microscópicas chamadas melanossomas. O tamanho, a forma e a disposição dos melanossomas ajudam a dar cor às plumas dos pássaros. O novo estudo sobre o Anchiornis é uma marca da primeira vez em que os cientistas conseguiram usar os melanossomas para mapear as cores do corpo inteiro de um dinossauro.

Assim como Matternes e Godtfredsen, DiGiorgio passou um longo tempo planejando sua pintura. Em primeiro lugar, ele desenhou o corpo do Anchiornis conforme o estudo feito de seu esqueleto.

DiGiorgio, que costuma pintar pássaros, lembrou-se dos papa-léguas e assistiu vídeos sobre pássaros para captar idéias sobre a postura do dinossauro. Ele trocou desenhos com paleontologistas durante semanas antes de adicionar as plumas.

Vale lembrar que as plumas não eram iguais às dos pássaros de hoje; elas cobriam o corpo inteiro do Anchiornis, até mesmo suas patas.

No entanto, por mais detalhada que possa ser, a pintura de DiGiorgio não conta toda a história do Anchiornis. Os melanossomas não são as únicas estruturas responsáveis pela coloração da plumagem. Por isso, o Anchiornis pode ter tido outras cores que tenham se perdido no tempo. Na melhor das hipóteses, DiGiogio pode dar ao Anchiornis uma cor aproximada.

Ainda assim, é melhor do que nenhuma cor. E é muito melhor do que um modelo tirado das páginas de um bestiário.

Tradução: Cláudia Lindenmeyer

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