UOL Notícias Internacional
 

05/04/2010

No sistema de saúde americano, um sempre paga pelos hábitos do outro

The New York Times
Sandeep Jauhar
  • Centenas de manifestantes do Tea Party -união de grupos conservadores contra Obama- foram ao Capitólio, em Washington D.C., mostrar oposição à reforma da saúde promovida e debatida pelo governo democrata

    Centenas de manifestantes do "Tea Party" -união de grupos conservadores contra Obama- foram ao Capitólio, em Washington D.C., mostrar oposição à reforma da saúde promovida e debatida pelo governo democrata

“Estou cansado de pagar pela estupidez dos outros”. Esse foi um comentário que li na Internet na semana passada, depois que a reforma da saúde nos Estados Unidos foi aprovada. A frase resumiu a visão de muitos americanos, preocupados com o pagamento de taxas e impostos mais altos para cobrir os não-segurados. Por que nós deveríamos pagar a conta quando tantas doenças em nosso país derivam de comportamentos viciosos, como fumar e comer demais?

Na verdade, a maioria dos americanos diz que é justo pedir que pessoas com estilos de vida nada saudáveis paguem mais pelo seguro saúde. Nós acreditamos no conceito da responsabilidade pessoal. Você ouve isso nas salas de espera de consultórios e em cafeterias, entre executivos e trabalhadores braçais. Até mesmo o presidente Barack Obama afirmou: “Temos que fazer o povo americano tomar alguma providência sobre sua própria saúde”.

Porém, a responsabilidade pessoal é uma ideia complexa, especialmente quando se trata da saúde. Escolhas individuais sempre ocorrem dentro de um contexto mais amplo e confuso. Quando as pessoas defendem a necessidade de responsabilização pessoal, elas pressupõem um controle sobre saúde e doenças maior do que existe na realidade.

Hábitos não saudáveis representam um dos fatores das doenças, mas também há posição social, renda, dinâmica familiar, educação e genética. A não conformidade dos pacientes com as recomendações médicas indubitavelmente contribui para uma saúde fraca, mas isso ocorre tanto em função da comunicação falha, dos custos de remédios e efeitos colaterais, das barreiras culturais e dos recursos inadequados, quanto da deliberada indiferença em relação a um conselho médico.

Alguns anos atrás, cirurgiões em Melbourne, na Austrália, estavam se recusando a realizar cirurgias de coração e pulmões em fumantes, mesmo naqueles que precisavam da operação para continuar vivendo. “Por que os contribuintes deveriam pagar por isso?”, disse um cirurgião citado em reportagens na ocasião. “Isso consome recursos para alguém que está causando sua própria morte”.

Embora alguns tenham se horrorizado com essa postura – a Associação Médica Australiana considerou “inescrupuloso” racionar serviços com base em hábitos pessoais –, muitos médicos concordaram com ela. Como a maioria dos americanos, eles não viram nada de errado no fato de pacientes pagarem pelas consequências de suas ações.

O problema é que usar medidas punitivas para impor um comportamento saudável geralmente não funciona. Em 2006, o estado de West Virginia começou a premiar pacientes do Medicaid (tipo de seguro-saúde dos Estados Unidos) que assinassem um termo de compromisso, dizendo que se inscreveriam num plano de saúde e seguiriam as ordens de seus médicos, oferecendo benefícios especiais – incluindo cobertura ilimitada de remédios receitados, programas para ajudá-los a deixar de fumar e aconselhamento nutricionais.

O programa, sob muitos aspectos, está fracassando. Em agosto de 2009, apenas 15% dos 160 mil pacientes elegíveis já havia se inscrito. Pacientes com opções limitadas de transporte estavam com muita dificuldade para realizar visitas regulares a médicos. E especialistas dizem não existir evidências de que restringir benefícios para pacientes desobedientes tenha promovido comportamentos saudáveis.

Como um colega cardiologista, certa vez cuidei de um jovem com insuficiência cardíaca congestiva grave. Deveríamos tê-lo iniciado em anticoagulante na entrada de sua hospitalização, mas isso não foi feito. Descontente com os atrasos em ter seu sangue suficientemente afinado, ele deixou o hospital contra a indicação médica. Disse que precisava ir para casa e cuidar de seu filho.

Ele voltou à clínica uma semana depois, parecendo bastante envergonhado. O paciente tinha saído sem receitas, então ficou sem remédios desde aquele dia – o que o deixou com falta de ar. Para completar, ele tinha comido de forma muito errada, tornando sua condição ainda pior. Porém, a médica do atendimento se recusou a lhe dar receitas. Ela lhe disse que ele deveria se dirigir a uma clínica rápida (tipo de clínica que, nos EUA, fica localizada dentro de farmácias, supermercados e varejistas). A médica disse ao paciente que ele precisava aprender responsabilidade pessoal.

A vida saudável deve ser encorajada, mas punir pacientes que fazem escolhas erradas de saúde simplifica demais uma questão extremamente complexa. Nós deveríamos focar em campanhas de saúde pública: estimular exercícios, o abandono do cigarro e por aí vai. Obviamente, isso exigirá uma alteração no modo como vivemos e como planejamos nossas comunidades.

“É o contexto das vidas das pessoas que determina sua saúde”, disse um relatório da Organização Mundial da Saúde sobre disparidades salutares. “Assim, culpar os indivíduos por uma saúde ruim ou creditá-los por uma boa é inapropriado”.

Tenho de admitir que muitas vezes me sinto como alguns colegas, que resmungam sobre passar o dia todo tratando de pacientes que parecem não se importar com sua saúde e exigem uma melhora rápida. Não gosto de pagar mais impostos para tratar pacientes que empregam hábitos não saudáveis. Mas aí lembro a mim mesmo que todos nós temos comportamentos socialmente irresponsáveis – que serão pagos por outras pessoas. Tento comer corretamente e fazer exercícios. Porém, às vezes mando mensagens de texto enquanto dirijo.

A razão primordial do seguro é reduzir riscos. Quando as pessoas protestam contra a falta de responsabilidade social na saúde, elas na verdade estão exigindo um modelo diferente – baseado no risco em si, e não apenas em espalhar custos igualmente pela sociedade. Pessoas doentes, segundo todos os injuriados, deveriam pagar mais. O modelo que eventualmente adotarmos neste país dirá muito sobre o tipo de sociedade em que gostaríamos de viver.

Sandeep Jauhar é cardiologista e autor de “Intern: A Doctor’s Initiation”.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h10

    -0,15
    3,168
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h19

    0,50
    68.696,52
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host