UOL Notícias Internacional
 

06/04/2010

Após ataques, cresce o medo de xenofobia entre os imigrantes do Cáucaso na Rússia

The New York Times
Michael Schwirtz
Em Moscou (Rússia)

Lilya Paizulayeva desceu ansiosamente na estação do metrô, tentando se manter distante das pessoas e dos policiais altamente armados recém posicionados. Ela se assustou com o forte som agudo metálico do trem, se pressionando contra a parede. 

Ela não estava com medo de terroristas suicidas –ela temia ser confundida com um. 

Com seu cabelo escuro e grandes olhos escuros, Paizulayeva, uma tchetchena de 26 anos, parece ser filha da feroz região russa do norte do Cáucaso, de onde, dizem os investigadores, duas mulheres jovens viajaram para Moscou para explodir a si mesmas na última semana, na hora do rush, matando pelo menos 40 pessoas. 

Apesar de para muitos os ataques serem um lembrete incômodo das mulheres-bomba que aterrorizaram esta cidade por anos, as mulheres do Cáucaso, particularmente da Tchetchênia, dizem temer um retorno das prisões arbitrárias, ataques xenofóbicos e da hostilidade aberta que muitas experimentaram após ataques terroristas semelhantes no passado. 

“Psicologicamente, eu sinto uma espécie de alarme interior”, disse Paizulayeva, que nasceu em Grozny, a capital da Tchetchênia, e fugiu para Moscou com sua família em 1995, quando começou a guerra lá. “Apesar de me vestir como uma moradora local, eu acho que alguém pode me atacar no metrô”, ela disse. “Nesta semana eu estou me sentindo como uma estranha nesta cidade.” 

Apesar de serem cidadãos russos, os tchetchenos e outros do norte do Cáucaso costumam ser vistos como estrangeiros na Rússia, especialmente aqui na capital, e são frequentemente associados aos imigrantes dos países da Ásia Central que antes formavam as repúblicas soviéticas. A mais de 1.600 quilômetros de Moscou, a Tchetchênia tem sua própria língua, religião e costumes, assim como uma história de separatismo violento que muitos no restante do país consideram estranho, na melhor das hipóteses, e ameaçador, na pior. 

Já ocorreram vários relatos de ataques por vingança contra pessoas do Cáucaso após os atentados. Na semana passada, uma briga estourou em um trem do metrô, quando um grupo de passageiros insistiu em inspecionar as mochilas e bolsas de várias pessoas que pareciam ser do Cáucaso, segundo o Centro Sova, uma organização que monitora a violência xenofóbica. 

Ataques contra pessoas de pele e cabelo mais escuro, típicos daqueles que vêm do Cáucaso, não são incomuns na Rússia. 

Mas são as mulheres, particularmente as mulheres tchetchenas, que são frequentemente associadas aos ataques suicidas. Mulheres-bomba, frequentemente da Tchetchênia, foram responsáveis por alguns dos ataques mais mortais na Rússia na última década. Essas chamadas Viúvas Negras realizaram pelo menos 16 atentados, matando centenas. 

A polícia identificou Dzhanet Abdullayeva, uma mulher de 17 anos do Daguestão, uma região que faz fronteira com a Tchetchênia, como uma das mulheres-bomba responsáveis pelo ataque da semana passada em Moscou. Os investigadores suspeitam que outra mulher, possivelmente da Tchetchênia, foi a segunda mulher-bomba. 

Como essas mulheres, Paizulayeva experimentou o horror e a perda da guerra, mas as semelhanças terminam aí. Com seu esmalte vermelho nas unhas, jeans apertados e botas altas, apenas sua pele e olhos escuros a distinguem das muitas mulheres claras, de olhos azuis, que passavam pela ornamentada estação da Praça da Revolução do metrô em um dia recente. Uma estudante de jornalismo de uma renomada universidade de Moscou, Paizulayeva disse que agora considera Moscou como seu lar. 

Todavia, ela disse, ela nota os olhares nervosos quando entra em um ônibus ou trem. Há um ano, um homem gritou “Tchetchena!” e a agarrou pelo pescoço enquanto ela andava pelo metrô. Mas ela conseguiu se soltar. 

Até mesmo alguns conhecidos de sua universidade, ela disse, a tratam “com cautela”. 

“Quando ocorrem esses incidentes é que você sente a frieza”, ela disse. 

Os líderes da Rússia parecem estar tentando minimizar o elemento étnico dos ataques. Na semana passada, o presidente Dmitri A. Medvedev repreendeu jornalistas e autoridades por se referirem às pessoas do Cáucaso como se fossem estrangeiras. 

“Não se trata de uma província estrangeira; este é o nosso país”, disse Medvedev em um encontro no Daguestão. “Um grande número de pessoas vive aqui e a maioria delas é normal, honesta e decente.” 

Mas as súplicas do presidente não impediram que autoridades de mais baixo escalão pedissem por medidas de segurança mais rígidas, voltadas diretamente contra as pessoas do Cáucaso. Desde os ataques, há novos pedidos para execução de um plano proposto pelo mais alto investigador da Rússia, no início do mês passado, de coleta de amostras de DNA e impressões digitais de todas as pessoas da região. 

Várias pessoas que monitoram a violência xenofóbica na Rússia disseram que os recentes atentados ainda não provocaram o aumento do sentimento antitchetcheno que acompanhou ataques anteriores, nos anos em que ocorriam com maior frequência. 

“Isto está diferente do que já vimos”, disse Svetlana Gannushkina, a diretora da Assistência Civil, um grupo nacional de direitos humanos. 

“Eu não vejo as pessoas alarmadas como antes”, disse Gannushkina, acrescentando: “Mas nós ainda não sabemos o que acontecerá.” 

Mas mesmo antes dos recentes atentados, os tchetchenos tinham dificuldade de escapar do estigma associado à sua terra natal, após tantos anos de violência e vilificação. 

Até mesmo aqueles que não possuem aparência particularmente tchetchena, como Alshna, uma mulher tchetchena de 36 anos que se recusou a dizer seu sobrenome, dizem carregar esse estigma consigo em seus passaportes, que indicam o local de nascimento. 

Um olhar para essa passaporte pode ser suficiente para ter casa, emprego ou assistência médica negados, disse Alshna, que mora em Moscou há 15 anos. O diretor de uma escola local se recusou a aceitar a matrícula da filha de Alshna, dizendo temer que Alshna poderia “vir e explodi-la”. 

“Aqui, a cada dois passos a polícia nos para e insulta”, disse Alshna. “Até mesmo as pessoas decentes ainda têm medo de nós.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    $date.format("HH'h'mm", $data)

    -0,27
    3,252
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h36

    1,27
    74.369,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host