UOL Notícias Internacional
 

09/04/2010

China parece disposta a permitir a valorização de sua moeda, o yuan

The New York Times
Keith Bradsher*
Em Hong Kong (China)

O governo chinês está preparando o anúncio nos próximos dias de que permitirá uma ligeira valorização de sua moeda e uma maior flutuação dia a dia, pessoas com conhecimento do consenso emergente em Pequim disseram na quinta-feira. A medida ajudaria a aliviar a tensão com o governo Obama em torno do imenso déficit comercial que os Estados Unidos têm com a China. 

As exportações da China foram estimuladas por sua política de manter sua moeda, conhecida como renminbi ou yuan, atrelada ao dólar a uma taxa fixa. Muitos membros do Congresso americano e muitos economistas dizem que ao gastar centenas de bilhões de dólares a cada ano para manter baixo o valor do yuan, a China torna sua exportações extremamente competitivas nos mercados estrangeiros e retiram vendas de fabricantes nos Estados Unidos e em outros países. 

Mas se a China permitir apenas uma pequena valorização do yuan, os efeitos sobre o déficit comercial americano também poderiam ser pequenos. As empresas chinesas são formidavelmente competitivas e apesar dos custos trabalhistas estarem subindo na China, os custos de transporte e comunicação estão caindo, por causa do investimento pesado em novas vias expressas e linhas ferroviárias. 

Um yuan levemente mais forte tornaria os produtos chineses apenas ligeiramente mais caros nos Estados Unidos e os produtos americanos ligeiramente mais baratos na China, que atualmente exporta quatro vezes mais para os Estados Unidos do que importa. 

A medida está sendo adotada por motivos de política doméstica na China, primeiramente como uma ferramenta de combate à inflação, disseram pessoas com conhecimento do consenso de Pequim na quinta-feira. Apesar de qualquer anúncio ainda poder ser adiado, o banco central da China parece ter prevalecido em seus argumentos junto à liderança chinesa a favor de uma moeda mais forte e mais flexível, disseram essas pessoas. 

Insistindo no anonimato devido à sensibilidade do assunto em Pequim, elas previram que a mudança de política da China poderia facilmente ocorrer antes do presidente Hu Jintao chegar a Washington na próxima semana, para discussões com o presidente Barack Obama e outros líderes mundiais a respeito da melhoria da segurança nuclear. 

Autoridades do governo, especialmente o secretário do Tesouro, Timothy F. Geithner, mantiveram-se caladas publicamente para evitar dar a impressão de que a atual mudança na política cambial da China foi resultado da pressão americana, em vez de uma decisão baseada no que é melhor para a economia chinesa. Geithner manteve esse silêncio na quinta-feira, realizando reuniões com altos funcionários em Hong Kong antes de voar no meio da tarde para Pequim, para uma breve parada e um encontro com o vice-primeiro-ministro Wang Qishan. 

Uma declaração sucinta do Tesouro, após o encontro com Wang, notou apenas que os dois homens “trocaram pontos de vista a respeito das relações econômicas entre os Estados Unidos e a China, a situação econômica global e questões relacionadas às futuras discussões no segundo Diálogo Estratégico e Econômico Estados Unidos-China, que será realizado em Pequim no final de maio”. 

As autoridades chinesas têm discutido publicamente o que fazer a respeito da moeda há um mês, com o banco central defendendo uma ação imediata enquanto o Ministério do Comércio, alinhado com os exportadores, era contrário à valorização da moeda. O governo Obama se manteve escrupulosamente em silêncio, temendo que comentários públicos pudessem ter o efeito contrário, ao estimular uma reação nacionalista em Pequim contra a pressão internacional. 

A manutenção do yuan desvalorizado por meio de uma enorme intervenção no mercado de moeda se transformou em uma despesa enorme para a China. O banco central gastou 9,2% do produto econômico do país no ano passado na compra de reservas de moeda estrangeira, principalmente títulos do Tesouro que atualmente pagam baixas taxas de juros. 

Um yuan mais forte poderia ser uma bênção ambígua para os Estados Unidos. Se a China reduzir fortemente a compra de títulos do Tesouro, então o governo Obama poderia encontrar uma maior dificuldade para financiar os déficits orçamentários americanos. 

Mas com o boom da economia chinesa, uma pequena valorização do yuan poderia ainda deixar o banco central lidando com superávits comerciais e uma onda de investimento especulativo na China. Isso poderia forçá-lo a continuar comprando títulos do Tesouro com os dólares extras. 

Permitir uma maior flutuação da moeda também poderia facilitar ao banco central da China combater a inflação, o que Wen Jiabao, o primeiro-ministro, identificou no mês passado como sendo a maior preocupação para a liderança. Os preços ao consumidor estavam 2,7% mais altos em fevereiro do que há um ano, após até mesmo uma queda nos preços em outubro. A inflação está acelerando na China mais rapidamente do que a maioria dos economistas ocidentais esperava. 

Uma moeda mais forte ajuda a conter os preços ao tornar as importações mais baratas. Também dá ao banco central chinês mais espaço para elevar as taxas de juros e frear o crescimento econômico, reduzindo ao mesmo tempo a atração de investimentos mais especulativos ao país. 

Um yuan ligeiramente mais forte e que flutue diariamente frente ao dólar prejudicaria principalmente os setores com uso de mão-de-obra intensiva e baixas margens de lucro na China, como calçados e têxteis. Muitas autoridades em Pequim temem as perdas de empregos nesses setores em caso de uma valorização da moeda. 

Grande parte deste tipo de produção já está começando a deixar a China, rumando principalmente para o Vietnã e para Bangladesh, onde os custos da mão-de-obra permanecem baixos. E as fábricas chinesas que produzem esses bens têm tido dificuldade em encontrar trabalhadores suficientes nos últimos dois meses, à medida que a economia se recuperava fortemente nos últimos meses, estimulada por empréstimos bancários pesados, forte demanda por trabalhadores no setor de varejo e aumento dos gastos do governo em trens de alta velocidade e outros investimentos em infraestrutura. 

Em 2005, a China permitiu uma valorização de 2% do yuan frente ao dólar da noite para o dia e sua comercialização com uma margem de flutuação mais larga, com uma tendência de nova valorização frente ao dólar. Na futura mudança de política, a China poderá seguir um padrão semelhante, mas as autoridades podem enfatizar em comentários públicos que o valor do yuan em alguns dias também poderá cair, assim como subir. Isso ajudaria a desencorajar uma enxurrada de capital especulativo na China, por parte de investidores apostando em uma maior valorização da moeda, disseram pessoas com conhecimento do consenso emergente em Pequim. 

Xia Bin, um membro do comitê de política monetária do banco central chinês, insinuou a nova política para a moeda enquanto participava de um fórum em Xangai, na quinta-feira. 

“Quanto a permitir uma lenta valorização do yuan ou permitir uma valorização até uma margem tolerável, após um cálculo cuidadoso, eu acho que é melhor que ocorra a valorização rápida, imediata”, ele disse, segundo reportagens de agências de notícias. 

Xia acrescentou posteriormente que, “a certa altura, quando necessário, é melhor ter uma valorização rápida, imediata, em uma tentativa de evitar o capital especulativo”. 

Mas Xia, que falou após outros que já tinham descrito um consenso emergente em Pequim a favor de uma pequena valorização da moeda, alertou que ninguém deve esperar uma “grande valorização, única” do yuan, como desejam muitos membros do Congresso americano. 

O banco central se recusou a comentar sobre seus planos para a moeda. 

Michael Wines, em Pequim (China), contribuiu com reportagem, e Li Bibo, em Pequim, contribuiu com pesquisa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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