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09/04/2010

EUA e Rússia assinam pacto de armas nucleares

The New York Times
Peter Baker
Em Praga (República Tcheca)
  • Barack Obama, presidente dos EUA (à esquerda), e Dmitri Medvedev, presidente da Rússia, se cumprimentam após a assinatura de acordo de redução de armas nucleares, em Praga

    Barack Obama, presidente dos EUA (à esquerda), e Dmitri Medvedev, presidente da Rússia, se cumprimentam após a assinatura de acordo de redução de armas nucleares, em Praga

Com floreios e fanfarra, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, assinaram um tratado de controle de armas nucleares na quinta-feira (8), abrindo o que eles esperam que seja uma nova era no relacionamento turbulento entre os dois ex-adversários na Guerra Fria.

No encontro aqui, no coração da Europa antes dividida, os dois líderes deixaram de lado o ressentimento que caracterizou os laços entre russos e americanos nos últimos anos, ao concordarem em reduzir seus arsenais e restaurar o regime de inspeções que expirou em dezembro. Ao longo do caminho, eles deixaram de lado as disputas não resolvidas em torno das defesas antimísseis e outros assuntos.

“Quando os Estados Unidos e a Rússia não são capazes de trabalharem juntos em grandes questões, isso não é bom para ambos os países, assim como não é bom para o mundo”, disse Obama enquanto suas palavras ecoavam pelo majestoso salão dourado do famoso Castelo de Praga. “Juntos, nós saímos do estado à deriva e provamos os benefícios da cooperação. Hoje é um marco importante para a segurança nuclear e para a não-proliferação, assim como para as relações entre os Estados Unidos e a Rússia.”

Medvedev chamou a assinatura do tratado de “um evento realmente histórico” que “abrirá uma nova página” nas relações entre russos e americanos. “O que é mais importante nisto é que é uma situação onde todos ganham”, ele disse. “Ninguém sairá perdendo com este acordo. Eu acredito que esta é uma característica típica de nossa cooperação. Ambas as partes venceram.”

Análise sobre o acordo

O tratado de redução de armas estratégicas que os presidentes Barack Obama e Dmitri Medvedev assinaram em Praga abre novas perspectivas entre as duas superpotências nucleares que poderão desembocar em longo prazo na criação de um escudo antimísseis conjunto e em uma aliança que diluiria o confronto Rússia-Otan. É a opinião dada em uma entrevista por Alexei Arbatov, respeitado especialista em segurança e desarmamento, que foi vice-presidente do Comitê de Defesa da Duma Estatal (Parlamento russo).

"Se continuar a proliferação de armas nucleares, estas acabarão caindo irreversivelmente nas mãos de terroristas, e a única questão é quando e onde ocorrerá a primeira explosão", afirma o russo.

O presidente russo sinalizou um apoio geral ao esforço liderado pelos Estados Unidos para impor novas sanções ao Irã, dizendo que o programa nuclear de Teerã zomba da comunidade internacional. “Nós não podemos fazer vista grossa para isso”, disse Medvedev, acrescentando que as sanções “devem ser inteligentes” e evitar causar dificuldades ao povo iraniano.

Obama disse que espera “conseguir assegurar sanções fortes, duras” contra o Irã nos próximos meses.

O relacionamento aparentemente caloroso entre os dois presidentes foi demonstrado enquanto entravam no salão ao som de trompetes. Eles sussurraram em inglês e sorriram um para o outro enquanto estavam sentados lado a lado assinando as cópias do novo tratado Start, então trocaram cumprimentos durante a coletiva com os repórteres que se seguiu.

Obama chamou o russo de “amigo e parceiro” e disse que “sem seus esforços pessoais e forte liderança, nós não estaríamos aqui hoje”. Por sua vez, Medvedev disse que os dois desenvolveram um “relacionamento pessoal muito bom e uma química pessoal muito boa, como costumam dizer”.

Apesar de o tratado promover apenas reduções modestas nos atuais arsenais mantidos pelos dois países, ele marca uma virada nas relações com Moscou, que afundaram em agosto de 2008, durante a guerra entre a Rússia e sua minúscula vizinha ao sul, a Geórgia. Quando tomou posse, Obama transformou em prioridade a restauração do relacionamento, uma meta que coincidiu com sua visão, expressada aqui há um ano, de algum dia conseguir livrar o mundo das armas nucleares.

Apesar de os dois presidentes terem saudado o tratado, eles não encontraram um meio-termo aceitável em relação aos planos americanos para construção de um escudo antimísseis na Europa, para conter qualquer ameaça iraniana. Obama rejeitou as exigências russas de inclusão no tratado de limites às defesas antimísseis, quase levando ao fracasso do acordo. Nos dias que antecederam a cerimônia aqui, as autoridades russas alternadamente alegaram que o acordo vincularia o programa ou se queixaram de que não, ameaçando se retirar caso seguisse adiante.

O tratado, se ratificado pelos legisladores de ambos os países, limitaria a cada país o posicionamento de não mais que 1.550 ogivas estratégicas, em comparação às 2.200 permitidas pelo Tratado de Moscou, assinado pelo presidente George W. Bush em 2002. Cada país estaria limitado a um total de 800 lançadores baseados em terra, ar e mar –700 dos quais podendo estar posicionados a qualquer momento– em comparação aos 1.600 permitidos segundo o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start, na sigla em inglês) de 1991.

Devido às regras e reduções unilaterais ao longo dos anos, nenhum país teria que de fato eliminar um grande número de armas para atender aos novos limites. Além disso, o tratado não se aplicaria a categorias inteiras de armas, incluindo milhares de ogivas estratégicas mantidas na reserva e ogivas táticas, algumas das quais ainda posicionadas na Europa.

Mas o tratado restabeleceria o regime de inspeção que expirou juntamente com o Start em dezembro passado, devolvendo os dois países a uma estrutura legal após anos de tensão. Além disso, ambos os lados esperam usá-lo como base para uma nova rodada de negociações, que poderia levar a reduções ainda mais profundas que cobririam armas como as ogivas armazenadas ou táticas.

A primeira tarefa de Obama após retornar para Washington será persuadir o Senado a ratificar o novo tratado, e conselheiros planejavam ir ao Capitólio já na quinta-feira, antes mesmo do retorno dele, para informar os senadores.

A ratificação exige uma votação de dois terços, ou 67 senadores, o que significa que o presidente precisará de pelo menos oito republicanos. A Casa Branca está contando com o apoio do senador Richard G. Lugar, de Indiana, o líder da bancada republicana no Comitê de Relações Exteriores e uma das vozes mais respeitadas de seu partido em assuntos internacionais, para abrir o caminho.

Mas ela poderá enfrentar céticos como o senador Jon Kyl, do Arizona e articulador da bancada republicana, que expressou preocupação com a limitação das defesas americanas. E a política polarizada de Washington antes das eleições de novembro está volátil, o que significa que uma votação poderia ser adiada até depois da eleição, o que atrasaria ainda mais outros elementos da agenda antinuclear de Obama, como a consideração de um Tratado Abrangente de Proibição de Testes.

A Casa Branca quer uma votação até o final do ano e Robert Gibbs, o secretário de imprensa do presidente, lembrou aos repórteres no Força Aérea Um, durante o voo para cá, que os tratados de controle de armas anteriores receberam votação quase unânime. “Nós esperamos que a redução da ameaça das armas nucleares permaneça uma prioridade para ambos os partidos”, ele disse.

Mas o que ele não citou é que o Senado também rejeitou um acordo de controle de armas recentemente, se recusando a ratificar o tratado de proibição de testes que foi apresentado originalmente em 1999. Além disso, foram necessários três anos nos anos 90 para ratificar o tratado posterior ao Start, conhecido como Start 2, que nunca entrou em vigor por causa de uma disputa em torno das condições russas anexadas durante seu próprio processo de ratificação.

Obama espera usar a confiança desenvolvida durante as negociações do tratado para obter mais cooperação de Moscou em outras questões, principalmente a pressão sobre o Irã para abandonar seu programa nuclear.

Falando após a assinatura do tratado com Medvedev, Obama disse que os Estados Unidos e a Rússia eram “parte de uma coalizão de nações que insiste que a República Islâmica do Irã enfrente as consequências, porque fracassou continuamente em cumprir suas obrigações” segundo as regras internacionais que regem o uso de materiais nucleares.

“Esses países que se recusam a cumprir suas obrigações serão isolados e lhes serão negadas as oportunidades que vêm com a integração internacional”, ele disse. O Irã mantém que seu programa nuclear é para fins civis, mas os Estados Unidos e seus aliados ocidentais suspeitam que Teerã deseja produzir uma arma nuclear.

As melhores relações com o Kremlin preocupam os aliados americanos na Europa Central e Oriental, que já estavam preocupados com a decisão de Obama, no ano passado, de descartar o plano de Bush de um escudo antimísseis em prol de uma arquitetura reformulada, o que foi visto como uma concessão a Moscou.

Na esperança de reduzir essas preocupações, Obama planeja jantar na noite de quinta-feira, em Praga, com 11 líderes da região, incluindo os presidentes e primeiros-ministros da Bulgária, Croácia, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Polônia, Romênia e República Tcheca.

Obama também se certificou, antes de partir de Washington, de conversar por telefone com o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, para reafirmar o apoio americano. Ele se encontrará separadamente com os líderes tchecos na manhã de sexta-feira, antes de retornar para Washington.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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