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11/04/2010

Tribos da Amazônia encontram um aliado no diretor de "Avatar"

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Volta Grande do Xingu (Brasil)
  • Índios nadam no rio Xingu; o diretor James Cameron diz que viagem à Amazônia o incentiva a agir contra a destruição do meio ambiente que ameaça grupos indígenas em todo o mundo

    Índios nadam no rio Xingu; o diretor James Cameron diz que viagem à Amazônia o incentiva a agir contra a destruição do meio ambiente que ameaça grupos indígenas em todo o mundo

Eles vieram dos confins da Amazônia, viajando em barcos pequenos e canoas por até três dias para discutir seu destino. James Cameron, o titã de Hollywood, estava diante deles com listras laranjas de guerreiro pintadas em seu rosto, comparando as ameaças à suas terras com às de uma cobra comendo sua presa.

“A cobra mata esmagando lentamente”, disse Cameron para mais de 70 índios, alguns segurando lanças e arco-e-flecha, sob uma árvore às margens do rio Xingu. “É assim que o mundo civilizado avança lentamente para dentro da floresta e toma conta do mundo que costumava existir ali”, acrescentou.

Como se quisesse enfatizar o argumento, poucos segundos depois uma cobra verde venenosa caiu de uma árvore, a poucos metros de onde a mulher de Cameron estava sentada num tronco. Alguns gritos ecoaram. Os moradores saíram correndo. A cobra foi morta. Os líderes indígenas começaram uma dança de agradecimento, que terminou no barco que levou Cameron embora. Todo o tempo Cameron dançou de forma hesitante, brandindo uma lança, com um cocar de chefe com penas brancas e amarelas em sua cabeça.

Desde que escreveu o roteiro de “Avatar”, sua história épica da batalha da ganância contra a natureza, há 15 anos, Cameron diz que se tornou um ávido ambientalista. Mas disse que até viajar para a Amazônia brasileira no mês passado, sua militância estava limitada principalmente à forma ambientalmente responsável que ele tentava viver: com energia solar e eólica em sua casa em Santa Bárbara, e dirigindo carros híbridos e cuidando de sua própria horta orgânica com sua mulher.

“Avatar” - e seus quase US$ 2,7 bilhões (cerca de R$ 4,8 bilhões) em ingressos vendidos – mudou tudo isso, inundando Cameron de elogios por ter ajudado a “emocionalizar” os temas ambientais e de pedidos para que ele se envolvesse mais.

Agora, diz Cameron, ele foi incentivado a agir, a falar contra a destruição do meio ambiente que ameaça grupos indígenas em todo o mundo – uma causa que está alimentando sua indignação e inspirando seu trabalho para um sequência de “Avatar”.

“Qualquer experiência direta que eu tenho com grupos indígenas e suas dificuldades podem alimentar a natureza da história que eu escolher contar”, diz ele. “Na verdade, é quase certo que isso aconteça.” Referindo-se à sua viagem à Amazônia, ele acrescentou: “Isso só me deixa mais indignado.”

Cameron está tão entusiasmado que está planejando voltar à Amazônia esta semana, desta vez com Sigourney Weaver e pelo menos outro integrante do elenco de “Avatar”.

O foco da visita é a grande usina de Belo Monte, planejada pelo governo brasileiro. Seria a terceira maior do mundo, e os ambientalistas dizem que ela inundará centenas de quilômetros quadrados da Amazônia e secará uma extensão de 96 quilômetros do rio Xingu, devastando as comunidades indígenas que vivem às suas margens. Durante anos o projeto ficou engavetado, mas o governo agora planeja fazer um leilão de concessão para a construção da usina.

Impedir a hidrelétrica se tornou uma nova cruzada pessoal para o diretor, que visitou o país durante um conselho especial formado por líderes indígenas de 13 tribos para discutir suas últimas opções. Foi a primeira visita de Cameron à Amazônia, diz ele, embora tenha baseado o planeta fictício de “Avatar” nas florestas tropicais da região. Ainda assim, ele achou inegável a semelhança do tema de seu filme com a vida real.

A hidrelétrica é um “exemplo quintessencial do tipo de coisa que estamos mostrando em 'Avatar' – a colisão da visão de progresso de uma civilização tecnológica à custa do mundo natural e das culturas dos povos indígenas que vivem lá”, diz ele.

Cameron disse que estava escrevendo uma carta para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo para que ele reconsidere a hidrelétrica e disse que irá pressionar para se encontrar com o presidente. “Eles precisam ouvir essas pessoas”, diz ele.

Cameron, 55, tomou contato com a causa em fevereiro, depois de receber uma carta de organizações de defesa ambiental e grupos nativos norte-americanos pedindo a Cameron para enfatizar “as Pandoras reais do mundo”, referindo-se ao mundo vicejante que é atacado em seu filme.

Atossa Soltani, diretora-executiva da Amazon Watch, que acompanhou Cameron em sua viagem no mês passado, disse que o diretor ficou entusiasmado com a ideia de aprender mais, e contou que cresceu nos bosques canadenses e já fez milhares de mergulhos nos oceanos do mundo todo. Já a aventura de Cameron na Amazônia teve um começo conturbado. O barco em que ele viajava para o vilarejo inundou por causa de uma mangueira desconectada. Cameron ajudou a tirar a água com um balde de plástico durante algumas horas no sol escaldante do meio-dia, disse ele e outros que estavam no barco.

  • André Vieira/The New York Times

    O diretor de “Avata”, James Cameron, recebe um cocar de um índio; o norte americano disse que enviará ao presidente Lula uma carta para tentar impedir a construção da usina de Belo Monte

Muitos dos líderes indígenas que ele planejava visitar nunca haviam ouvido falar do diretor, muito menos visto seu filme. Tudo o que eles sabiam era que um “poderoso aliado” participaria da reunião, disse Soltani.

Assim, na noite anterior à chegada de Cameron e sua mulher, Suzy Amis, com três guarda-costas, cerca de uma dúzia de moradores se reuniram na casa de José Carlos Arara, chefe da tribo Arara, para assistir a um DVD de “Avatar”.

“O que acontece no filme é o que está acontecendo aqui”, disse Arara, 30.

Na manhã seguinte à que a comitiva de Cameron chegou ao vilarejo, Arara os levou para uma caminhada pela floresta. Cameron, quase repetindo o encantamento dos cientistas em seu filme, estava calmo, mas com os olhos arregalados, enchendo o chefe de perguntas sobre a flora e a fauna local e sobre as tradições indígenas. Em poucos segundos, o chefe mostrou como usar folhas para confeccionar uma faixa para os tornozelos para subir no pé de açaí.

Os líderes então convidaram Cameron para participar de sua reunião. Ele se sentou numa pequena carteira escolar enquanto eles discursavam condenando a ameaça da hidrelétrica e o governo brasileiro. Cameron quase chorou quando alguns líderes disseram que estavam dispostos a morrer para impedir a hidrelétrica.

Por fim, Cameron foi convidado a falar. Ele se levantou e cumprimentou os líderes por sua união, dizendo que eles precisavam lutar contra as tentativas do governo de separá-los e enfraquecer sua resistência.

“É assim que podemos impedir a cobra; é assim que podemos impedir a hidrelétrica”, disse.

A multidão aplaudiu. Quando a cobra de verdade caiu da árvore, o diretor parecia calmo. Depois de se livrarem dela, os líderes indígenas agradeceram presenteando Cameron. Um deu a ele uma lança, o outro um colar de sementes vermelho e preto. Um terceiro, o chefe Jaguar da nação Kaiapó, um dos mais respeitados do Brasil, deu a ele seu cocar antes de começarem as danças em homenagem a Cameron.

“Não é que exista alguma pressão sobre mim ou algo do gênero”, disse ele, brincando, momentos antes de embarcar. “Essas pessoas de fato esperam que eu faça alguma coisa em relação à sua situação. Temos que impedir essa hidrelétrica. Todo o seu modo de vida, sua sociedade da forma como eles a conhecem, depende disso.”

Tradução: Eloise De Vylder

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