UOL Notícias Internacional
 

11/04/2010

Uma cidade diz "sim, pode ser no meu quintal" para usina nuclear

The New York Times
John Tagliabue
Em Osthammar (Suécia)
  • Uma mulher caminha em frente de instalação de resíduos nucleares, em Osthammar, na Suécia

    Uma mulher caminha em frente de instalação de resíduos nucleares, em Osthammar, na Suécia

Há 12 anos, temendo por sua saúde, Inger Nordholm deixou seu emprego como cabeleireira nesta comunidade na costa sueca. “Eu ficava doente com os produtos químicos” para tratamento de cabelo, disse Nordholm, 45. A comunidade faz parte de um grupo de localidades que vem competindo pelo direito de se tornar um local de armazenamento permanente de lixo radioativo do país.

Agora, ela trabalha para a empresa que quer construir a instalação nuclear, guiando os visitantes por um depósito temporário de lixo atômico, esperando assegurá-los que o empreendimento não impõe perigos a sua saúde. “Gosto de trabalhar com as pessoas”, disse ela.

Monica Jakobsson tomou o caminho oposto. Após trabalhar dois anos como segurança no depósito, ela se aposentou, mas continua morando na cidade e tem suas dúvidas.

“Fico com certo medo”, disse Jakobsson, 63, enquanto fazia compras no mercado local. “Tudo é tão limpo aqui, e ainda assim, se você trouxer qualquer coisa para cá, um jornal, qualquer coisa, você não pode levá-la embora. Isso diz muito.”

As duas mulheres refletem um debate que parece ter apenas um lado, em Osthammar, onde até 80% dos 21.000 habitantes são a favor da lixeira nuclear. A cidade é uma das duas finalistas entre as comunidades suecas que brigam pelo direito de abrigar o lixo.

A Suécia, que prometeu que deixaria a energia nuclear nos anos 80, quando menos de 20% dos suecos a rejeitaram em um referendo, parecia um lugar improvável para tal competição. Recentemente, contudo, reverteu o curso e planeja começar a construir novos reatores nucleares, além dos 10 que já opera.

Contudo, a legislação exige que antes de novas plantas serem construídas, a Empresa Sueca de Combustível Nuclear e Lixo, mais conhecida pelas iniciais SKB, deve criar um espaço para armazenamento permanente para o lixo atômico produzido pelos reatores.

Na maior parte dos países, as pessoas preferem permitir uma fábrica de produtos suínos ou um incinerador de lixo em seu quintal do que uma lixeira atômica. Mas na Suécia, 18 de 20 possíveis cidades próximas às usinas projetadas ficaram interessadas pela proposta da SKB. A empresa teve que cortar a lista para duas, Osthammar e Oskarshamn, que já abrigam usinas nucleares.

A SKB recentemente disse que vai pedir ao governo sueco permissão para construir o depósito em Osthammar. Se o governo der luz verde, a construção será iniciada após 2015.

Claes Thegerstrom, físico nuclear que é diretor executivo da SKB atribuiu a nova atitude dos suecos em relação à energia nuclear aos temores relativos ao aquecimento global. “Nos anos 80, ninguém mencionava o CO2”, considerado a principal causa do aquecimento global, disse ele. “Agora, está no topo da lista das questões ambientais”. As usinas nucleares, como não queimam combustíveis fosseis, não produzem dióxido de carbono.

Ele disse que os principais critérios para escolher os locais para instalar depósitos nucleares eram a formação geológica adequada –ou seja, abundância de rochas sólidas- e a aceitação pública. Osthammar tem embasamento geológico, mas até nesta comunidade a SKB encontrou certa resistência popular.

A SKB tem um sistema elaborado e caro para armazenar o combustível usado, encapsulando-o em blocos de aço sólidos que então são cobertos por cobre e depositados em cavernas cavadas nas rochas cerca de 500 metros abaixo do mar Báltico.

Enquanto a grande maioria dos eleitores de Osthammar agora apoia o projeto, o consenso foi gerado com o tempo, uma tarefa que coube a Thegerstrom. “Somos uma organização com metas, tivemos que encontrar uma boa forma de interagir na arena política e social, tentar ser transparente.”

  • Paul Hansen/The New York Times

    Dia ensolarado em em Osthammar, na Suécia; 80% dos habitantes são a favor da lixeira nuclear

Os “agentes da aceitação” da SKB, como Nordholm, convocaram reuniões na prefeitura para explicar o projeto; a empresa financiou grupos locais, como clubes de futebol e círculos de idosos e convidou turmas escolares e outros grupos para visitarem as instalações provisórias. “Trazemos mais visitantes do que lixo atômico”, disse Nordholm rindo.

A decisão final de construir o depósito ou não cabe à prefeitura. “Temos bastante independência”, disse Jacob Spangenberg, 56, agrônomo que é prefeito há quatro anos. Alguns dizem que o governo nacional pode derrubar o veto da prefeitura se declarar a questão de importância à segurança nacional.

Em entrevistas de televisão e jornal, Spangenberg deu boas vindas ao depósito de lixo. Recebendo um visitante em sua casa de fazenda, a 8 km do centro da cidade, ele parece menos seguro.

O prefeito questionou as pesquisas de opinião que registraram um alto nível de aceitação entre os habitantes da cidade. “A questão era extremamente abstrata; era uma pergunta simplista”, disse ele, acrescentando que muitas pessoas deram uma resposta positiva porque não tinham consciência do que a decisão implicava.

“Se você tem uma ideia em mente, é fácil conseguir a resposta que você quer”, disse ele. “Ao mesmo tempo, os entrevistados não tinham a menor noção das consequências, de como é o sistema.”

Ele pareceu mais preocupado com as possibilidades de protestos de ativistas políticos do que com a perspectiva de um acidente nuclear, como aquele que aconteceu em Three Mile Island. “Há a possibilidade do Greenpeace e outros ativistas verdes bloquearem as estradas”, disse ele. “Essa é uma situação que pode acontecer, apesar dos moradores nem pensarem sobre isso.”

Muitos acreditam que o que fez mudar a opinião pública foi a perspectiva de empregos, e não os temores com o aquecimento global. Apesar do desemprego na Suécia ser baixo, em torno de 2%, entre jovens esse número é maior. Os jovens deixam cidades pequenas como Osthammar por metrópoles como Estocolmo ou Uppsala em busca de trabalho.

“Pode ser muito bom para os negócios”, disse Mikael Jansson, 38, funcionário do supermercado, que acrescentou, hesitante: “Pode trazer as pessoas de volta –talvez”. Talvez não venham pelo medo dos riscos, disse ele.

Os críticos, como o morador Mats Tornquist, químico aposentado deixou a capital para voltar à sua cidade natal, desistiram de brigar. “Sou engenheiro químico, trabalho com problemas de descarte de material desde 1985, li todos os jornais” sobre a instalação de lixo nuclear. “Podem dizer o que quiserem; eles não têm uma solução”.

Ele concordou com Jansson que a perspectiva de empregos fez as pessoas mudarem de ideia. “Temos uma comunidade muito dependente dessa indústria”, disse ele. “Para cada pessoa que trabalha na usina, possivelmente outras cinco têm empregos que dependem dela.”

Jakobsson, apesar de seu desconforto com o lixo atômico, ofereceu outra razão para a cidade aceitar a lixeira. Osthammar já tem uma usina nuclear.

“Temos que tratar do lixo. Não pode ser enviado para outro país”, disse ela.

Tradução: Deborah Weinberg

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