UOL Notícias Internacional
 

13/04/2010

Profissionais de saúde brigam para ajudar bailarina amputada após terremoto

The New York Times
Deborah Sontag
Em Porto Príncipe (Haiti)
  •  A dançarina Fabienne Jean aguarda atendimento no hall de entrada do Hospital Geral de Porto Príncipe. Entre milhares de amputados no Haiti, a dançarina tem sido apontada como símbolo de resistência de seu povo

    A dançarina Fabienne Jean aguarda atendimento no hall de entrada do Hospital Geral de Porto Príncipe. Entre milhares de amputados no Haiti, a dançarina tem sido apontada como símbolo de resistência de seu povo

Fabienne Jean, uma dançarina profissional que perdeu sua perna direita no terremoto, pulava em sua magra perna esquerda pelo empoeirado complexo do Hospital Geral a caminho de um raio X muito importante. 

Assim que chegou ao setor de radiografia, Jean, 31 anos, vestindo um minivestido preto colante com um volumoso colar lápis-lazúli, se cobriu na mesa de exame como uma modelo. Então o técnico entrou e posicionou o coto dela para raios X que seriam enviados para Nova York, para onde, se tudo desse certo, Jean também iria. 

“Quem sabe minha sorte esteja mudando para melhor?” ela disse naquele dia, mais de dois meses após ter sobrevivido a uma infecção mortal após ter concordado relutantemente com a amputação. 

Leia mais sobre a história da dançarina Fabiane:

Mas então teve início um cabo-de-guerra entre dois provedores de saúde sobre quem reabilitaria Jean. 

Seria o grande hospital de Nova York, cujo diretor de atendimento de emergência ajudou a salvar a vida dela cinco dias após o terremoto? Seria a pequena empresa de próteses da Nova Inglaterra, cuja fundação desde então tem trabalhado para recuperá-la? Ou as duas organizações encontrariam uma forma de colaborar? 

Entre os milhares de novos amputados do Haiti, Jean, que foi tema de um artigo no “New York Times” em fevereiro, foi escolhida para as oportunidades especiais por acaso, pela atenção da mídia e por seu potencial de se transformar em um símbolo da resistência do Haiti: se a dançarina que quase morreu voltar a dançar, então isso terá um peso, acreditam seus provedores de saúde. 

Mas a situação de Jean também destaca a forma como muitos haitianos, assim como seu país, estão atualmente dependentes da caridade internacional. 

Na visão de Jean, isto é em grande parte uma bênção –“Agradeço a Deus pelos estrangeiros”, ela disse– mas também pode ser algo complicado e desconfortável. 

O hospital de Nova York, o Mount Sinai Medical Center, quer dar continuidade ao envolvimento de sua equipe de ajuda humanitária com Jean oferecendo a ela uma cirurgia corretiva e reabilitação. O hospital está pedindo ao governo Obama que conceda a Jean autorização por motivos humanitários para que ela entre nos Estados Unidos. 

Ele também conseguiu médicos e advogados que ofereceram seus serviços de modo voluntário, e uma enfermeira haitiana-americana para fornecer a Jean um lar no Brooklyn durante seu tratamento. 

ONGs reclamam da falta próteses no Haiti

A New England Brace Company Foundation, por outro lado, acredita que Jean pode e deve ser tratada no Haiti, onde ela ainda vive. 

Com seus técnicos em próteses se preparando para voar para Porto Príncipe para lhe dar uma nova perna temporária nesta semana, o grupo de New Hampshire não quer perdê-la como paciente, por motivos pessoais e profissionais. A fundação deseja a ajuda de Jean na arrecadação de fundos e está considerando torná-la sua porta-voz. 

Para Jean, uma dançarina do Teatro Nacional do Haiti, a tragédia se transformou em uma oportunidade de uma forma que a deixa zonza. Durante o terremoto de 12 de janeiro, uma parede de pedra desabou sobre sua perna. Por dias, ela ficou deitada esperando por ajuda em meio a um mar de corpos quebrados no terreno do Hospital Geral, onde o dr. Ernest Benjamin, o diretor de atendimento de emergência do Mount Sinai, chegou com uma equipe médica. 

Jean implorou a Benjamin, que nasceu no Haiti, para salvar sua perna, argumentando que ela era crucial para seu sustento. Mas era tarde demais. 

“A decisão de amputar não foi fácil, mas ela estava gravemente doente e uma maior demora teria custado sua vida”, disse Benjamin, um especialista em terapia intensiva. “De fato, apesar da amputação, nós temíamos perdê-la. Ela foi a primeira paciente a ter convulsão após a cirurgia. Foi de cortar o coração e nós prometemos a nós mesmos que faríamos de tudo para ajudá-la se sobrevivesse.” 

Mas pouco depois da amputação, o Hospital Geral transferiu Jean para uma clínica nos arredores de Porto Príncipe. 

Foi quando Benjamin perdeu o contato com ela –e quando Dennis Acton do grupo de New Hampshire a encontrou em um lugar que ele descreveu como sendo um “um abrigo para amputados desabrigados esquálidos”. 

Comovido, Acton prometeu ajudar Jean a andar –e dançar– de novo. “Fabienne tem uma atitude excelente”, ele disse. “Eu imaginei que ela seria uma paciente forte, capaz de voltar a andar rapidamente e ser um exemplo positivo para outros amputados.” 

Com a equipe de técnicos em próteses da Nova Inglaterra atualmente comprometida em tratar de cerca de 50 amputados no Haiti, a Nebco Foundation é um grupo recém-incorporado que solicita doações por meio seu site, dizendo: “Não há fundos vindo de grandes organizações que levantaram mais de um bilhão de dólares; nós precisamos de sua ajuda para continuar!” 

O artigo no “Times” sobre Jean comoveu muitos leitores a oferecer ajuda. Ao mesmo tempo, Benjamin, ao reencontrar Jean por meio do artigo do jornal, propôs que o Mount Sinai a trouxesse aos Estados Unidos para dar continuidade ao seu tratamento, e deu início ao requerimento de visto humanitário. 

(O Departamento de Segurança Interna concedeu visto por motivos médicos para muitos haitianos desde o terremoto, disse Matthew Chandler, um porta-voz do departamento.) 

Ao tomar conhecimento da iniciativa do Mount Sinai, Acton ficou inicialmente irritado, porque tinha acabado de ser orientado por especialistas em invalidez em Porto Príncipe que suas diretrizes dizem que os haitianos devem ser tratados no Haiti. 

De fato, a Handicap International, o principal grupo aqui, não aprova o envio de haitianos ao exterior para reabilitação, apesar de “haver pouco ou nenhum sistema de reabilitação no Haiti”, disse Lea Radick, uma porta-voz do grupo. 

Os amputados haitianos precisam de próteses de baixa tecnologia que possam ser reparadas ou substituídas no Haiti, ela disse, acrescentando: “O trabalho diante de nós envolve a construção de capacidade local, para que os haitianos feridos tenham acesso aos serviços críticos pelo restante de suas vidas”. 

Os médicos do Mount Sinai dizem que Jean precisa de cirurgia adicional antes da reabilitação. Seu coto termina em uma cicatriz grossa, cheia de escaras, que provavelmente abrirá com o atrito com uma prótese, a deixando vulnerável a novas infecções, segundo seu pedido para entrada nos Estados Unidos. 

Apesar de Jean poder potencialmente ser submetida a essa cirurgia no Haiti, os recursos estão sobrecarregados lá, e o Mount Sinai está oferecendo um tratamento médico e reabilitação da mais alta qualidade, disse Benjamin. 

Acton, após considerar isso, concordou hesitantemente que ir para Nova York poderia ser melhor para Jean. Ele escreveu uma mensagem de e-mail no final de março de que inicialmente estava “defensivo (e talvez com um pouco de ciúme?)”, mas que Fabienne “nunca terá o atendimento que precisa no Haiti”. 

Por um breve período, Acton e o Mount Sinai pareceram estar trabalhando em conjunto. Ele ofereceu assinar uma declaração de apoio para Jean, para acompanhar seu pedido de visto humanitário. 

Mas posteriormente, ele condicionou a oferta à continuidade de seu grupo como o provedor da prótese e ele disse que seu conselho diretor temia que o Mount Sinai estava tentando roubar uma paciente de destaque. 

A cooperação acabou. 

Após uma semana frustrante no Haiti, Benjamin disse que acreditava que o grupo da Nova Inglaterra estava impedindo seus esforços para obtenção dos documentos necessários para o pedido de visto de Jean. 

O grupo, ele disse, apesar de provavelmente “estar realizando um trabalho maravilhoso”, fez um investimento em Jean que não deseja perder. 

“A capacidade dela voltar a dançar os ajudaria a lucrar”, ele escreveu aos seus colegas em Nova York, propondo que “jogassem a toalha” em seu plano de levar Jean ao Mount Sinai. Acton disse que asseguraria a Jean o recebimento do atendimento necessário. E acrescentou estar ressentido da implicação de que seu grupo estava explorando Jean, uma pessoa que ele disse considerar uma amiga e “uma parceira igual”, com “o poder de decidir como ela desejará trabalhar conosco em sua futura carreira, se ela a quiser”. 

Ele acrescentou: “Eu estou aprendendo do modo difícil que a zona de desastre é mais do que apenas destruição e pessoas feridas; também é uma mistura complexa de política, ego e disputas de poder”. 

No final, o Mount Sinai decidiu dar continuidade ao pedido de permissão para Jean entrar nos Estados Unidos. Separadamente, Acton se prepara para viajar ao Haiti com o novo membro dela. 

E no meio da disputa, Jean, agradecida mas estressada, não quer tomar partido. Mas ela deseja ir para Nova York para tratamento, se possível. 

Ela disse em creole: “Eu quero! Eu quero! Eu quero!”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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