UOL Notícias Internacional
 

16/04/2010

EUA convivem há décadas com o temor de um ataque nuclear em casa

The New York Times
Scott Shane
Em Washington (EUA)
  • Técnicos iranianos manuseiam barril de 'yellow cake' (urânio ainda não enriquecido) na usina de Isfahan, a 420 km de Teerã, capital do país

    Técnicos iranianos manuseiam barril de 'yellow cake' (urânio ainda não enriquecido) na usina de Isfahan, a 420 km de Teerã, capital do país

A altamente confidencial Avaliação Nacional de Inteligência não media palavras. Os Estados Unidos enfrentavam um inimigo “sem escrúpulos em empregar qualquer arma ou tática”, ela dizia, e armas nucleares contrabandeadas pelas fronteiras porosas ameaçavam devastar as cidades americanas. Células dormentes, alertava o documento, poderiam já estar dentro do país. 

Ou ao menos foi o que a Agência Central de Inteligência (CIA) disse ao presidente Harry S. Truman. O ano era 1951. 

Transformou-se em um saber convencional, repetido pelo presidente Barack Obama no encontro de cúpula nuclear nesta semana, de que o risco da Guerra Fria de imensos ataques por milhares de mísseis nucleares deu lugar a uma nova ameaça: terroristas matando dezenas de milhares de americanos com um artefato nuclear caseiro ou roubado. Um grande número de especialistas em segurança concorda que o terrorismo nuclear pode muito bem ser o risco mais sério enfrentado atualmente pelos Estados Unidos. 

Mas não é novo. Na verdade, quase que desde a invenção da bomba atômica, as autoridades do governo temiam a ameaça de bombas atômicas compactas sendo contrabandeadas para os Estados Unidos por agentes soviéticos e detonadas. 

“As autoridades consideram a possibilidade de sabotagem atômica como a mais grave ameaça já enfrentada por este país, com suas fronteiras virtualmente não patrulhadas”, noticiou o “New York Times” em 1953, dizendo aos seus leitores que o governo Eisenhower estava se preparando para alertar o público sobre o risco das “bombas-valise”. 

Centenas de páginas de documentos dos anos 50 que deixaram de ser secretos, obtidos pelo “New York Times” junto ao FBI segundo a Lei de Liberdade de Informação, apresentam uma história notavelmente familiar, na qual agentes comunistas exerciam o papel da Al Qaeda atualmente. 

Naquela época, como agora, os investigadores procuravam por agentes que eles temiam estar nos Estados Unidos aguardando ordens para atacar. Naquela época, também, o governo gastou milhões para instalar detectores de radiação em portos e aeroportos, apesar das dúvidas a respeito de sua eficácia. (Naquela época, alarmes nucleares falsos eram disparados por mostradores de relógio pintados com rádio, escondidos em um espartilho feminino.) 

Nem a recente preocupação com material nuclear cruzando a fronteira mexicana permeável é nova. Um memorando do FBI de 1953 alertava que “um sabotador poderia facilmente se passar por um imigrante ilegal mexicano e entrar no país sem detecção, supostamente carregando uma arma atômica em sua bagagem”. 

Micah Zenko, um membro do Conselho de Relações Exteriores que escreveu sobre a história nuclear, disse: “O temor de um ataque nuclear clandestino em solo americano remonta o início da era nuclear. Certamente não há nada novo aqui, mesmo que não chamassem isso de terrorismo nos anos 50”. 

Mesmo antes da União Soviética detonar sua primeira bomba atômica em 1949, autoridades de segurança estudaram a ameaça de armas contrabandeadas. Mas relatórios secretos concluíram que a União Soviética provavelmente tentaria um ataque desses apenas como prelúdio de uma guerra total. Um ataque total, acreditavam os especialistas americanos, poderia até mesmo começar com a detonação de armas nucleares contrabandeadas para os gabinetes diplomáticos em Nova York e Washington. 

As autoridades de inteligência temiam que partes de bombas poderiam ser entregues por meio dos malotes diplomáticos, transportadas por viajantes aéreos internacionais em suas bagagens ou entregues por barco ou submarino em uma praia isolada. 

Agentes comunistas já no país poderiam então montar, plantar e detonar as armas. “A vigilância de todos os membros do Partido Comunista e simpatizantes é impossível e impraticável, já que superam muitas vezes em número o total da força de agentes especiais do FBI”, reclamava um memorando do birô. J. Edgar Hoover, o diretor do FBI, que estava intensamente concentrado na ameaça do contrabando, propôs um aumento de pessoal para lidar com isso. 

Entre os muitos sabotadores nucleares potenciais, os escritórios de campo do FBI identificaram um proprietário de uma livraria de esquerda em Seattle, um repórter da agência de notícias soviética “Tass” e até mesmo um representante do Conselho Americano por uma Grécia Democrática. 

Quando o cônsul polonês em Detroit chegou aos Estados Unidos em meados dos anos 50 com quatro grandes caixas, os agentes do FBI as revistaram sigilosamente à procura de material nuclear. Eles encontraram 24 garrafas de cherry, mas “nenhum artigo ou peça que possa ser construída como parte de uma arma de destruição em massa”, declarou solenemente o relatório secreto deles. 

A imprensa também se envolveu em um caso. Em 1954, um repórter do tablóide “The Los Angeles Mirror” escreveu um artigo com o título “Eu Contrabandeei Falsas Bombas A para LA”, acompanhado de um diagrama de um homem carregando uma “pequena bomba A” em uma mala. 

O temor do contrabando começou a desaparecer no final dos anos 50, com o advento dos mísseis balísticos intercontinentais, que representavam uma ameaça incomparavelmente maior de ataque surpresa. Mas no meio século que se seguiu, a preocupação nunca desapareceu totalmente. 

As autoridades de segurança especularam posteriormente a possibilidade da China poder detonar um artefato nuclear contrabandeado para os Estados Unidos e fazer com que se parecesse um ataque soviético, provocando uma guerra devastadora entre os rivais. Posteriormente, à medida que armas nucleares táticas portáteis proliferaram tanto na Europa Ocidental quanto Oriental, ocorreram alarmes periódicos sobre a segurança delas. 

Após o assassinato dos atletas israelenses por agentes palestinos nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, as autoridades americanas voltaram sua atenção para os terroristas. A preocupação delas aumentou imensuravelmente após os ataques de 11 de setembro de 2001, quando os relatos de que a Al Qaeda tinha procurado ativamente por uma arma nuclear desde o início dos anos 90 assumiu uma relevância assustadora. 

Nos anos 50 os Estados Unidos sabiam que seus adversários tinham armas; o mistério era se eles as usariam. Hoje, disse Jeffrey T. Richelson, um historiador de armas nucleares, a situação é inversa: os líderes da Al Qaeda sugeriram publicamente que usariam uma arma nuclear, “mas até onde sabemos, a Al Qaeda nem chegou perto de construir uma bomba”. 

A maioria dos especialistas em segurança acredita que o foco nos últimos anos em destruir ou bloquear o material nuclear é bem mais eficaz do que selar as fronteiras americanas. O esforço global para reduzir a ameaça avançou durante o encontro de cúpula em Washington, nesta semana, com compromissos de muitos países em destruir ou proteger os estoques de plutônio e urânio altamente enriquecido. 

Saber da história de pânicos periódicos a respeito de armas nucleares contrabandeadas oferece uma espécie de tranquilização diante de um risco terrível, disse Zenko, do Conselho de Relações Exteriores. 

“Se você considera que a ameaça já existe há mais de 60 anos”, ele disse, “você não se deixa tomar pelo medo”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host