UOL Notícias Internacional
 

16/04/2010

Turnê é celebração de um marco histórico para o rei do pop do Brasil

The New York Times
Larry Rohter
  • O rei Roberto Carlos joga rosas ao público após sua performance no American Airlines Arena de Miami, no último dia 10 de abril de 2010, em show de comemoração dos seus cinquenta anos de carreira

    O rei Roberto Carlos joga rosas ao público após sua performance no American Airlines Arena de Miami, no último dia 10 de abril de 2010, em show de comemoração dos seus cinquenta anos de carreira

Roberto Carlos é uma presença tão grande na música pop há tanto tempo que, quando despontou, ele foi apelidado de “o Elvis Presley do Brasil” e já abriu um show no país para Bill Haley and His Comets. Mas 50 anos, 120 milhões de álbuns vendidos e várias mudanças de estilo depois, ele costuma ser descrito com mais frequência como “o Frank Sinatra da América Latina”. 

Nenhum latino-americano vendeu mais álbuns do que Roberto Carlos, que se apresentará nas noites de sexta e sábado no Radio City Music Hall, parte de uma turnê norte-americana que concluirá um ano de eventos celebrando seu meio século de carreira. Peça para que ele explique o segredo de seu longo sucesso e a resposta insinua seu gosto e caráter camaleônico. 

“Eu gosto de escutar todo tipo de música, de bossa nova a sertanejo, e de vez em quando eu me arrisco”, disse o cantor, que completará 69 anos na segunda-feira, em uma entrevista por telefone de sua casa no Rio de Janeiro. “Mas o rock and roll, aquela batida e instrumentação, será sempre meu estilo, mesmo que esteja um pouco suavizado.” 

Nascido Roberto Carlos Braga em uma pequena cidade do interior do Brasil, ele se apresentou pela primeira em uma emissora de rádio local aos 9 anos. Inspirado por Elvis e Little Richard, ele foi para o Rio na adolescência, cantando e tocando guitarra em bandas com nomes como Os Sputniks, até conseguir um contrato de gravação como artista solo. 

Naqueles primórdios, como líder do que veio a ser conhecido como movimento Jovem Guarda, Roberto Carlos teve alguns de seus maiores sucessos com covers de sucessos pop e rock americanos como “Splish Splash”, “Road Hog” (O Calhambeque), “Unchain My Heart” (Desamarre o Meu Coração), “Alley-Oop” (Brucutu) e “The Wanderer” (Lobo Mau). Mas por volta de 1965, ele começou a despontar como compositor com talento para adivinhar o gosto popular, geralmente compondo com o amigo e colega de banda da adolescência, Erasmo Carlos Esteves. 

Essa parceria continua até hoje e produziu mais de 500 canções, muitas delas também gravadas por outros artistas. Os críticos brasileiros gostam de comparar a dupla a Lennon e McCartney, não apenas por causa da vasta produção, mas também pelo contraste de estilo e gosto entre os dois. 

“Eles não passam mais muito tempo andando juntos, mas há uma química quase perfeita entre eles” quando compõem, disse Paulo César Araújo, autor da biografia “Roberto Carlos em Detalhes”. “Erasmo é mais pauleira, com o rock and roll pulsando nas veias, enquanto o Roberto tende a ser mais suave, mais romântico.” 

Em meados dos anos 60, Roberto Carlos também começou a gravar em espanhol de olho no mercado da vizinha Argentina. Mas à medida que evoluiu para um cantor romântico, com gosto por Sinatra, Tony Bennett, boleros e outros estilos sentimentais latinos, sua popularidade foi às alturas e se espalhou para o norte, até o México, rivalizando com a de Julio Iglesias. 

Desde os anos 70, as composições mais populares de Roberto Carlos –“Detalhes”, “Amada Amante” e “Café da Manhã”– foram as baladas românticas, não o rocks como “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”, um de seus primeiros sucessos e ainda popular entre as bandas punks. “Amigo”, outro grande sucesso, era uma canção favorita do papa João Paulo 2º, frequentemente tocada em suas visitas às Américas, algo que agrada em particular ao cantor. “Eu sou religioso, sou católico, gosto de mensagens”, ele disse. 

Mas mesmo quando está cantando uma canção alegre, sua voz contém uma certa melancolia. Sua vida não foi fácil: ele perdeu parte da perna em um acidente ferroviário na infância; seu filho, Roberto Jr., é cego; e em 1999, sua terceira esposa, Maria Rita, que ele considerava o amor de sua vida e a inspiração para suas canções mais românticas, morreu de câncer aos 38 anos. 

A certa altura nos anos 90, Roberto Carlos também caiu vítima de um transtorno obsessivo-compulsivo. Isso o impedia de cantar alguns de seus maiores sucessos, que continham certas palavras que se tornaram tabu para ele, como “mal” e “mentira”, e reforçaram seus tiques de palco, como aparecer contra um fundo azul e sempre vestir branco. 

Mas em 2004 ele tornou público o seu problema, dizendo a uma revista brasileira que “minhas manias estavam me incomodando”, e anunciou que estava se tratando. Talvez como resultado, suas apresentações parecem revigoradas nos últimos anos. 

“Eu sempre me senti à vontade no palco e nunca achei que o TOC me afetasse quando estava lá”, ele disse quando perguntado sobre o problema. “É verdade que algumas canções eu não cantava mais e em outras eu evitava uma ou outra palavra, encontrando uma substituta. Mas eu voltei a cantar muitas delas e espero cantar todas.” 

Mas seu estilo de vida permanece recluso, a ponto de ter procurado a Justiça há poucos anos e conseguido uma decisão suspendendo a distribuição da biografia de Araújo, com base em invasão de privacidade. Ele vive em um bairro não especialmente elegante aos pés do Pão de Açúcar e evita tão assiduamente concertos, partidas de futebol e outros eventos públicos que quando resolve sair isso vira notícia. 

“Eu sei que quando eu saio eu vou encontrar a afeição do público, e encaro isso com serenidade”, ele disse. “É preciso ver isso de modo positivo. Mas todo mundo gosta de um pouco de privacidade, de ter sua liberdade, e eu também tento ter isso.” 

Antes da turnê de aniversário, o projeto mais recente de Roberto Carlos foi uma colaboração com Caetano Veloso em um tributo ao vivo a Antônio Carlos Jobim, lançado tanto em CD quanto em DVD. Caetano, um fundador do movimento Tropicália, é um favorito da crítica, elogiado por suas tendências vanguardistas e constante experimentação. Isso pareceria colocá-lo em um campo estético diferente, mas ele cita Roberto Carlos como uma de suas maiores influências. 

Em seu livro de memórias, “Verdade Tropical”, por exemplo, Caetano chama Roberto Carlo de “O Rei” e o descreve como “a presença simbólica do Brasil”. Ele também elogia os primeiros trabalhos de Roberto Carlos como iguais aos dos Beatles e Rolling Stones, com a diferença de que a banda original do cantor “estava mais próxima da Motown e de James Brown do que um grupo inglês de neo-rock and roll”. 

Para Roberto Carlos, o projeto de bossa nova representou um retorno às suas raízes, o que parecia prenunciar outra mudança de estilo. “Foi um marco”, disse Nelson Motta, um compositor, produtor e escritor que lembra de tê-lo visto no início de sua carreira, quando era menosprezado como um clone de João Gilberto, o inventor do estilo contido de cantar da bossa nova. 

“É preciso ser muito bom, ter muito talento, para ser criticado disso”, disse Motta. “É como ser acusado de ser uma cópia de Pelé sendo jogador de futebol. Roberto sempre teve aquele temperamento e voz da bossa nova, aquela coisa contida, mas como o pessoal da bossa nova o rejeitava, ele foi para o lado do rock. Ele passou por um longo declínio com todos aqueles discos românticos e religiosos, mas agora eu o vejo renovado e animado, e isso me deixa ávido para ouvir seu próximo álbum de canções próprias.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h49

    -0,05
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h35

    0,04
    76.004,15
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host