UOL Notícias Internacional
 

18/04/2010

Em alguns casos de adoção, o amor não resolve todos os problemas

The New York Times
Sarah Kershaw
  • Alyssa Schukar/The New York Times

    Ian ''Igar'' Baehr, 10, Kelly Lytle Baehr, Erik "Vladik" Baehr, 10, e Viktor Chebotaryov, 18, brincam em Omaha (EUA). Kelly e o marido adotaram os três meninos ucranianos em 2008

Vez ou outra, Kelly Lytle Baehr não tinha certeza se conseguiria lidar com a situação. Há dois anos, ela e o marido adotaram três meninos da Ucrânia – dois deles com oito anos, e o outro com 16 – e os levaram para sua casa em Omaha, Nebraska (EUA). Ela sabia que a adaptação à vida familiar não seria fácil; os três tinham um passado problemático, e um deles havia passado cinco anos num orfanato-prisão na Ucrânia, e sua mãe bebeu durante a gravidez.

Com frequência ela foi testada até o limite ao criar seus três novos filhos. O mais novo, Ian (que antes se chamava Igor) costumava procurar brinquedos nos lixões da Ucrânia, e suas únicas posses eram calotas e peças de carro descartadas. Na casa dos Baehrs em Nebraska, ele logo se tornou um cleptomaníaco incontrolável, diz ela. O outro menino de oito anos, Erik, teve dificuldades para se ligar a ela – chutando, gritando, mordendo e esbravejando “eu odeio você”. Só o filho mais velho, Viktor, pareceu receber bem sua nova vida, e rápido, integrando-se facilmente à família e tirando boas notas no colegial.

As dificuldades foram um dos motivos pelo qual Baehr disse que seu casamento acabou (ela está finalizando o divórcio e ficou com a custódia total das crianças) e também a razão pela qual ela disse que, quando viu no noticiário há duas semanas que Torry Ann Hansen enviou seu filho adotivo de sete anos de volta para a Rússia de avião, sem acompanhante, apenas com um bilhete para as autoridades, sentiu algo parecido com simpatia. “Basicamente, eu me pareço muito com essa mulher em Tennessee”, disse Baehr numa entrevista por telefone esta semana. “Todos passamos por isso.”

O incidente pareceu inacreditável para a maioria das pessoas: uma mulher descartar seu filho mais novo como se fosse um produto com defeito. Isso gerou uma discussão incessante nas redes de televisão, manchetes nos principais jornais do país, e até um certo incidente internacional, com relatos de que a Rússia havia suspendido todas as adoções para os Estados Unidos por tempo indeterminado.

O caso também mexeu com o emocional – e talvez tenha até atraído a simpatia – das famílias de todo o país que passaram pelo processo de adotar uma criança estrangeira e sabem como é difícil a adaptação. E ele também levantou questões sobre o quanto as agências de adoção norte-americanas sabem sobre o passado das crianças que trazem de países estrangeiros, e se os pais estão preparados de forma adequada para os desafios que irão enfrentar.

“Você nunca pode pensar que está recebendo uma folha em branco”, diz Victoria Barret, que mora em Tiverton, Rhode Island, e adotou duas crianças de orfanatos na Sibéria, um menino e uma menina, hoje com oito e sete anos de idade. “Você não pode pensar, de jeito nenhum, que tudo o que precisa fazer é amar a criança e todo o resto irá bem. Não é assim. É preciso ter um cuidado especial.”

  • Gretchen Ertl/The New York Times

    Victoria Barrett e sua filha Renee, 7, se abraçam enquanto o pai, Jim, caminha com o filho Raymond, 8. Os Barret adotaram Renee na Rússia

Barrett diz que ela aprendeu isso por meio de tentativa e erro ao longo de anos de dificuldades com sua filha, Renee, que teve problemas para se ligar afetivamente à mãe e outros sintomas clássicos de institucionalização, raiva e indiferença. Há três anos, todos os meses, ela leva as crianças a um programa de aconselhamento para famílias adotivas que ainda oferece terapia para os pais por telefone quando é necessário.

Recentemente ela estava discutindo o caso de Tennessee com seus filhos e Renee perguntou: “Por que aquela mãe não pode fazer o que nós fazemos e ir para Boston falar com um terapeuta?”

Esta é uma pergunta que outras pessoas também podem estar se fazendo. “A maioria dos pais são muito, muito mal preparados”, diz Ronald S. Federici, neuropsicólogo do desenvolvimento. “As agências dizem que oferecem treinamento e apoio – mas isso é mentira. Algumas dão, mas a maioria não. Muitas famílias não tem nenhuma informação sobre o trauma psicológico gigantesco das crianças que são negligenciadas e privadas de cuidados, têm pouca socialização e profundas falhas no desenvolvimento.”

A Rússia é o terceiro país na lista de adoções nos Estados Unidos, depois da China e da Etiópia, com cerca de 1.600 adoções em 2009, de acordo com os números do Departamento de Estado. Cerca de 3,5 mil crianças russas e 3 mil famílias norte-americanas estavam em algum ponto do processo de adoção quando o país interrompeu as adoções. A Rússia é uma escolha comum entre os pais adotivos porque o processo pode ser muito mais rápido do que em países como a China, e porque com frequência há mais meninos disponíveis.

Mas as adoções da Rússia ficaram menos frequentes nos últimos anos, à medida que o país colocou mais ênfase nas adoções internas e passou a exigir mais documentos e visitas das famílias adotivas.

A maioria das adoções internacionais e nacionais são bem sucedidas, mas o caso de Hansen chamou atenção para as que são problemáticas e precisam de mais serviços de apoio para as famílias com dificuldades, dizem os especialistas em adoção. Algumas agências, incluindo a usada por Hansen, oferecem treinamento e preparação extensivos e serviços continuados de apoio, treinando os pais em temas como a síndrome do alcoolismo fetal e os efeitos neurológicos da institucionalização nas crianças. Os estudos mostram, por exemplo, que a cada mês que uma criança passa num orfanato, seu QI cai um ponto.

“A maioria das agências com boa reputação tentam colocar na cabeça dos candidatos a pais que eles precisam estar preparados para os riscos e para inúmeras possibilidades, que precisam pensar seriamente nisso”, diz Kathy Legg, diretora-executiva da Spence-Chapin, uma conhecida agência de adoção em Nova York. “Às vezes contamos a eles as piores histórias e eles desistem.”

Mas os serviços disponíveis depois da adoção são irregulares – completos em alguns lugares e inexistentes em outros – e os cortes no orçamento do governo estão reduzindo os recursos que os financiam, de acordo com organizações que apoiam famílias adotivas.

Ellen McDaniels leva sua filha, que adotou da Rússia em 2001 aos 8 anos, a terapeutas faz tempo. A menina passou seus primeiros cinco anos de vida num orfanato e depois foi adotada por outras duas famílias antes que McDaniels, que mora no oeste de Massachusetts, e seu marido a adotassem. McDaniels, 52, diz que descobriu mais tarde que a menina havia sofrido abuso sexual algumas vezes e que havia sido enviada para o orfanato quando tinha 18 meses de vida, depois que sua mãe alcoólatra morreu de tuberculose. Um psiquiatra diagnosticou a menina com síndrome do estresse pós-traumático e distúrbio reativo de vinculação, incapacidade de compreender ou de sentir remorso por suas ações, disse McDaniels.

A menina um dia disse à mãe: “As vozes dentro de mim estão me dizendo para fazer sexo com crianças pequenas e matá-las.”

Por fim, há dois meses, depois do que McDaniels descreveu como nove anos de esforços assustadores, exaustivos e dolorosos para lidar com os problemas comportamentais de sua filha – entre eles o fato de a menina ameaçar outras crianças e abusar delas sexualmente, ameaçar colocar fogo na casa, esconder facas na cama, recusar-se a tomar remédios e fugir – ela desistiu da adoção. (Quando os pais fazem isso, abrindo mão de seus direitos de paternidade, o fato é conhecido como rompimento. Os pais devolvem as crianças para a custódia do Estado, por meio de uma instituição infantil ou, o que é mais provável, através de uma agência de adoção que os orienta em como cancelar o processo. A agência de adoção pode então procurar outro lar para a criança.)

“Nós vivíamos no inferno”, diz McDaniels. “Eu ficava acordada a noite inteira, enquanto meu marido dormia. Tínhamos alarme nas portas; que ela arrancou. Quanto mais eu pedia ajuda, pior as coisas ficavam. Eu me transformei numa carcereira.”

Ela relatou seus problemas para a agência estatal de proteção às crianças, e eventualmente a menina foi enviada para um centro de tratamento do Estado durante um ano. Quando McDaniels disse ao Estado que não seria capaz de receber a menina de volta, foi processada por abandono, mas as acusações foram retiradas mais tarde.

A decisão de cancelar a adoção, mesmo depois de tantos anos difíceis, foi dolorosa, diz McDaniels, e ela se sentiu devastada pela culpa e vergonha.

“Senti que eu havia fracassado e a condenado a uma vida sem esperança”, diz ela. “Eu sabia que não era capaz de ajudá-la, mas sabia que não queria jogá-la fora. Mas às vezes, como mãe, você sente que tem muito mais poder do que têm de fato. Você pergunta a si mesma: 'será que posso fazer uma diferença na vida dessa criança?' E a resposta é não, você precisa desistir.”

  • Elijah Morton, 7, abraça sua mãe, Wendi Morton. Ele e seu irmão biológico, Paul, 10, foram adotados em orfanatos russos enquanto Gracie, 5, foi adotada na Guatemala

“Não concordo com o que Torry Hansen fez”, diz ela. “Mas chego a pensar que há uma pequena parte de mim que diz: 'ela se livrou de nove anos de tormentos'. Sabendo o que eu sei agora, teria desistido antes porque muitas pessoas acabaram sofrendo.”

Wendi Morton, 58, e seu marido Trevor, que moram na pequena cidade de Carthage no leste do Texas, acabaram adotando seu filho Elijah, há pouco mais de cinco anos, por causa de uma adoção que não havia dado certo. Morton tinha dois filhos biológicos de seu primeiro casamento, e ela e Trevor decidiram que queriam adotar mais um filho juntos.

O casal começou a procurar uma criança da Rússia, e preencheram documentos durante meses, mas descobriram através de outros pais adotivos, que Morton havia conhecido na internet, que um bebê de 18 meses com síndrome do alcoolismo fetal havia sido devolvido por sua família adotiva norte-americana e precisava de um novo lar.

Como Morton estava interessada em adotar uma criança russa, ela tinha se informado sobre a síndrome – que é mais comum na Rússia do que na maioria dos países, segundo os especialistas em medicina da adoção – e disse que reconheceu os sinais logo que conheceu o bebê em Dallas.

“Ele não conseguia mastigar, não andava, estava atrasado em muitas coisas, e tinha um comportamento parecido com autismo”, diz ela. “As mãos dele batiam em tudo. Ele tinha algumas características faciais da síndrome, todas as coisas que a gente lê sobre ela. Mas não sei explicar, eu simplesmente sabia que ele era nosso.”

O menino, hoje com sete anos, havia sido batizado como Oleg. Sua primeira família adotiva deu-lhe o nome de Ethan, e então os Morton o chamaram de Elijah. Os primeiros anos foram difíceis.

“Ele lutava com todas as forças para não olhar para você”, diz Morton. “Se você tocassem em seu rosto ou cabeça, ele gritava e chorava. Ele ficava contente de sentar no quarto e ficar girando em círculos, ou se balançando, ou batendo em sua própria cabeça.”

Os Morton pagaram fonoaudiólogo, terapia ocupacional e outros serviços para ele. Eles dizem que ficaram felizes quando conseguiram colocá-lo numa sala de aula para crianças com necessidades especiais, embora não saibam se o menino será capaz de viver por conta própria quando adulto.

“Nós nunca nos arrependemos por nada”, diz Morton. “Não vou dizer que foi um caminho fácil, mas ele é, honestamente, nosso pequeno milagre.”

O casal adotou uma menina, Grace, da Guatemala, que hoje tem cinco anos e uma saúde perfeita.

Depois Morton contratou um detetive particular para descobrir mais sobre a família de Elijah. Ele descobriu um irmão mais velho, Nikolai, que vivia num orfanato na Sibéria desde os dois anos de idade. Há dois meses, os Morton trouxeram-no para casa.

O menino, que os Morton chamaram de Paul, não teve síndrome do alcoolismo fetal. Mas tem outros problemas de saúde e, como os Morton descobriram nos dois últimos meses, uma raiva descomunal. Ele machuca a si mesmo, batendo sua cabeça contra as paredes e se mordendo e machucando, ficando furioso quando negam algo que ele quer.

“Nunca vi nada parecido”, diz Morton. “Ficamos com medo de que alguém achasse que nós o machucamos.”

Ela levou o menino a vários médicos. E ligou para a agência local de adoção, da qual não quis revelar o nome porque uma amiga está tentando adotar pela mesma agência, para pedir ajuda.

“Disse a eles a verdade horrível das coisas que estávamos passando. O que eu recebi como resposta foi um 'sinto muitíssimo por ouvir isso e espero que as coisas melhorem'”, conta ela.

“E não é fácil pedir ajuda, diz ela. Quando ela vai à igreja ou encontra pessoas na cidade, todos dizem que ela é uma santa por adotar essas crianças problemáticas, conta.

“Eu sempre ouço coisas como: 'nossa, você é fantástica' e tudo mais, e o tempo todo fico pensando, ah, se soubesse que ia ter tantos problemas com esse menino, e como eu de fato não gosto dele às vezes.”

Mas, ela acrescentou: “Eu o amo. Eu o amo há mais de três anos. Embora eu não tenha olhado para ele, tenho amado esse menino durante todo esse tempo. E da mesma forma que amo meus filhos biológicos, não consigo cogitar a ideia de virar minhas costas para ele.”

Não há estatísticas confiáveis sobre o número de famílias que desistem da adoção, porque muitos Estados não mantêm registros das crianças depois que elas são adotadas legalmente. Mas há cada vez mais pesquisas, e um novo estudo do Attachment and Bonding Center de Ohio, que começará no mês que vem, sobre o fenômeno que segundo os pesquisadores parece estar aumentando.

E algumas organizações de apoio a famílias adotivas – que observam que a maioria das adoções internacionais e nacionais são bem sucedidas – dizem que os pais deveriam se sentir menos envergonhados por considerar a ideia do rompimento. Poderia ter sido melhor para o filho dos Hansen, Justin, que poderia ter encontrado outra família, disseram, embora a Associated Press tenha informado que três famílias russas se ofereceram para adotar Justin.

“O rompimento deveria ser mais discutido”, diz Susan L. Caughman, editora da revista Adoptive Families, que publica artigos sobre como os pais adotivos podem conseguir ajuda. “É uma decisão horrível a se tomar. Mas se você não consegue cuidar de uma criança, se você não está preparado para fazer todas as coisas que têm de ser feitas, não sofra em silêncio.”

Normalmente os pais precisam assinar um documento que diz que as agências de adoção não podem ser responsabilizadas pelo fato de uma criança apresentar problemas das quais ela não havia sido informada. Especialistas dizem que as agências com boa reputação deixam claros os riscos associados à adoção internacional, porque com frequência as crianças são abandonadas ao nascer ou os orfanatos não têm suas fichas médicas completas.

No começo desta semana, tudo parecia bem na casa dos Baehr. Ela publicou uma mensagem no Facebook dizendo: “Jantamos com os meninos num restaurante mexicano um tanto questionável. Na sequência ouvimos Black Eyed Peas em casa e dançamos em família! U-hu!”

Mas o passado nunca está distante. Durante uma entrevista por telefone, Ian falou sobre o fato de gostar de morar nos Estados Unidos porque é “mais pacífico”.

Depois, quando perguntamos de onde veio, ele respondeu: “da prisão”.

Os primeiros meses foram de difícil adaptação para todos. Mas depois de seis meses de aconselhamento para ajudar a controlar seus impulsos, comuns em outras crianças que passaram por instituições e foram expostas ao álcool quando estavam no útero, as coisas melhoraram para Ian. E agora ele parece saber o quanto é afortunado.

Quando fez nove anos e ganhou seus presentes de aniversário, ele disse à sua mãe adotiva: “Eu gostaria de pegar o que eu tenho agora e dar para mim mesmo quando eu era pequeno.”

Tradução: Eloise De Vylder

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