UOL Notícias Internacional
 

18/04/2010

Sob a nuvem de escândalo e de cinzas vulcânicas, o papa viaja à Malta

The New York Times
Rachel Donadio
  • Maurizio Brambatti/EFE

    Papa Bento 16 fala aos jornalistas dentro do avião que o levou à Malta, país que passa por recentes escândalos envolvendo padres que molestaram sexualmente menores de idade

Apesar da nuvem de cinzas vulcânicas que se espalhou pela Europa, o papa Bento 16 chegou a este país católico na noite de sábado em sua primeira viagem ao exterior desde que a crise por causa dos casos abuso sexual tomou conta da Igreja Católica Romana.

Sua visita – que celebra o 1.950º aniversário do naufrágio de São Paulo em Malta – acontece no momento mais turbulento dos cinco anos de papado de Bento 16, que está lutando para lidar com uma série de acusações de que a hierarquia da igreja não agiu rápido o suficiente para disciplinar os padres que cometeram abuso sexual de menores.

Diante de novas informações que questionaram o papel de Bento 16 como bispo em Munique na década de 80 e depois como chefe do escritório do Vaticano que cuidava dos casos de abuso, o Vaticano assumiu uma postura defensiva em relação às críticas, embora Bento 16 tenha começado a usar um tom diferente ao falar diretamente sobre a situação pela primeira vez na quinta-feira.

“Agora sob o ataque do mundo, que nos fala sobre os nossos pecados, vemos que a capacidade de se arrepender é uma graça, e vemos como é necessário se arrepender”, disse ele num sermão durante uma missa privada, sem transmissão televisiva. Mas ele ainda precisa tomar as atitudes fortes que as famílias das vítimas e os críticos da igreja demandam.

Não ficou claro se o papa usará esta viagem para continuar tentando lidar com o assunto. Ele tem dois discursos planejados para o sábado, e o Vaticano deixou em aberto a possibilidade de ele se encontrar com alguns homens malteses que dizem ter sido abusados sexualmente por padres num orfanato.

Mas no voo de uma hora até aqui, ele se encontrou com repórteres por cinco minutos e não falou diretamente sobre o assunto nem respondeu a perguntas, preferindo usar novamente a mesma linguagem velada que, segundo um porta-voz do Vaticano, deveria ser considerada como “reflexões” sobre o escândalo de abuso. Assim como o naufrágio de São Paulo “deu a Malta a boa sorte de receber a fé, também podemos pensar que os naufrágios da vida podem trazer o projeto de Deus até nós e serem úteis para um novo começo em nossas vidas”, disse Bento 16, de acordo com a Reuters.

Um grupo de dez homens malteses, que entraram com uma queixa criminal contra padres que teriam abusado deles quando eram crianças num orfanato nos anos 80, pediu para se encontrar com Bento 16. O porta-voz do Vaticano, reverendo Federico Lombardi, disse no começo da semana que ele não descartava um encontro como este, mas que ele teria de acontecer longe da “pressão da mídia”.

Lawrence Grech, 37, um dos dez homens que entraram com a queixa, disse que foi molestado sexualmente durante anos e espera que a visita de Bento 16 chame atenção para o caso deles. “O que eu quero é fechar essa história, e que a justiça seja feita”, disse Grech numa conversa telefônica. “Isso não tem a ver com dinheiro; e sim com informação”. O arcebispo de Malta se encontrou com o grupo de homens pela primeira vez na semana passada, e o promotor-chefe de justiça interna do Vaticano que cuida dos casos de abuso, monsenhor Charles J. Scicluna, que é de Malta, também concordou em encontrá-los.

Uma visita a esta minúscula ilha católica no meio do caminho entre a Sicília e o norte da África sempre foi um festa para os pontífices. O divórcio e o aborto são ilegais aqui, e numa população de 443 mil pessoas, um terço das crianças frequenta escolas católicas. Mas nos últimos dias cartazes anunciando a visita de Bento 16 foram vandalizados.

Entretanto, no sábado, as ruas estreitas do centro da cidade portuária de Valletta estavam decoradas com bandeiras brancas e amarelas para a visita, e posteres de Bento 16 adornavam algumas vitrines de lojas.

Alguns moradores locais disseram que estavam felizes com a visita de Bento 16. Domenic Caruana, que vendia verduras frescas ao lado de um caminhão, disse que não entendia as críticas a Bento 16 por causa do escândalo de abuso sexual. “Por quê?”, perguntou. “Por que todos estão falando sobre coisas que aconteceram há 50 anos?”

“Quando ele chegar, terá um grande apoio”, disse Caruana.

Alguns leitores que escreveram cartas ao editor do jornal The Independent pareciam mais satisfeitos com o fato de que o governo havia pavimentado algumas das ruas esburacadas de Malta antes da visita de Bento 16.

Ao longo dos séculos, Malta alternou entre o domínio árabe, cristão e otomano, antes de se tornar um entreposto britânico. O país se tornou uma república em 1974. Em sua visita de um dia, Bento 16 deve falar sobre temas centrais de seu papado: as raízes cristãs da Europa e a luta contra o secularismo, disse Lombardi durante uma coletiva de imprensa que anunciou a viagem no começo da semana passada.

Bento 16 também deve tocar no delicado assunto da imigração. Malta, que é membro da União Europeia desde 2004, já se indispôs com o programa Frontex, segundo o qual os Estados mediterrâneos da UE devem receber e determinar o destino de um grande número de imigrantes ilegais que nos últimos anos deixaram o norte da África em direção à Europa.

Bento 16 deve visitar uma pequena caverna onde São Paulo teria se abrigado depois do naufrágio. Ele também deve celebrar uma missa ao ar livre no domingo em Valletta.

Tradução: Eloise De Vylder

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