UOL Notícias Internacional
 

21/04/2010

Partido Liberal sacode a disputa eleitoral no Reino Unido

The New York Times
John F. Burns
Em Chippenham (Inglaterra)
  • O candidato Liberal do Reino Unido, Nick Clegg, durante coletiva de imprensa em Londres

    O candidato Liberal do Reino Unido, Nick Clegg, durante coletiva de imprensa em Londres

Enquanto Nick Clegg percorria a paisagem verde exuberante a oeste de Londres por trem na terça-feira, ela passou grande parte de seu tempo contestando as sugestões de que, restando apenas duas semanas para as eleições de 6 de maio, ele estava a caminho de causar a maior zebra na história recente do Reino Unido. Clegg é líder do Partido Liberal Democrata, o perene perdedor na disputa de três partidos que domina a política britânica há décadas. Segundo as pesquisas, o primeiro debate exibido pela televisão entre os candidatos a primeiro-ministro, na semana passada, deixou seu partido em uma disputa apertada com os trabalhistas e conservadores. 

A eleição já era considerada apertada quando parecia uma disputa entre os trabalhistas e conservadores. Agora, com algumas pesquisas mostrando liberais e conservadores disputando cabeça a cabeça e os trabalhistas alguns poucos pontos atrás, os comentaristas políticos estão começando a dizer que o debate televisionado teve o efeito de um vulcão político, mudando a paisagem eleitoral. 

Clegg, um homem alto de 43 anos que fala várias línguas e veste um terno elegante, passou a imagem de bacana para a audiência do debate. Durante a viagem a um eleitorado no oeste da Inglaterra que há muito simpatiza com os liberais democratas, ele insistiu que não deixaria as pesquisas mexerem com sua cabeça. 

Quando perguntado na entrevista a bordo do trem sobre o que pensava das comparações com a campanha presidencial de 2008 do presidente Barack Obama, Clegg riu. Ele disse que qualquer uma das grandes analogias –com Obama, com o ex-primeiro-ministro Tony Blair na vitória eleitoral esmagadora dos trabalhistas em 1997 ou com Winston Churchill, para citar três comparações feitas pelos jornais britânicos no fim de semana– é “tolice”. 

“Algumas dessas alegações são absurdas”, ele disse. “Eu tenho minhas falhas, mas estou suficientemente em contato com a minha realidade para saber que aquilo que sobe pode descer. Quanto mais as pessoas empurram você para cima, mais você tem que cair. É a lei da gravidade.”

As pesquisas fracassaram notoriamente em pelo menos uma eleição britânica nos últimos 20 anos, quando os conservadores de John Major derrotaram os trabalhistas em 1992, mas o aumento das intenções de voto em Clegg e nos liberais democratas tem sido forte e, no caso dos trabalhistas, que ficaram em terceiro lugar na pesquisa “The Guardian/ICM” pela primeira vez, histórica. 

Clegg parece estar se beneficiando da revolta dos eleitores com os partidos estabelecidos, semelhante às paixões anti-Washington que movimentaram a política presidencial americana por uma geração. 

O escândalo do ano passado das despesas dos membros do Parlamento permanece uma ferida aberta e alguns especialistas se perguntam se o comparecimento dos eleitores será equivalente ao da última eleição, em 2005, quando o ocorreu o comparecimento mais baixo em décadas, de pouco mais de 60%. Clegg, entretanto, está apostando que um elemento da fórmula vitoriosa de Obama –a mobilização de milhões de jovens– pode estar em andamento aqui. 

Este foi o motivo para ele ter visitado uma pequena faculdade agrícola nesta cidade, a 145 quilômetros a oeste de Londres, conversando com os estudantes em meio ao barulho de motores, enquanto duas equipes de estudantes montavam tratores a partir de partes empilhadas no chão de um celeiro. 

“Muita gente está cansada da velha política”, ele disse em uma entrevista, uma das muitas que ele conduziu com um contingente da imprensa que mais que dobrou desde o debate. “O que estou comprometido em tentar fazer é mudar o sistema esgotado de dois partidos. As pessoas estão cansadas de serem enganadas a fazerem uma escolha entre os times vermelho e azul, e querem tomar suas próprias decisões.” 

Eleições no Reino Unido: debate de políticos na TV

Poucos especialistas políticos aqui deram a Clegg alguma chance de se colocar na cadeira de primeiro-ministro. Os números dos liberais democratas nas pesquisas, muitos deles altamente concentrados em distritos favoráveis, tendem a ofuscar o desafio intimidante de conquistar o grande número de cadeiras que seria necessário. Até mesmo 100 cadeiras na Câmara dos Comuns, em comparação às 62 que conquistaram em 2005, seria um grande avanço. 

Mas a ascensão de Clegg energizou a batalha entre o primeiro-ministro Gordon Brown, dos trabalhistas, e o líder conservador David Cameron, que passaram grande parte do debate na TV se enfrentando, enquanto Clegg se concentrava em falar para a audiência da TV. De lá para cá, os dois outros líderes disseram que os votos para os liberais democratas servirão apenas para realizar o que os eleitores parecem dispostos a evitar: “mais cinco anos de Gordon Brown” (o argumento de Cameron) ou um “retorno do velho elitismo dos conservadores” (o argumento de Brown). 

Isso fez com que Clegg se mantivesse independente, evitando qualquer indício de qual partido, trabalhista ou conservador, ele apoiaria em caso da eleição resultar em um Parlamento indefinido, como preveem muitos comentaristas políticos. Brown, frequentemente circunspecto em suas aparições públicas, tem parecido positivamente alegre desde o debate, talvez julgando, como muitos especialistas, que Clegg é uma ameaça maior a Cameron. 

Isso porque Clegg exibe sinais de ter herdado o manto do desafiante novato que Cameron desfrutou por tanto tempo na tentativa de retirar os trabalhistas do poder. Como Cameron, ele é produto de uma família rica, educado em uma escola particular cara e em Cambridge. É um histórico tão exclusivo quanto o de Cameron, apesar de Clegg ter evitado até o momento ser rotulado pelos trabalhistas de “esnobe”, como fizeram com Cameron. 

Clegg falou com entusiasmo na entrevista sobre suas experiências americanas, incluindo uma viagem de carro de costa a costa no ano em que fez um curso de pós-graduação na Universidade de Minnesota. Ele também trabalhou como assessor de um alto funcionário da Comissão Europeia, em Bruxelas, onde ele conheceu sua esposa nascida na Espanha, Míriam González Durantez, uma advogada internacional que recebeu elogios da imprensa britânica por romper com a tradição e dizer que tem pouco tempo para fazer campanha ao lado de seu marido. 

O desafio agora, segundo os comentaristas, para Clegg manter sua ascensão nas pesquisas é defender as políticas liberais democratas que os trabalhistas e conservadores condenam como uma frouxa, mas que, eles dizem, tem sido em grande parte ignorada, já que o partido ficou preso por décadas a um apoio de nem mesmo um quinto do eleitorado. 

Os oponentes de Clegg prometeram se concentrar nessas políticas, uma das quais o abandono da substituição no valor de US$ 30 bilhões dos mísseis nucleares Trident de submarinos, algo que trabalhistas e conservadores dizem que despojaria o Reino Unido de um elemento chave de sua defesa. 

“Não! Não!” disse Clegg, contestando as acusações dos rivais a respeito da política nuclear. Ele disse que o partido defende a procura por alternativas mais baratas ao sistema de mísseis Trident, incluindo mísseis de cruzeiro lançados do ar ou mar, e formas de combater a ameaça de terroristas obterem bombas “sujas”, não eliminar totalmente a força nuclear do Reino Unido. 

“Tudo o que estou dizendo é que o mundo está mudando”, ele disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,48
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,53
    75.604,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host