UOL Notícias Internacional
 

22/04/2010

No 40º aniversário, Dia da Terra é um grande negócio

The New York Times
Leslie Kaufman
  • Visitantes observam imagem da Terra durante a Conferência do clima da ONU, em Poznan (Polônia)

    Visitantes observam imagem da Terra durante a Conferência do clima da ONU, em Poznan (Polônia)

O sentimento antinegócios era tão forte no primeiro Dia da Terra, em 1970, que os organizadores não aceitaram dinheiro de corporações e realizaram palestras “para desafiar os líderes corporativos e governamentais”. 

Quarenta anos depois, o dia se transformou em uma das principais plataformas de marketing para venda de tudo, de produtos de escritório até iogurte grego e eco-odontologia. 

Para a celebração deste ano, a Bahama Umbrella está anunciando um guarda-sol especialmente projetado com um dreno, para que a água “possa ser armazenada, reutilizada e reciclada”. A Gray Line, uma empresa de turismo de Nova York, continuará operando com ônibus movidos a combustíveis fósseis. Mas a empresa está promovendo um pacote “Semana da Terra” de passeios de um dia a locais verdes, como jardins botânicos, e compra de flores no Chelsea Market. 

A FAO Schwarz está tirando proveito do Dia da Terra para exibir o Peat the Penguin, um boneco de pelúcia de cor esmeralda que, como parte da linha Greenzys, é feito de fibras de soja e ensina lições verdes para as crianças. O pinguim, aponta o material promocional da Greenzys, “é um defensor ardoroso da reciclagem, reutilização e redução do lixo”. 

Para muitos pioneiros do movimento ambiental, o ecoconsumismo, que está crescendo há décadas, é intensamente frustrante e deprecia o propósito original do Dia da Terra. 

“Este marketing ridiculamente pervertido deturpou o conceito do que é realmente verde”, disse Denis Hayes, que foi coordenador nacional do primeiro Dia da Terra e que está voltando para organizar as atividades deste ano em Washington. “É trágico.” 

Mas a disposição das corporações em participar do Dia da Terra também reflete a maior tolerância do movimento ambiental em relação à América corporativa: muitas “big greens”, como as principais organizações de defesa ambiental são conhecidas, agora aceitam que precisam do dinheiro das corporações ou pelo menos realizar parcerias com elas caso queiram promover avanços reais na mudança do comportamento social. 

Neste ano, em vez da realização de palestras, o Greenpeace se unirá a gigantes de tecnologia como Cisco e Google para realizar um “webnário” voltado a como usar novas tecnologias, como videoconferência e computação em nuvem, para reduzir a pegada de carbono do país. Daniel Kessler, um porta-voz do Greenpeace, disse ser necessário “promover um contrapeso à indústria do combustível fóssil”. 

Em 1970, o prefeito de Nova York, John V. Lindsay, discursou para uma plateia de dezenas de milhares na Union Square, no Dia da Terra, em um clima que o “New York Times” comparou a “um encontro ‘religioso’ secular”. 

Neste ano, o prefeito Michael R. Bloomberg estará em Times Square para anunciar medidas para reduzir o impacto de Nova York no meio ambiente. 

Usando o mesmo palco, a Keep America Beautiful (mantenha a América bonita), uma organização sem fins lucrativos que combate o desperdício e mal descarte de lixo, introduzirá “máquinas dos sonhos”, quiosques de reciclagem que estão introduzindo em conjunto com a PepsiCo. As máquinas pretendem aumentar a taxa de reciclagem para as embalagens de bebidas, que atualmente é de aproximadamente 36% em todo o país. 

A ironia, é claro, é que uma grande parte das mais de 200 bilhões das embalagens de bebidas produzidas anualmente nos Estados Unidos é preenchida com produtos da PepsiCo, como Mountain Dew e Aquafina; esse lixo de garrafas contribui para uma séria poluição das praias, oceanos e canais. 

Ainda assim, Matthew M. McKenna, presidente da Keep America Beautiful e ex-vice-presidente sênior da PepsiCo, disse que agarrou a oportunidade de se associar à sua antiga empregadora para o lançamento do novo quiosque no evento. 

“Nós não estamos encorajando a compra de Pepsi ou o consumo de seus produtos”, ele disse. “Nós estamos tratando do campo do que acontece quando eles são jogados fora.” 

Apesar do primeiro Dia da Terra ter sido criado pelo público, muitas corporações dizem que frequentemente é a comunidade empresarial que atualmente lidera na inovação ambiental –e eles querem manter seus consumidores interessados. Em uma era em que a população está mais dividida em relação à importância das questões ambientais do que há quatro décadas, o evento em abril oferece uma rara janela, eles dizem, em que os clientes estão abertos para saber a respeito das mudanças boas para o meio ambiente feitas pelas empresas. 

Frank Sherman, o diretor verde para os Estados Unidos do TD Bank, disse que a empresa se apressou na construção de uma agência bancária altamente eficiente em energia no Queens, para que estivesse pronta para ser entregue no Dia da Terra, porque é quando as pessoas “estão prestando atenção”. 

Os eventos do Dia da Terra original contaram com a participação de 20 milhões de americanos –até hoje uma das maiores participações em um evento político na história do país. Neste ano, apesar do dia ser amplamente marcado por eventos, incluindo um comício sobre o clima no Mall em Washington, o movimento não conta com o mesmo apoio que tinha há quatro décadas. Em parte, disse Robert Stone, um documentarista independente cujo filme sobre a história do movimento ambiental americano está sendo exibido pela TV educativa nesta semana, o movimento foi vítima de seu próprio sucesso em esclarecer os problemas do ar e da água. Mas isto é apenas parte do problema, ele disse. 

“Todo Dia da Terra é um reflexo de onde estamos culturalmente”, ele disse. “Se virou um produto, um consumismo verde em vez de uma mudança do sistema, então é um reflexo de nossa sociedade.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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