UOL Notícias Internacional
 

24/04/2010

Queimada de savanas na Venezuela provoca polêmica entre indígenas e pesquisadores

The New York Times
Simon Romero
Em Yunek (Venezuela)
  • Uma das enigmáticas montanhas em forma de platôs conhecidas como tepuis na Venezuela

    Uma das enigmáticas montanhas em forma de platôs conhecidas como "tepuis" na Venezuela

As montanhas envoltas na neblina que se ergue da floresta formam uma das mais intrigantes fronteiras de exploração e pesquisa do mundo, inspirando a novela de fantasia de Arthur Conan Doyle "O Mundo Perdido", de 1912, e equipes de biólogos ainda montam expedições para encostas distantes na esperança de encontrar novas espécies para a ciência.

Mas nas savanas abaixo as colunas de fumaça que pairam sobre a paisagem confirmam um costume que provocou um acirrado debate entre os cientistas da Venezuela e outros países: a tradição dos índios pemons de queimar repetidamente as campinas e florestas para caçar animais e plantar alimentos.

A seca que afligiu a Venezuela este ano está intensificando as alegações de que os pemons provocaram um aumento dos incêndios que as chuvas normalmente extinguiriam. Alguns especialistas em florestas dizem que os incêndios colocam a Gran Sabana - uma região mais ou menos do tamanho da Irlanda que inclui as enigmáticas montanhas em forma de platôs conhecidas como "tepuis" - em risco de desflorestamento e perda de espécies.

O governo do presidente Hugo Chávez já enfrenta uma ampla revolta pública sobre a falta de eletricidade, e a companhia de energia estatal teme que os incêndios possam diminuir as florestas que ajudam a reunir e liberar a água, e aumentar os sedimentos no complexo hidrelétrico de Guri, que fornece à Venezuela a maior parte de sua eletricidade.

Mas muitos pemons, juntamente com alguns pesquisadores que os estudam, dizem que os incêndios ajudam a evitar que o capim forme biomassa para incêndios muito maiores, que poderiam arrasar a região, como muitos incêndios selvagens devastaram partes da Indonésia em 1997.

"Os estrangeiros pensam que somos selvagens primitivos, mas eles ignoram nossos métodos", disse Leonardo Criollo, 46, um líder pemon cuja aldeia, Yunek, fica à sombra do maciço de Chimanta, uma série de 11 tepuis dos quais descem cachoeiras em paredes de rocha com mais de 1 km de altura. "Queimamos para viver em harmonia com as savanas que nos cercam."

O choque de opiniões sobre a prática secular faz parte de um debate mais amplo sobre a soberania e a administração adequada das terras indígenas. Grande parte da Gran Sabana é delimitada como parque nacional ou território militar. Mas alguns ecologistas afirmam que os povos indígenas de todo o mundo há muito tempo usam o fogo para alterar seus ecossistemas e moldar regiões como as pradarias do centro-oeste americano.

Relatos sobre as origens dos pemons na Gran Sabana diferem, mas alguns historiadores dizem que eles podem ter migrado para cá cerca de cinco séculos atrás, vindos do litoral da atual Guiana, depois de incursões de exploradores europeus. Paleoecologistas também discutem o quanto a Gran Sabana foi originalmente coberta por florestas e quando os incêndios provocados por humanos realmente começaram.

De qualquer modo, os pemons, que hoje são cerca de 25 mil, tiveram a Gran Sabana praticamente só para si até o início do século 21, quando missionários começaram a reforçar sua presença. Os missionários foram então seguidos por equipes de pesquisadores científicos e, em décadas mais recentes, por autoridades venezuelanas que construíram uma rodovia na década de 1970.

Toda a área está em fluxo hoje. Caminhões do Brasil lotam a rodovia pavimentada com produtos de consumo. Contrabandistas usam a mesma estrada para atravessar a fronteira levando gasolina. Soldados magros pedem propinas nos postos de controle. Os militares estão aumentando sua presença na área com uma nova base de monitoramento de satélites na aldeia de Luepa.

Através disso tudo, os pemons continuam colocando fogo em partes da Gran Sabana, já que as áreas recém-queimadas logo dão origem a novos capins que atraem presas cobiçadas, como o cervo de cauda branca.

"Por que eu mudaria um costume que funciona há gerações?", perguntou Antonio Garcia, 70, um caçador pemon, enquanto se preparava em uma manhã recente perto de Santa Elena de Uairen, uma cidade de fronteira muito pobre, cheia de atividade contrabandista.

A caça não é o único motivo. Bjorn Sletto, um especialista em planejamento da Universidade do Texas que estudou os hábitos incendiários dos pemons, viu-os queimar para limpar o capim de cobras e escorpiões; para se comunicar com sinais de fumaça; e para pescar, pois o fogo faz os insetos saltarem na água e atraem os peixes.

Mas um dos principais motivos dos pemons para queimar a savana, disse Sletto, pode ser a criação de uma paisagem mosaico dividida por incêndios naturais que evitam que incêndios maiores se espalhem. "Existem razões ecologicamente sólidas para os pemons manterem baixos os níveis de combustível na savana", ele disse.

Outros discordam. Nelda Dezzeo, uma bióloga de reflorestamento do Instituto de Pesquisa Científica da Venezuela, afirma que algumas florestas na Gran Sabana talvez nunca se recuperem dos repetidos incêndios. Ela disse que a ameaça de os incêndios se espalharem da savana para as florestas é especialmente preocupante.

"Existem áreas de florestas de nuvens na Gran Sabana onde novas espécies de árvores ainda são estudadas", ela disse. "Se os danos migrarem para essas áreas, essas espécies deverão se perder ou poderemos perder espécies que ainda nem conhecemos."

Os pemons enfrentam uma reação sobre os incêndios além do reino do debate científico. Venezuelanos não indígenas muitas vezes os chamam de "quemones", um trocadilho com a palavra espanhola para incendiário. "Os pemons são piromaníacos por natureza, e este ano vimos alguns dos piores incêndios que temos na memória", disse Raul Arias, 54, que opera um serviço de helicópteros na área.

Alguns pemons zombam de suas declarações. "As pessoas de fora vêm aqui e deixam seu excremento e seu lixo nos tepuis, depois se queixam dos incêndios que estragam a paisagem", disse Miguel Lezama, 46, um líder que vive perto do monte Roraima.

Novos motivos para alguns pemons causarem incêndios complicam ainda mais as coisas. Estudiosos viram um aumento dos incêndios em protesto contra a instalação de torres de eletricidade e a abertura da base de monitoramento de satélites. Outros pemons às vezes começam incêndios para pressionar o governo a atender a suas exigências de serviços.

Poucos especialistas sabem como esses incêndios vão afetar a Gran Sabana, além de semear a discórdia.

"O governo está errado se pensa que os pemons são carneiros dóceis nas savanas", disse Demetrio Gomez, 36, um líder pemon que participou de um protesto violento perto de Santa Elena de Uairen este ano para desalojar invasores da terra pemon. "Nós queimávamos essas terras muito antes que qualquer um chegasse aqui", ele disse, "e vamos continuar queimando até a eternidade."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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